
Estamos todos assistindo a mais uma guerra – e também participando dela. Não será a primeira e nem a última, sabemos disso; assim como sabemos que não é a única guerra “em curso” no mundo: Oriente Médio, Rússia, Ucrânia, Sudão, Burkina Faso, Mianmar e outros territórios estão vivendo conflitos armados e a oferta livre de um desfile bruto de toda sorte de atrocidades e de violências.
Esta não é uma constatação animadora, ainda que as imagens e notícias sobre esses conflitos sejam amplamente divulgadas em todo tipo de veículo (dos jornais às mídias sociais) e avidamente consumidas, despertando nos interessados (muitos) todo tipo de reação: do horror ao frisson.
Até aí, nenhuma novidade: fazer contato como expectadores, como vítimas ou combatentes das atrocidades, pelo consumo cotidiano do espetáculo midiático e pirotécnico de mísseis enviados ou receptados, é hoje tão comum quanto a leitura nas páginas de esporte, sobre a escalação do time de futebol preferido. Numa visão banalizada e naturalizada de todas as coisas, cresce o interesse geral pela guerra mais recente, tal como é despertado o interesse por um filme “agigantado” por alguma premiação, ou pelo novo restaurante de algum chef estrelado pelo guia Michelin.
As imagens da guerra tristemente compõem o nosso cardápio de interesses pelo mundo, atendendo a desejos obscuros.
Se há algo novo a ser dito, será preciso retornar à década de 1930, quando ninguém menos que Albert Einstein – requisitado pela então Liga das Nações (precursora da ONU) e o seu Instituto Nacional de Cooperação Intelectual, em Paris – escolheu Sigmund Freud como correspondente para uma troca cartas, publicadas em 1933, sob o título de “Por que a guerra?”.
As questões que Einstein dirige a Freud são todas interrelacionadas: o que poderia ser feito para que o gosto comum pela guerra seja arrefecido; e por que as pessoas se comprazem – de uma forma ou de outra – no apoio ou na participação do espetáculo de horrores em que cada guerra implica?
Na elaboração de sua resposta, Freud coloca o seu pensamento a serviço não apenas da questão dos grandes conflitos bélicos, mas também das expressões “miúdas” (micropolíticas, diria Michel Foucault): as violências cotidianas e igualmente bárbaras contra as mulheres, a onipresença de preconceitos derivados do “narcisismo das pequenas diferenças”, as relações afetivas nas quais uma das pessoas é esmagada ou diminuída pela outra, e as outras evidências de que a vida que vivemos comporta regularmente sentimentos mortíferos.
Nas grandes e nas pequenas manifestações de violência e destrutividade que conhecemos (e que nos constituem), Freud reconheceu duas forças básicas do funcionamento e expressão humanos: a pulsão de vida e a pulsão de morte: “uma dessas pulsões é tão indispensável quanto a outra; da ação conjunta e antagônica de ambas surgem as manifestações da vida”.
Einstein já havia intuído o fundamental das ideias de Freud sobre a crueldade inerente a cada um de nós, mas a psicanálise seria ainda mais dura sobre as nossas motivações mais regulares. De acordo com Freud, a crueldade presente em nossos corações e mentes é um elemento de presença permanente em nossa espécie, mesmo quando amalgamado às possibilidades de conexão amorosa com o outro.
A pulsão de vida e a de morte funcionam como moções humanas que não se distinguem uma da outra por completo: ambas precisam ser gratificadas internamente, o que equivale a dizer que amamos e destruímos em um só e mesmo movimento. Aí não se trata da oposição entre amar e odiar, mas de amar um, porque se odeia outro; ou de amar com componentes destrutivos, ou de odiar amorosamente, quando abraçados a “causas nobres”.
Neste sentido, não há quem apenas ame; não há “amor puro” ou imaculado do ódio, salvo na ficção do amor romântico, na crença cultural do amor incondicional (entre pais e filhos, por exemplo) ou na experiência última de um amor de natureza religiosa, a um deus ou a deuses. Mesmo os amores mais sinceros e candentes, nos exemplos mais cotidianos da vida como ela é, carregam em sua essência sentimentos e impulsos menos nobres: raivas, ressentimentos, ataques destrutivos e a ambição de dominação, de transformação ou de encarceramento do objeto amado (são nossas ambiguidades afetivas, se diria com um pouco mais de sutileza).
A carta de Freud a Einstein não contém a possibilidade do fim das guerras, mas reflete a perspectiva de que as alianças e os laços ternos incluem necessariamente a semente e a força da destruição. Esperar que o pacifismo predomine no mundo, como decorrência dos instantes em que eros se expande além e por cima de thanatos, escreve Freud, é como aguardar o tempo de um moinho que debulhe o trigo tão lenta e erraticamente que, antes que se obtenha a farinha, já teremos morrido de fome.
Parece injusto pedir a Freud que ele “invente a roda” duas vezes, já tendo ele entregue ao mundo contribuições tão originais e esclarecedoras sobre nosso funcionamento, tais como a centralidade do inconsciente e da dualidade pulsional em nosso modo de viver. Nenhum outro grande pensador foi capaz disso e nem Freud, nem Einstein têm respostas finais para a inquietação humana em torno das guerras. O pensamento – por mais amplo que seja o seu alcance, mesmo de seu ponto mais alto – tem limites para transformar algo tão básico e constitutivo naquilo que se chama um homem.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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