
É madrugada, passa um pouco das 4h30, quando acordei por conta de um pesadelo. Devo ter tido algum resto diurno que despertou vivências traumáticas, pois há tempos não acordava inquieto no meio de um sonho que não realizou sua função de sono, fracassou a censura entre o inconsciente e o pré-consciente. Comecei logo a pensar no sonho: eram cenas de violência nas ruas que liguei à última enchente de Porto Alegre e do estado do Rio Grande do Sul no ano de 2024. Ontem à tarde estive no centro da cidade durante horas resolvendo questões burocráticas, e num momento vi numa parede da Rua Sete de Setembro a marca de onde chegaram as águas na enchente. Calculei quase dois metros e fiquei chocado ao recordar esses dias traumáticos. Não quis ir ao centro para ver a enchente, pois lembrei que na infância escutei muito sobre os abobados da enchente de 1941 que passavam o dia vendo as águas subirem. Não queria ser um abobado, e nunca fui ver nossa última enchente, mas essa marca na parede que vi ontem me impactou.
Já é tempo de recordar que o trauma é um evento muito intenso, surpreendente, a que não se consegue responder bem devido aos transtornos que provocam na realidade psíquica de cada um. Todas as pessoas já viveram e viverão traumas como perdas, separações, frustrações, derrotas ou até vitórias. O trauma é um grande afluxo de excitações que está acima da capacidade pessoal de dar conta, dominar psiquicamente tanta excitação surpreendente. O trauma pode ser pessoal, familiar, social ou mundial. Não faltam exemplos, como a pandemia da Covid-19 ou as guerras recentes, todas elas traumáticas.
Um exemplo de trauma no Brasil foi como se viveu o assassinato de Marielle Franco, crime que o governo anterior fez o possível para não ser investigado, mas não foi esquecido porque teve uma luta para saber quem foram os criminosos e os mandantes do crime. Recentemente, os mandantes foram condenados, mas há os que discordam, afirmando que há mais mandantes ligados a um misterioso condomínio no Rio de Janeiro.
Queria voltar a dormir como sempre faço, mas não pude mais parar de pensar. Vi que era uma série de traumas coletivos, quando fui transportado pela máquina do tempo e cheguei à Argentina de 1976, pois estamos em 2026. No mês de março completa cinquenta anos que ocorreu o pior golpe militar na História da América Latina, com trinta mil pessoas entre assassinados e desaparecidos. Perdi amigos queridos naqueles anos, em especial a inesquecível psicanalista Marta Brea, que trabalhava na Policlínica Lanús, onde fiz a residência de Psicopatologia para me formar psiquiatra. No livro “A Resistência”, o escritor argentino-brasileiro Julián Fuks descreve o sequestro dessa colega e amiga. Marta estava numa reunião da chefia do serviço quando foi chamada para atender o familiar de um paciente. Quando saiu da sala, que eu conhecia muito bem, ela foi agarrada à força e arrastada pelos cabelos. Gritos, muitos gritos ecoaram naquela manhã de 1977, mas os militares vestidos de civis faziam seu trabalho de sequestro em plena luz do dia. Dois meses depois ou pouco mais, a querida Marta estava morta. Todas as tentativas de salvá-la fracassaram – e isso apesar de seu pai ter sido reitor e conhecer funcionários importantes do governo. Mas nada e ninguém puderam salvá-la da morte.
Foi muito rápido o pesadelo que descrevi, mas agora cheguei, num salto, ao distante ano de 1954, numa manhã, dia 24 de agosto, na velha Escola de Educação e Cultura na Avenida Osvaldo Aranha. Numa manhã cinzenta, a querida diretora Nair de Freitas, toda vestida de preto, reuniu todos os alunos na frente da secretaria, quando anunciou em lágrimas que o presidente Getúlio Vargas havia morrido. Não lembro se ela disse que fora suicídio, mas foi um dia traumático naquela escola e em todo o Brasil. Nunca esqueci essa manhã, e poderia me deter ali, pois aquele dia marcou as crianças e os adultos brasileiros. Os traumas coletivos marcam cada ser humano de uma forma particular. Na vida há traumas infantis, que ao longo do tempo vão sendo trabalhados pelo aparelho psíquico de cada um para serem atenuados, mas alguns são difíceis de ser processados. À medida que se envelhece, a gente vai perdendo familiares e amigos que constituem um cemitério que se carrega na alma. Muitas vezes são pais, avós, irmãos, primos, gente querida que abre feridas no amor-próprio e, às vezes, temos nos pesadelos ou sonhos um visitante noturno que desperta tristeza.
Nesses momentos, que felizmente não são frequentes, evito a pressa em afastá-los da mente (às vezes até consigo), mas hoje decidi levantar e escrever. Já havia dormido umas seis horas e o tema dos traumas pediu para ser escrito. Escrever é uma forma de se aliviar, de trabalhar traumas, de atenuar as dores das feridas narcisistas. Prefiro escrever do que falar, e há dias nos quais fico absorvido em estar diante de um computador.
Ontem à tarde, agora lembro, meu neto de dez anos me pediu um grande presente para quando fizesse onze anos, mas que desejava receber em maio, alguns meses antes do seu aniversário. Disse que desejava um notebook para estudar, pois em junho teria muitas provas do semestre e sua irmã tinha dito que seu notebook a ajudou nos estudos. Achei ótima ideia, e disse que iria comprar já em abril e que ele podia escolher qual notebook desejava. O neto esclareceu que não seria um muito caro, pois ele ainda era pequeno. Agora, diante de meu notebook, pensei nessa conversa que me aliviou de um telefonema que recebera pela tarde de um grande amigo que talvez estivesse na raiz do pesadelo. Ele contou que um afilhado estava querendo sair do hospital no meio do tratamento. Ele, que geralmente é calmo e equilibrado, estava chocado, foi uma conversa difícil, pois ele não sabia o que fazer e passamos tempo conversando. Dormi preocupado com as angústias dele e, de alguma forma, elas contribuíram na formação de um pesadelo tristonho e assustador, povoado de violências. Que alívio estar hoje ao lado do neto de dez anos que pediu um notebook de presente para se preparar para as provas de junho. Esse menino ontem encheu meu dia de alegria, pois me mostrou a foto de um por um dos novos professores, da variedade de matérias que vai estudar neste ano. Contava sem parar tudo sobre a escola com o mesmo entusiasmo de quando fala de futebol. A vida sofrida, a vida traumática, às vezes oferece uma bela e comovente conversa, seja com um neto, um amigo, uma festa de aniversário do filho: são sonhos acordados que atenuam os pesadelos.
No filme “Hamnet”, o trauma da morte do filho com esse nome choca seus pais e irmãos, em especial sua mãe, mas ao final essa morte foi transformada na mais famosa peça teatral, que é “Hamlet”. Quando a mãe Agnes, que vivia traumatizada, vai ver a peça do esposo Will, o seu rosto passa da tensão ao espanto, e ao final se descontrai e sorri. Aí o público une as mãos e o trauma é transformado em triunfo. Uma vida é feita de sonhos e pesadelos, não só os noturnos, mas os sonhos agradáveis que se vive e são parte do árduo trabalho de transformar traumas em triunfos.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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