
Rostos enfurecidos. Indistintos. Borrados na visão de Eunyce. Nem em seus maus tenebrosos devaneios, imaginou que sua última visão neste mundo seria tão confusa. Esperava que, numa fração diminuta de tempo, sua vida lhe passasse como um filme. Mas só o que havia em sua mente era o frenesi do ódio que lhe dilacerava o corpo.
Dias antes, assistia ao testemunho de Matilda em uma igreja do bairro para onde se mudara na semana anterior. Gostou do que ouviu. Emocionada, quis elogiar. Pediu o microfone. Por um instante, buscou a palavra que melhor caberia no elogio a Matilda. Conspícua foi o que lhe veio. Falou com gosto. Com olhos úmidos de emoção. Matilda estranhou. Não sabia o que era conspícua.
Poucos na igreja repararam no palavreado difícil de Eunyce. Estavam com suas cabeças longe dos discursos e pregações dali. Suas mentes, cheias dos medos cotidianos de quem vive na periferia, estavam especialmente amedrontadas pelos rumores de uma sequestradora de crianças na região.
Pipocavam nas telas, em grupos de Zap dos vários subgrupos daquela igreja, postagens sensacionais. Cada uma dava conta de uma aparição da mulher misteriosa. Loira em algumas, morena em outras. Cabelos curtos em uma, compridos em outra.
Comentários dentro e fora das redes preenchiam de fantasias as lacunas dos fatos. Seria uma bruxa, uma figura sinistra. Todo mundo falava e dela ouvia falar. Uns achavam a terem visto. Outros, tinham certeza. Todos convictos de que a mulher não seria daquela igreja.
Matilda comentou com a irmã de culto que não havia gostado do que Eunyce havia dito. “Que negócio é esse de conspícua? Ela tá de desrespeito comigo. E quem é ela? Mulher estranha, vem chegando assim e falando essas coisas…”.
Clotilde concordava com a companheira de culto e acrescentava uma ou outra desqualidade a Eunyce. “Essa mulher não é da igreja! Apareceu assim, de uma hora pra outra! Quem ela pensa que é pra falar mal de uma serva do Senhor desse jeito? Falando assim, só pode ser uma dessas mulheres do mundo. Uma ateia. Ou pior! Uma feminista. Uma comunista!”.
Outros, em volta, ouviram picotes da conversa das duas. Um, curioso, quis saber mais. Matilda limitou-se a apontar “é sobre a conspícua ali”. O sujeito olhou surpreso. Para ele, conspícua era coisa do capeta. Conspícua só poderia ser coisa de macumba.
A noticia foi se espalhando. “Tem uma conspícua aqui!”. “Tá repreendido!”. “Conspícua? Aqui?”. “Ela sequestra crianças e faz conspícua com elas!”. A assembleia foi se agitando. O pastor quis saber o motivo do falatório que lhe atrapalhava a pregação.
Um homem corpulento levantou-se, dedo em riste, “CONSPÍCUA!”, gritou. O pânico se instalou. Pouco adiantaram os pedidos de calma do pastor e de um ou outro congregado. Todos estavam certos de que a Eunyce era a sequestradora de crianças.
Alguns policiais que assistiam ao culto saltaram sobre Eunyce com truculência profissional. Um deles, de pistola na mão, quis saber mais antes de tomar alguma providência. “É ela sim, eu vi!”, dizia um. “Olha aqui, é igual!”, dizia outro segurando o celular. “É ela que conspícua as crianças, eu tenho certeza!”. O primeiro tapa no rosto de Eunyce, cercada e paralisada de medo, veio de um dos policiais.
Vieram outros tapas, chutes, socos. Mãos e pés deram lugar a porretes improvisados com o mobiliário da igreja e até com bíblias. Eunyce morreu espancada no meio da igreja que pouco antes havia lhe encantado.
O pastor repreendeu a todos por quebrarem a mobília da obra de Deus. Como era uma periferia, a história não virou notícia. A polícia deu conta do cadáver sem fazer muitas perguntas, em cortesia aos fardados do culto.
A notícia da morte da sequestradora se espalhou, pondo fim aos boatos. Nos dias seguintes, a igreja experimentou um clima de júbilo. Oraram orgulhosos de terem realizado a obra do Senhor eliminando a conspícua com as próprias mãos.
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Ilustração: Mihai Cauli
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