Durante boa parte do período pós-Guerra Fria, a Europa acreditou ter encontrado uma fórmula histórica estável: integração econômica profunda, Estado de bem-estar robusto, capitalismo regulado e democracia consolidada. O projeto europeu simbolizava a promessa de que mercado e justiça social poderiam coexistir sob instituições civilizadas.

Essa confiança se dissolveu.
Nos últimos quinze anos, o continente atravessou uma sucessão de rupturas que revelaram fragilidades estruturais acumuladas. O que está em curso não é apenas desaceleração econômica. É uma transição de posição no sistema internacional — um sistema que já não é organizado por um único centro de poder.
As rupturas de uma estabilidade presumida
A crise do euro revelou que a moeda comum avançara mais rapidamente que a união política. A resposta predominante — austeridade fiscal — restaurou a confiança dos mercados financeiros, mas produziu desemprego elevado, compressão salarial e descrédito político. Em nome da disciplina orçamentária, sacrificou-se parte da legitimidade social que sustentava a integração.
O Brexit aprofundou essa fissura simbólica. A saída do Reino Unido demonstrou que a União Europeia não era irreversível. A ideia de destino comum perdeu sua aura de inevitabilidade.
A crise migratória e a estagnação prolongada ampliaram tensões internas. Movimentos nacionalistas e forças de extrema direita cresceram, explorando inseguranças sociais intensificadas por anos de precarização do trabalho e crescimento modesto. A Europa que se via como sinônimo de democracias sociais consolidadas passou a conviver com partidos que questionam frontalmente seus compromissos liberais.
A pandemia abriu um breve momento de inflexão institucional. Em 2020, a União Europeia criou o NextGenerationEU, um programa extraordinário de recuperação financiado por emissão conjunta de dívida europeia — algo inédito na história do bloco. O instrumento destinou centenas de bilhões de euros para apoiar a transição digital e climática e mitigar os efeitos econômicos da crise sanitária. Foi um avanço importante na direção de maior solidariedade fiscal. Mas ocorreu em meio a um aumento do endividamento público e dependência prolongada de políticas monetárias expansionistas, deixando em aberto a questão de sua continuidade estrutural.
A guerra na Ucrânia produziu o choque mais profundo. A ruptura energética com a Rússia atingiu diretamente o coração do modelo industrial europeu, particularmente o alemão, que combinava energia relativamente acessível com indústria de alta complexidade tecnológica. Custos energéticos elevados pressionaram cadeias produtivas e reacenderam temores de desindustrialização.
Ao mesmo tempo, a dependência estratégica dos Estados Unidos tornou-se mais evidente — justamente quando a previsibilidade americana passou a ser questionada. A autonomia estratégica, frequentemente evocada no discurso político europeu, revelou-se parcial.
Um continente em um sistema pós-hegemônico
O deslocamento do centro de gravidade econômico para a Ásia consolidou uma transformação mais ampla. O dinamismo global já não se concentra no eixo atlântico. A Europa continua sendo um dos maiores blocos econômicos do mundo, mas deixou de ser o núcleo organizador da expansão global.
Esse cenário insere-se no que pode ser descrito como um sistema pós-hegemônico: uma configuração internacional na qual nenhuma potência exerce liderança incontestada nem possui capacidade plena de estruturar regras e consensos globais de forma unilateral. Diferentemente do período de hegemonia americana consolidada, o mundo atual caracteriza-se por competição estratégica, rivalidades tecnológicas e fragmentação regulatória. Não se trata ainda de uma multipolaridade estável, mas de uma ordem em transição, na qual centros de poder coexistem sem coordenação plena.
Nesse contexto, a Europa não é marginal — mas também não é dominante. É um polo relevante em uma arquitetura ainda indefinida. A questão estratégica passa a ser: qual papel deseja desempenhar?
Como argumenta Dani Rodrik, a Europa não deveria tentar imitar o modelo americano de inovação desregulada nem competir diretamente com a China em setores nos quais esta já consolidou vantagens estruturais. No caso dos veículos elétricos, por exemplo, disputar a produção em massa com fabricantes chineses pode significar entrar em uma corrida cujo padrão competitivo já está estabelecido. A alternativa seria concentrar esforços em tecnologias de próxima geração, sistemas avançados, baterias de alto desempenho e segmentos de maior valor agregado.
Essa orientação sugere um caminho próprio — mas exige clareza política e coordenação fiscal que nem sempre estiveram presentes.
Durante décadas, regras fiscais rígidas e prioridade quase exclusiva à estabilidade monetária limitaram margens para investimento produtivo estratégico. Enquanto outras potências mobilizavam política industrial ativa, a Europa frequentemente hesitou entre disciplina orçamentária e ambição tecnológica.
A financeirização global também exerceu influência. A valorização dos mercados financeiros e a ênfase em metas fiscais restritivas reduziram o espaço para planejamento de longo prazo. O resultado foi crescimento modesto e perda relativa de dinamismo industrial.
O paradoxo atual é evidente: o espaço que simbolizou a social-democracia consolidada enfrenta avanço de forças que questionam seus fundamentos democráticos. A erosão do pacto social abre terreno para respostas simplificadoras que combinam nacionalismo econômico e conservadorismo político.
O que esperar da Europa
O futuro europeu dependerá de escolhas concretas.
Uma trajetória possível é a consolidação progressista: flexibilizar regras fiscais para permitir investimento estratégico, coordenar política industrial verde e digital, fortalecer defesa comum e reconstruir o pacto social em torno de empregos de qualidade. A transição energética pode tornar-se motor de reindustrialização, desde que acompanhada de planejamento coordenado e financiamento estável.
Outra trajetória é a erosão gradual. A União Europeia dificilmente colapsará abruptamente, mas pode tornar-se mais lenta e menos decisiva. Fragmentação política, crescimento modesto e hesitação estratégica podem reduzir sua capacidade de influenciar um ambiente internacional competitivo.
Há ainda a hipótese de reposicionamento como potência normativa em um sistema pós-hegemônico. A Europa poderia atuar como estabilizadora institucional, moldando regras ambientais, digitais e comerciais. Contudo, liderança regulatória sem base produtiva robusta tende a perder eficácia.
Durante décadas, o continente prosperou sob três condições favoráveis: energia acessível, comércio relativamente aberto e segurança americana previsível. Todas estão em transformação.
A Europa não enfrenta extinção política. Enfrenta redefinição estrutural.
A questão decisiva é se conseguirá reinventar seu projeto social-democrata em um ambiente de rivalidade tecnológica, competição industrial e incerteza geopolítica — ou se permitirá que a perda de dinamismo econômico continue alimentando forças que substituem solidariedade por fechamento.
A zona de conforto terminou.
Em um mundo pós-hegemônico, a Europa não precisa aspirar à hegemonia. Precisa decidir se deseja continuar sendo referência de democracia social e desenvolvimento regulado — ou se aceitará tornar-se apenas administradora de seu próprio deslocamento relativo.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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