
O Movimento Convergência Socialista foi lançado em 1978 com objetivo de legalizar um partido socialista. Foi um gesto de ousadia política, pois não havia nenhuma certeza de que a iniciativa seria tolerada pelo regime. A Liga Operária, partido clandestino fundado em 1974, estava por trás da iniciativa e se projetava para além de seus limites de influência. Tratava-se do gérmen de uma ideia que marcaria profundamente a história política brasileira: a construção do Partido dos Trabalhadores.
Em janeiro de 1978, o jornal Versus estampou na capa uma manchete que soava quase como provocação, pois a ditadura não permitia a criação de novos partidos: "O Partido Socialista está nascendo". Vendido nas bancas, o periódico circulou abertamente e atraiu a atenção de estudantes, sindicalistas, intelectuais e de setores atentos aos sinais de mudança que começavam a emergir no país.
O Brasil vivia uma transição ambígua. Enquanto o regime militar mantinha instrumentos rigorosos de controle social e político, iniciava-se uma abertura institucional monitorada. As eleições municipais de 1976 haviam revelado que, embora realizadas sob condições profundamente desiguais, apontavam um avanço expressivo da oposição nos grandes centros urbanos. O Pacote de abril (em 1977, governo Geisel) tentou frear essas tendências em curso. Foi nesse cenário de frestas no regime autoritário e expectativas contidas que a Convergência Socialista emergiu como aposta política, organizativa e simbólica — articulando militância, estratégia e horizonte histórico.
O projeto formulado pela Liga em 1978, como Jano, tinha duas faces. Uma buscava impulsionar um movimento amplo, capaz de reunir organizações e indivíduos em torno da construção de um partido socialista de massas — inicialmente concebido nesses termos e, posteriormente, reformulado na perspectiva de um partido dos trabalhadores sem patrões. A outra preservava a estratégia de fortalecimento da própria Liga Operária como organização orientada para a transformação socialista da sociedade — com todas as implicações políticas e organizativas que isso envolvia.
A dupla face convivia tentando manter uma identidade marxista, leninista e trotskista no interior de um projeto mais amplo e plural. A Liga pretendia disputar publicamente a orientação política e programática dos movimentos sociais. O partido socialista, porém, não se concretizou nos termos inicialmente imaginados. A dinâmica do processo histórico acabou por conduzir a outro desfecho: a construção do Partido dos Trabalhadores como principal referência da reorganização política da classe trabalhadora.
A Convergência ganhou forma em 20 de agosto de 1978, na quadra do Ginásio do Cambuci, na Rua Cesário Ramalho, 310, em São Paulo, onde foi realizada a Primeira Convenção Nacional da Convergência Socialista. Vale notar que a Liga era uma jovem organização, criada em 1974, e que esse passo ousado lhe permitiu acelerar seu processo de afirmação no campo da esquerda brasileira.
Faixas e cartazes identificando núcleos vindos dos quatro cantos do país ornamentavam o espaço. Reuniram-se ali 120 delegados com direito a voto, representando sete estados, além de mais de mil participantes nas arquibancadas. O encontro assumiu a feição de uma verdadeira celebração da democracia política em tempos de autoritarismo. O campo democrático foi surpreendido pela dimensão do evento, que se tornou um dos maiores atos essencialmente políticos realizados no país desde 1968. A ditadura não aceitou muito bem, e grande parte do Comitê Central da Liga foi presa.
Enquanto isso, no campo das lideranças políticas tradicionais, Leonel Brizola, ainda no exílio, articulava a reconstrução do PTB e apostava na composição com os sindicalistas, assim como Miguel Arraes, que se empenhava na reorganização do Partido Socialista Brasileiro. Para esses dirigentes históricos, não fazia sentido integrar-se a qualquer outro agrupamento emergente sem assegurar o controle político do processo.
Nesse mesmo ambiente político circulava Almino Afonso, experiente dirigente oriundo do MDB, que não descartava nenhuma hipótese e mantinha, discretamente, espaço em sua agenda para conversas com a Convergência. Ainda assim, ele e outras lideranças, entre elas Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e Franco Montoro, avaliavam que ainda havia espaço para atuar no interior do MDB.
Essas articulações, que iam de Brizola a Almino Afonso, deixavam evidente que a Convergência não se configurava como um espaço viável para aquelas forças políticas. As concepções, os ritmos e as estratégias eram demasiadamente distintos para permitir a formação de uma unidade orgânica.
O projeto da Liga de construir um partido de massas, no entanto, tinha pela frente um desafio enorme. Segundo editorial do jornal Versus — leia-se, da Liga Operária —, era "difícil, para não dizer impossível, pensar-se um partido de massas trabalhadoras sem a presença de Luiz Inácio Lula da Silva, Olívio Dutra, Benedito Marcílio, Jacob Bittar (…) e tantas outras lideranças sindicais".
E foi a necessidade dessa aproximação que levou a Liga a ir ajustando gradualmente sua política, como quem ajusta as velas no meio da travessia. Aos poucos, a ênfase deslocou-se da defesa prioritária da construção de um partido socialista para a defesa da construção de um partido dos trabalhadores, no interior do qual a Convergência Socialista sustentaria a bandeira do socialismo.
A Circular Nacional da Liga, de 15 de outubro de 1978, registra com clareza essa adaptação às circunstâncias: "Na realidade, para nós, a campanha visa à construção de um grande partido dos trabalhadores, que deve ser socialista (…), um partido dos trabalhadores sem patrões."
A oportunidade para que a Liga apresentasse publicamente aos sindicalistas a proposta de criação do Partido dos Trabalhadores surgiu no 9º Congresso dos Metalúrgicos de São Paulo, realizado em Lins entre os dias 21 e 25 de janeiro de 1979. Embora o tema central do encontro fosse a unificação das campanhas salariais no Estado, o primeiro ponto da pauta foi dedicado ao debate sobre a conjuntura política.
Apenas a delegação dos metalúrgicos de Santo André apresentou a tese intitulada Pela Unidade Sindical e Pelo Fortalecimento dos Sindicatos. Benedito Marcílio, então presidente do sindicato, indicou o mais jovem dos delegados para apresentá-la: Zé Maria, militante da Liga Operária. O documento pode ser considerado, em muitos aspectos, um dos primeiros marcos do processo que levaria à construção do Partido dos Trabalhadores, e chama atenção ter sido aprovado pela maioria dos delegados, com exceção dos sindicalistas vinculados ao Partido Comunista Brasileiro.
A tese finaliza com as seguintes decisões relativas à formação de um partido dos trabalhadores:
- Que se lance um manifesto por este congresso, chamando todos os trabalhadores brasileiros a se unificarem na construção de seu partido, o partido dos trabalhadores;
- Que esse partido seja de todos os trabalhadores, da cidade e do campo, sem patrões (…)
O cientista político J. A. Guilhon Albuquerque registrou o episódio: "Quem primeiro falou de um Partido dos Trabalhadores foi uma organização quase desconhecida, com ligações internacionais e pouco enraizamento brasileiro: a Convergência Socialista." Celso Rocha de Barros cita a frase de Fernando Henrique Cardoso que disse "quem colocou na cabeça do Lula essa ideia de Partido dos Trabalhadores foram os trotskistas".1 Segundo o autor, Fernando Henrique Cardoso exagerou a influência dos trotskistas, "mas não mentiu".
Se Lins contribuiu para formalizar a ideia, foi ao longo de 1979 que o novo sindicalismo consolidou a percepção de que havia chegado o momento de se organizar politicamente. Até então, como observa com precisão Celso Rocha de Barros em "PT, uma história", Luiz Inácio Lula da Silva, Olívio Dutra, Djalma Bom, Jacob Bittar e outras lideranças não aceitariam ocupar um papel secundário, limitando-se a dirigir o setor sindical de um partido comandado por outras forças. Buscavam protagonismo político e traziam consigo um capital relevante: a liderança concreta e reconhecida junto a uma parcela significativa dos trabalhadores.
Foi ao longo de 1979 que o novo sindicalismo consolidou a percepção de que havia chegado o momento de se organizar politicamente. A Liga Operária acompanhou esse movimento e demonstrou sensibilidade política ao adaptar-se gradualmente às novas circunstâncias. Mesmo diante da desconfiança dos sindicalistas em relação ao seu apoio, a Convergência lançou-se no processo de legalização do Partido dos Trabalhadores, ao lado dos sindicalistas, movimentos pastorais, de intelectuais e de outras organizações de esquerda. Historicamente singular e sem precedentes, o Partido dos Trabalhadores foi fundado pelos sindicalistas em 1980, já forte e representativo. Não correspondia exatamente ao projeto originalmente formulado pela Liga Operária, mas tampouco contrariava a proposta de construir um amplo partido de trabalhadores que fosse de massas e tivessem os trabalhadores no comando.
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Este texto é um breve relato do artigo "A Convergência Socialista e o nascimento do PT: dilemas de um partido trotskista na transição democrática", de minha autoria, publicado no livro organizado por Luciano Freitas, "A ousadia necessária: da Liga Operária à Convergência Socialista", cujo lançamento no Rio de Janeiro ocorrerá em seis de março de 2026. A obra reúne uma coletânea de textos que detalham diferentes aspectos da construção desse núcleo político ao longo da década de 1970. Além dos artigos escritos por Luciano Freitas e por mim, participaram também José Maria de Almeida, Mauro Puerro e Omar L. de Barros Filho.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
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