Após alguns meses de uma guerra que levou o Golfo Pérsico e o conjunto do Oriente Médio a um dos momentos mais perigosos das últimas décadas, para não falar dos efeitos sobre todo o mundo, Estados Unidos e Irã anunciaram um esboço de um acordo de paz que prevê a interrupção das hostilidades, a reabertura do Estreito de Ormuz e o início de um período de negociações para tratar do programa nuclear iraniano e do levantamento de sanções econômicas. O entendimento, que foi mediado pelo Paquistão e apoiado por diversos governos da região, foi recebido com bastante alívio pelos mercados internacionais e por governos europeus, que temiam uma escalada ainda maior do conflito – com suas consequências de escassez de energia e inflação. Apesar do impacto imediato do anúncio, e da queda imediata dos preços do petróleo, por exemplo, ainda é cedo para afirmar que a região vá desfrutar de uma paz duradoura.

Vale observar que os três pontos até agora divulgados são uma volta atrás sem muita mudança. Não havia guerra antes de ser começada, não havia bloqueio do Estreito de Ormuz antes da guerra começar, e negociações sobre o programa nuclear iraniano sempre estiveram em curso, com maior ou menor velocidade, envolvendo uma série de outros países.

O acordo representa, primeiro, o reconhecimento de que a estratégia militar adotada pelos Estados Unidos e por seu aliado regional, Israel, não foi capaz de produzir uma vitória decisiva. Ao longo do período da guerra, EUA e Israel impuseram uma série de ataques ao Irã, com razoável poder de destruição, mas esses ataques foram revidados pelo Irã com também razoável poder de destruição sobre Israel, bases estadunidenses no Oriente Médio, e sobre governos da região aliados dos EUA, como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Qatar e outros. Aliás, esses governos regionais talvez tenham sido os mais prejudicados, pois tentavam se vender como porto seguro para turismo, conexões aéreas e investimentos tecnológicos, e para isso a paz era fundamental. Atingidos por bombardeios, vão ter que repensar seus projetos estratégicos.

Ao longo dos últimos meses, a expectativa de EUA e Israel era enfraquecer significativamente a capacidade estratégica do Irã, atingir sua cúpula político-religiosa e forçar mudanças profundas no regime iraniano e em sua política regional. No entanto, mesmo submetido a ataques intensos, o país manteve a capacidade de se governar e operar politicamente. Também mostrou capacidade de resposta militar e conseguiu impor custos econômicos relevantes aos seus adversários, especialmente por meio das ameaças ao tráfego marítimo no Golfo Pérsico (bloqueando o tráfego de navios, em especial petroleiros, no Estreito de Ormuz) e, por consequência, da instabilidade criada no mercado internacional de petróleo.

Os elementos concretos do acordo são o novo cessar fogo e a reabertura do Estreito de Ormuz, os outros pontos são conversas a serem aprofundadas ainda. O fechamento ou bloqueio parcial dessa rota teve efeitos imediatos sobre os preços da energia, a inflação internacional e a atividade econômica de diversos países. Não por acaso, a normalização do tráfego marítimo tornou-se prioridade para os EUA e seus aliados europeus e asiáticos, além de outros países grandes importadores de petróleo, como a Índia e até um aliado iraniano, a China. A reação dos mercados globais, com impacto positivo nas bolsas, na queda do dólar estadunidense e redução dos preços do petróleo, como consequência do anúncio do entendimento, demonstra que os agentes econômicos enxergam a redução do risco geopolítico como um fator decisivo para a recuperação da confiança econômica internacional.

Sob a ótica estadunidense, o acordo também responde a necessidades políticas domésticas. A continuidade da guerra vinha pressionando os preços da energia e aumentando o desgaste do governo em um contexto eleitoral delicado, com as chamadas “eleições de meio de mandato” marcadas para novembro desse ano. O conflito começava a produzir custos econômicos crescentes para os próprios Estados Unidos, tornando a negociação uma alternativa mais racional do que o prolongamento do conflito. A retomada das conversações sobre o programa nuclear iraniano surge, assim, como uma tentativa de transformar um impasse militar em uma solução diplomática que possa ser apresentada como vitória política, embora esse tema esteja sempre em pauta e já tenha sido negociado várias vezes anteriormente. Do ponto de vista dessa discussão, a situação é ainda menos confortável para os EUA, pois os iranianos sabem que têm a seu favor uma opinião pública nos EUA contrária à guerra.

Do lado iraniano, o governo também busca converter a resistência militar em ganhos diplomáticos e econômicos. Teerã tem insistido que o acordo representa o reconhecimento de sua capacidade de sobrevivência diante da pressão externa (e olha que foi um embate com os EUA, e portanto não era qualquer pressão externa) e espera obter, em troca, o relaxamento de sanções (como embargos comerciais e financeiros) que há décadas limitam o crescimento econômico do país. A possibilidade de acesso a ativos congelados no exterior e de ampliação das exportações de petróleo constitui um dos principais incentivos para que o governo iraniano participe das negociações. Ao mesmo tempo, a liderança iraniana procura preservar sua imagem interna de independência e resistência, evitando qualquer percepção de rendição aos interesses norte-americanos. Vai contar também a favor o fato de que, se de fato os ativos financeiros iranianos forem liberados, isso vai viabilizar uma reconstrução rápida do que foi destruído no país, especialmente infraestrutura, promovendo um surto econômico positivo.

Vale observar, entretanto, um ponto frágil do acordo: a posição de Israel. Embora tenha participado diretamente do conflito e compartilhe com Washington a preocupação em relação ao programa nuclear iraniano, o governo israelense demonstra resistência a vários aspectos do entendimento. Autoridades de Israel já sinalizaram que não aceitam vincular sua atuação militar no Líbano às negociações entre Estados Unidos e Irã (o que é exigido na mesa de negociação pelos iranianos) e pretendem manter operações contra forças consideradas próximas a Teerã (o que pode provocar a retomada do conflito, como aconteceu no último cessar-fogo). Essa diferença revela uma tensão importante: os interesses estratégicos de Estados Unidos e Israel coincidem em muitos aspectos, mas não são os mesmos. Enquanto Washington parece priorizar a estabilização regional e a redução dos custos econômicos da guerra, Israel continua enxergando a contenção do Irã e de seus aliados como uma questão existencial e de segurança nacional imediata. Além disso, também acontecem eleições em Israel esse ano, em setembro, e a disputa de narrativa sobre a guerra pode influenciar o processo eleitoral.

Essa contradição ajuda a explicar porque o acordo anunciado deve ser visto mais como um cessar-fogo estratégico do que como uma paz definitiva. Questões centrais permanecem sem solução. O futuro do programa nuclear iraniano, o levantamento efetivo das sanções econômicas, a presença de forças aliadas ao Irã em países como Líbano e Síria e a própria arquitetura de segurança regional continuam em aberto. O período de negociações técnicas que se seguirá será decisivo para determinar se as partes conseguirão avançar para um entendimento mais abrangente ou se o acordo acabará como alguns anteriores, com a retomada de posturas beligerantes e a volta do conflito armado.

Há ainda outra dimensão que merece atenção. A crise demonstrou os limites de uma ordem regional baseada exclusivamente na superioridade militar. A guerra revelou que mesmo a maior potência do planeta enfrenta dificuldades para impor unilateralmente seus objetivos em uma região marcada por múltiplos atores, alianças flexíveis, parcerias voláteis e pouco confiáveis e interesses contraditórios. Aceitará o atual governo dos EUA retornar a alguma forma de ordem multipolar que possa garantir a estabilidade, ou insistirá em sua visão unipolar, mesmo não tendo conseguido se impor com um conjunto de sanções econômicas e força militar?

O anúncio do acordo de paz deve ser recebido com cautela. A interrupção da troca de ações militares, se efetivada, representa uma vitória importante para as populações afetadas pela guerra e reduz os efeitos concretos e riscos que impactavam a economia mundial. No entanto, os fatores estruturais que alimentam a rivalidade entre Estados Unidos (e Israel, de forma particular) e Irã permanecem presentes. A paz anunciada em Genebra poderá abrir espaço para uma nova etapa diplomática, mas ainda está longe de significar o fim das disputas geopolíticas (que se transformam por vezes em ações bélicas) que moldam o Oriente Médio, estruturalmente. O que existe hoje é uma paz possível, mas certamente não temos ainda uma paz consolidada em uma perspectiva estratégica.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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