
Tudo é transitório – e aí está a beleza da vida, escreveu Freud na sua mais bela prosa poética. Tudo transcorreu numa conversa entre ele, sua amiga Lou Andreas-Salomé e o poeta amante de Lou, Rainer Maria Rilke. Em 1916, três anos após esse encontro, escreveu “A Transitoriedade”, que começa assim: “Algum tempo atrás, fiz um passeio por uma rica paisagem num dia de verão, em companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem, mas já famoso”. Essa crônica pensante, já na primeira frase, é um convite para seguir lendo com a curiosidade sobre o amigo taciturno e o poeta famoso. Escreveu para um livro de escritores alemães e o fez com um gosto especial, revelando o quanto sabia e gostava de escrever. O tema central é a fragilidade do belo e deu o exemplo de uma flor que floresce uma só noite, e não por isso é menos formosa.
Quem não leu seu brevíssimo ensaio, aproveite para conhecer o mais belo escrito que Freud escreveu aos sessenta anos. Já li e reli várias vezes A Transitoriedade, tão repleta de sabedoria sobre a vida, a morte, a guerra, a tendência humana a sofrer intensamente pela finitude da vida, o estar de passagem por aqui, pois um dia, desculpem escrever: todos morreremos. Além do que, toda beleza é transitória, não só a da flor, mas também a exaltada beleza jovem, e aprender a se desprender é aprender a viver. A história da vida pode ser contada como uma história de separações: de casas, de ruas, de cidades, de familiares, amigos. E também se constroem novos amores, em outras ruas, cidades, gente querida, que se junta aos velhos na imaginação e memória.
A conversa entre Freud, Lou e Rilke aconteceu no verão anterior à Primeira Guerra Mundial, pois a grande guerra na Europa começou em 1914. Freud escreve que o casal amigo não podia fruir a beleza devido à revolta psíquica contra o luto, o que depreciava para eles a fruição do belo. O fato de a beleza ser transitória gerava no casal, e tantas vezes na gente, um sentimento de desgosto, de sofrimento sem fim – há como um desejo de vida infinita, de extinguir o fim, a morte. Depois, Freud descreve a desilusão com a guerra, com o patriotismo austríaco, o quanto a guerra maculou a ciência, e o quanto ela liberou os maus espíritos que não estavam domados, apesar de séculos de educação.
A última frase da crônica, após descrever a tragédia da guerra e o quanto ela estava sendo destrutiva, é surpreendente. Conclui: “Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de modo mais duradouro do que antes”. Aí, o velho otimismo do querido escritor da “Interpretação dos Sonhos” e inventor da Psicanálise falou mais alto. Precisaria de mais treze anos de vivências e experiências para entender e escrever o famoso “Mal-estar na Cultura” e aí entender melhor de quem é o ser humano.
Estamos todos desamparados diante da crueldade humana, diante do poder cruel dos poderosos, nossa pobre humanidade pode pouco e deve resistir, lutar para frear a loucura do ódio, da guerra sem fim, da destruição da Terra. Tarefa que oscila entre o possível e o impossível, mas é preciso estar ao lado da vida, ao lado da arte, da beleza da transitoriedade e, mais ainda, do amor. O ódio muitas vezes vence o amor, mas em outras vencem os laços amorosos, tanto que foi derrotado o nazismo, o fascismo, o estalinismo.
É urgente aprender que a sociedade está muito mais fora dos condomínios e shoppings. A natureza não pode ser cercada, é preciso recuperar as ruas e as conversas nas esquinas, saindo da comodidade do celular e da realidade virtual excessiva. Por exemplo: quero conhecer amigos que venho mantendo na virtualidade como é o caso de um artista gráfico arquiteto, e das irmãs artistas do distante Rio de Janeiro. E aqui em Porto Alegre não são só três, mas uns quarenta talvez, e a gente se comunica só nas redes. Somos conservadores de celular na mão, a amizade é transitória como a vida, mas é essencial para viver bem. E um amigo do distante passado, Heráclito de Éfeso, dizia: “Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”, como exemplo do fluxo e da mudança constante. Aí já estava a beleza da transitoriedade e da amizade, pois não há vida boa sem aproveitar os amigos. Convém recordar: Não há vida boa sem bons amigos, já escreveu o amigo Pedro Gonzaga; uma amizade se constrói com conversas. É, precisamos conversar.
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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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