
Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. (Provérbios populares portugueses)
1.
Explodiu uma “bomba de fragmentação” de repercussão incontível e consequências imprevisíveis. As mensagens em áudio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro são a confirmação irrefutável das relações do bolsonarismo com o escândalo do Banco Master – que manteve relações com fundos que faziam lavagem de dinheiro para o PCC – a maior “orgia” financeira da história do capitalismo brasileiro. A conversa explicita, também, que havia estreita intimidade e confiança entre os dois. Os áudios revelam o que já se suspeitava. Mas agora ninguém pode duvidar que o banqueiro mais corrupto da história do capitalismo brasileiro, um ladrão exibicionista e ostentatório é amigo íntimo dos Bolsonaros. Daniel Vorcaro é o rosto de uma fração burguesa degenerada e apodrecida: um aventureiro lúmpen que se dedicou à pilhagem de fundos de previdência de funcionários públicos com a cumplicidade do governador condenado Cláudio Castro do Rio de Janeiro, entre outros. Mas agora a extrema direita está dividida, e até Zema, do Novo, e Renan, do Missão, estão assanhados e decidiram atacar Flávio Bolsonaro. Lula tem mesmo sorte.
2.
O envolvimento pessoal indisfarçável de Flávio procurando financiamento da extrema direita por Vorcaro precipita um “deus-nos-acuda”, um tumulto, um escarcéu impossível de esconder. A primeira declaração de Flávio de que “não tem nada demais”, e que só pediu uma grana para fazer um filme sobre a biografia de seu pai é um escárnio. Não é possível antecipar, plenamente, os efeitos que terá na disputa eleitoral, mas o bolsonarismo foi colocado numa posição, talvez, irremediavelmente, defensiva. Vorcaro é peçonhento, venenoso e tóxico. Não é a primeira vez que a resiliência da influência do bolsonarismo foi posta à prova. Infelizmente, até hoje, ela se revelou muito poderosa. E subestimar a força da implantação dos neofascistas tem sido um erro recorrente da esquerda. Mas tudo tem limites. Portanto, veremos. Há que aproveitar a oportunidade denunciando, impiedosamente, a cumplicidade do bolsonarismo com o bilionário corrupto preso. Agora a bandeira de denúncia da corrupção está em nossas mãos. Ela não pode tremer.
3.
É previsível que haverá uma inflexão na conjuntura, porque a candidatura de Flávio foi duramente atingida, e não está descartado que até possa ter que ser substituído, se as próximas pesquisas indicarem um desgaste muito forte. O momento anterior foi condicionado pelas duas derrotas do governo no Congresso Nacional: a rejeição da indicação de Messias e a aprovação da Dosimetria. Acontece que agora tudo isso ficou para trás. O Centrão já tinha sido atingido, duramente, quando vieram a público as vergonhosas relações de Ciro Nogueira, presidente do PP, que ambicionava ser vice de Flávio, com a roubalheira de Vorcaro, em associação com o BRB de Brasília.
4.
O novo escândalo acontece em um momento em que as pesquisas mais recentes indicam ainda um empate entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno, com pequenas oscilações no limite da margem de erro. A desaprovação do governo Lula permaneceu ligeiramente superior à aprovação, apesar de uma tendência de recuperação, até um pouco surpreendente. Ou seja, se fossem mantidas as condições de temperatura e pressão, não estaria descartado que o bolsonarismo poderia vencer as eleições de outubro. Não é possível saber em que medida a base social da extrema direita poderá ou não assimilar o desgaste desta nova denúncia indefensável. Como explicar este cenário assustador? São muitos os fatores a serem considerados. A avaliação é central para definir a melhor linha para a reeleição de Lula. O desafio é organizar os variados graus de pressão de cada fator. Uma luta eleitoral não é somente uma luta de argumentos. A disputa da consciência das massas precisa responder às inquietações que mexem com a subjetividade das pessoas, em especial, os afetos mais poderosos que expressam os interesses de classe. Entre eles o mais visceral: o medo. É o medo que incendeia a raiva, o ressentimento e o ódio.
5.
A maior dificuldade da esquerda brasileira é que a classe trabalhadora está dividida. Lula mantém a confiança da maioria dos mais pobres. E é verdade que a economia tem um peso imenso para explicar a rejeição do governo Lula entre as camadas médias de trabalhadores, os remediados que ganham acima de dois salários mínimos que se deslocaram para a direita, mas não deve absolutizada. Nos últimos três anos e meio, não diminuiu a fratura política entre as camadas populares que vivem com até dois salários mínimos e os assalariados de escolaridade média, ou remediados, que ganham um pouco além, sobretudo, entre R$ 3.500,00 e R$ 7.000,00 reais. Essa é uma das razões que explicam por que a influência eleitoral de Lula é maior no Nordeste e menor no Sudeste e Sul. O peso demográfico de 48% da população economicamente ativa mais pobre não está distribuído de forma homogênea pelo país afora.
6.
A “idealização” do que é o povo brasileiro explica por que é tão desconcertante que em tantas avaliações haja milhões de pessoas que são considerados “pobres de direita”. O que está equivocado nesta linha de análise, como ainda se tenta às vezes romantizar, não é que não sejam de direita. São reacionários, sim. O que está errado é que a força da extrema direita se apoia nos remediados, não entre os mais pobres. Os remediados foram envenenados nos últimos dez anos por uma campanha que denunciava a esquerda como corrupta e como cúmplice do crime organizado. A extrema direita se alimenta do ressentimento machista contra uma nova geração de mulheres que se emancipou, uma nova geração negra que se levantou, uma nova geração de LGBTs que ocupou as ruas. O bolsonarismo é o negacionismo do aquecimento global que justifica a pilhagem do agronegócio na Amazônia, Cerrado e Pantanal.
7.
Aprender as lições dos últimos anos é vital. A linha de argumentação contrafactual é um exercício legítimo, porque amplia o campo de possibilidades do que poderia ter sido. Ilumina a imaginação política e a inteligência tática. E se o governo Lula tivesse substituído Campos Neto no Banco Central em 2023 para reduzir a taxa de juros para incentivar um crescimento mais forte? E se tivesse apresentado a isenção do Imposto de Renda, ou defendido a tarifa zero nos transportes mais cedo? E se tivesse regulamentado o imposto sobre grandes fortunas? Ou o fim da jornada seis por um desde 2024 quando a campanha do VAT (Vida Além do Trabalho) explodiu nas redes? Nenhuma destas iniciativas seria o início de uma ruptura anticapitalista. Teriam despertado, certamente, uma furiosa reação da maioria da classe dominante, o que exigiria a construção de uma governabilidade “a quente”, apoiada na mobilização social permanente, e os riscos seriam grandes.
8.
Não é possível ter certeza alguma de qual teria sido o desenlace. Se aprendemos algo com o golpe institucional contra Dilma Roussseff fundamentado na farsa das “pedaladas fiscais”, é que as turbulências teriam sido muito sérias. Evidentemente, a conjuntura de hoje seria diferente. Alguém pode afirmar com segurança que uma linha reformista forte, vigorosa e robusta teria sido o suficiente para esvaziar a influência do bolsonarismo? Talvez não. Por quê? Porque não podemos saber se, como na Colômbia de Petro, teria sido possível construir a mobilização de massas. Mas, talvez sim. De qualquer forma, é inescapável que o apoio da extrema direita repousa, também, em outros fatores, não estritamente econômicos.
9.
A vivência social não se reduz à experiência material da luta feroz pela sobrevivência. A absurda, mas avassaladora campanha dos neofascistas de politização da decisão técnica da Vigilância Sanitária sobre uma marca de detergente contaminada por uma bactéria resistente a antibióticos confirmou, mais uma vez, que estamos diante de uma corrente com espantosa capacidade de manipulação e, pior ainda, mobilização. A implantação da extrema direita não se explica somente pelos limites da política econômica que garantiu a transferência de R$ 1 trilhão de reais para os rentistas da dívida pública, enquanto a redução da desigualdade social recuava. A conjuntura seria muito menos perigosa se as causas da resiliência do bolsonarismo fossem, essencialmente, as vacilações e erros do governo Lula, mas não. O governo não é inocente, evidentemente, e cometeu muitos erros.
10.
Mas apostar que a comparação das entregas do governo Lula com o balanço desastroso do governo Bolsonaro não será suficiente. Mesmo quando consideramos, estritamente, o balanço positivo da evolução dos indicadores econômicos no mundo do trabalho, o impacto das mudanças favoráveis impulsionadas pelo governo não garante a vitória. O crescimento econômico, a extensão dos benefícios de transferência de renda, a redução do desemprego, a contenção da inflação, o aumento da renda média, a isenção do Imposto de renda até R$ 5 mil reais, e tudo o mais, não são o bastante para garantir um maior apoio a Lula. Um caminho possível para explicar este paradoxo é relativizar estes dados argumentando que foram insuficientes para uma percepção qualitativa de melhoria no padrão de vida, porque aumentou o endividamento, por exemplo. É verdade. Ou que foram muito limitadas as reformas pelo estrangulamento do investimento público imposto pelo arcabouço fiscal, também. Mas estas críticas justas não explicam porque prevaleceu até agora a incerteza. Afinal, a impopularidade do governo não é majoritária entre os mais pobres que são as maiores vítimas dos impasses do lulismo.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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