
Donald Trump definitivamente parece ser uma mente à deriva. Mas como é, ao mesmo tempo, o sujeito isoladamente mais poderoso do planeta, melhor seria associar a sua imagem à de um monumental porta-aviões, cujos mecanismos de navegação entraram em pane e que se move a uma velocidade constante (apenas momentaneamente descontinuada pela trapalhada em que se meteu ao decidir atacar o país dos aiatolás) mas, sem um alvo pré-determinado, ziguezagueia entre meia dúzia de direções. É como se despertasse pela manhã e ordenasse à cadeia de subordinados que escolhesse um país qualquer, fraco o suficiente para opor apenas a resistência necessária à exibição da musculatura da Armada Imperial.
Ou, então, se dirigisse ao espetacular globo terrestre que mandou instalar na Casa Branca, o fizesse girar violentamente, tão violentamente que deixasse tontos e desorientados os que, embora próximos, ainda não o compreendem suficientemente e, de repente, metesse o indicador da mão direita sobre a bolota que rodopia à sua frente dizendo: é aqui. E, ato contínuo, a frota inteira estanca e muda de direção rumo à jugular da pobre vítima.
Sem a fácil saída que sua megalomania esperava encontrar ao decidir – junto ao parceiro muito menos lunático e tanto ou mais perigoso, Benjamin Netanyahu – atacar o Irã, pode, a qualquer momento, decretar uma nova invasão da antigamente desafiadora ilhota do Caribe chamada Cuba – ou o vizinho México, como ameaçou no dia anterior ao encontro com Lula. Amanhã, depois de amanhã, sabe-se lá quando. Muito mais midiático e fantasista que o israelense, Trump sabe que o espetáculo precisa não apenas continuar, como manter o ritmo, segurando a tensão dramática e a atenção da distinta plateia.
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O filme O Imperador do Norte (Emperor of the North Pole, Robert Aldrich, 1973) conta a história do enfrentamento entre Lee Marvin, conhecido como N. 1, e Ernest Borgnine (Shack), um brutamontes que, a qualquer preço, quer manter longe dos vagões Companhia os abandonados pela sorte, os miseráveis sem teto nem destino, os perdedores e excluídos da prosperidade que, à época da grande depressão, tentam embarcar e se deslocar de um ponto a outro daquele imenso país. Para Shack, uma espécie de bedel da empresa, o grande mecanismo (seu mundo) sob sua responsabilidade deve permanecer limpo e higienizado, livre daquelas famélicas e indesejáveis figuras – os dejetos da máquina majestosa em movimento permanente.
Enquanto isso…
Se olharmos à distância, por pouco que seja, a rejeição do Senado ao indicado de Lula para a vaga aberta por Luiz Roberto Barroso no STF havia muito estava desenhada. Não só pelos lances mais recentes da conjuntura política. É de mais longe que vem parte da explicação. Ao contrário do que alguns pareciam sugerir, não foi um raio caído de céu sem nuvens – embora jamais tivesse acontecido na história da República desde o marechal Floriano Peixoto, no século XIX.
Acompanhar as alterações da composição do Congresso nos últimos 15 anos é suficiente para sabermos que alguma coisa dessa natureza estava prestes a acontecer. Era só uma questão de oportunidade. Ou alguém em sã consciência é capaz de imaginar que Lula é o sonho de consumo de gente como Davi Alcolumbre e a maioria dos atuais deputados e senadores? São extraordinários os malabarismos cobrados do talento político do presidente da República para poder governar tendo que contar com a trupe do centrão. Se Lula conseguir seu quarto mandato, as dificuldades para lidar com o novo Congresso serão ainda maiores (como já foi lembrado aqui), se é que serão contornáveis. Todas as perspectivas apontam para uma piora muito mais aguda na qualidade do atual parlamento. Seguimos ladeira abaixo e sem freio – o que não é de hoje.
A mobilização dos diferentes segmentos da direita/ultra direita, quase toda ela apoiadora do fenômeno do bolsonarismo, arrasta atrás de si os indecisos e cresce na mesma medida do estado de semiparalisia da esquerda e dos não alinhados ao bolsonarismo. E até onde se sabe, não há outro remédio para o despudor dos políticos sem pudor, dos bolsonaristas em particular e daqueles que engordam à sua sombra que não a atualmente ausente mobilização social.
O atrevimento é de tal vulto que no dia seguinte à inédita votação no Senado, e não bastando o tamanho da provocação feita a Lula, o presidente do Congresso teve a temeridade de chantagear o governo às claras: anunciou ou fez anunciar que só pautará a aprovação de um novo indicado do Executivo se este for Rodrigo Pacheco. Para além do que possa ter de bravata, o nome disso é chantagem – certamente existem outras tantas sendo feitas por debaixo do pano. Dizem, por exemplo, que Alcolumbre está condicionando seu apoio ao governo a uma intervenção de Lula nas investigações do Master para livrar a sua cara da delação de Daniel Vorcaro.
Segundo ato
Encerrado o primeiro ato com a derrota imposta ao oponente (e ferrenho adversário ideológico), é chegada a hora de exibir generosidade. No mesmíssimo instante em que Lula, em Washington, mostra a melhor arte da negociação e da política na defesa dos interesses comerciais do país, Davi Alcolumbre diz querer se encontrar com o presidente. Não será necessária muita clarividência para adivinhar o que Alcolumbre pretende barganhar com o presidente da República.
Entre um e outro ato, o aperto das investigações do banco Master, a prisão de novos envolvidos e as revelações sobre a mesada de 500 mil reais paga por Daniel Vorcaro ao presidente do PP Ciro Nogueira – íntimo companheiro de viagem de Alcolumbre. Recapitulando: enquanto o partido de Ciro Nogueira nasceu da antiga Arena, o partido oficial da ditadura militar, o PP de Alcolumbre vem da fusão do DEM, que também deriva da ARENA, depois PDS, depois PFL em fusão com o PSL (que com a eleição de Bolsonaro em 2018 ganhou uma das maiores bancadas do Congresso). Numa palavra, são todos parte da mesma linhagem.
A este imbróglio de políticos, cujo único interesse é a ocupação do aparelho do Estado para a obtenção de benefícios para eles próprios e os seus, se deu o nome de centrão. Um exemplo prático e bem quentinho, recém-saído do forno:
“O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ganhou nesta semana a indicação em uma das principais diretorias da Codevasf, estatal ligada ao Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional. A Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) ganhou o apelido de ‘estatal do centrão’ por ser um dos redutos favoritos para envio de emendas parlamentares desde o governo Bolsonaro. A diretoria comanda a compra de maquinários e obras de pavimentação e da integração na região do rio São Francisco”.
Há como ser mais didático?
É mais ou menos este o comportamento típico do centrão: melhorar a posição no tabuleiro, impondo derrotas ou situações embaraçosas sempre que possível para melhor barganhar. Até aí, tudo muito bem. Assim funciona a coisa em geral e é legítimo na política que se negocie e barganhe. Mas barganhar o quê? Para o PP, assim como para o União Brasil, é um samba de uma nota só. Trata-se de conquistar posições no aparelho do Estado – o que também poderia ser legítimo e até louvável, se no horizonte estivessem os interesses do eleitorado. Na realidade, o que acabamos por ver é um círculo vicioso no centro do qual o que se encontra, fazendo-o girar perpetuamente, é a realização de benefícios pessoais (mais poder e mais enriquecimento). Mais cargos para os seus, mais apadrinhados, mais poder, mais dinheiro no bolso – porque do outro lado estão os donos do capital, também eles interessados em se beneficiar de contatos e decisões favoráveis da estrutura de poder do país. Um modelo de esperteza que no Brasil tem longas raízes históricas.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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