
Perdeu seguidores quando fez um desabafo no Instagram. Não tinha com quem conversar, mas não conseguia conter as ideias dentro de si. Amanda precisava de alguém que as ouvisse. Precisava das reações alheias para que as suas tivessem sentido. Precisava saber que sua tristeza não era só sua, que ela poderia ecoar em outros corações e mentes. Precisava, enfim, de gente que lhe abraçasse. Na carência de gente, seu desabafo para gente desconhecida ampliou-lhe a solidão.
Gente de rede social não abraça. É só imagem e inteligência respondona. Há afetos confusos e confusos afetuosos, mas tudo muito precário. Gente de rede social é gente, mas não parece. Não aparece como gente. Não abraça, nem olha no olho, nem sorri feito gente. Só escreve feito gente. Vem não se sabe de onde e vai embora feito gente que só passa pela nossa vida e não deixa nada além de um movimento de polegar que faz pipocar um joinha na tela. Amanda está triste. Na sua busca por seguidores, perdeu amigos. Talvez, tenha perdido a si mesma.
Estudou, produziu, clicou e postou coisas para ter seguidores. Aprendeu que isso era importante. Fundamental até! Escreveu o que queriam ler. Fotografou o que queriam ver. Às vezes, mostrou o que não queria mostrar, mas a gente anônima da internet queria ver. Sua publicação mais vista, curtida e em todos os aspectos algorítmicos bem-sucedida era uma foto sua de biquíni, em piscina de lugar luxuoso, comendo um morango do amor com ar sexy. Ela não gosta de exibir seu corpo, não mora em lugar luxuoso com piscina, não se faz de sexy e não gosta de morango do amor. Aquela Amanda bem-sucedida das redes não é a Amanda de verdade. E de tanto viver em razão das redes, já não sabe se sua vida é mesmo de verdade.
E nem tem tantos seguidores assim. Se diz influencer sem ser capaz de influenciar ninguém. Não há como convencer porque não há o que opinar. Quando opina, perde seguidores que só querem vê-la de biquíni. Adaptou-se se desvestindo e calando. E ela é tudo, menos calada. Gosta de falar. Tagarela para com quem ou o que quiser ouvir. Já se pegou contando para a geladeira como foi seu dia, só pela necessidade de falar e falta de gente para lhe ouvir. Amanda de verdade é bem vestida, sonora e gosta de gente de verdade.
Cada esforço por seguidor lhe trouxe menos de si mesma na desmedida da vinda de gente nova para sua rede. Perdeu mais de si mesmo do que encontrou gente em sua vida. Sua melhor postagem, talvez, seja mais mérito do morango do amor do que de seu corpo, que para ela não é muito diferente do doce. Seu corpo é carne, tons de pele e formas. A limita, mas não a define. A Amanda de verdade é seu espírito, cheio de ideias e sentimentos, preso dentro do corpo. Perto do espírito, seu corpo é coisa. Que nem o morango do amor. E não falta quem só veja seu corpo como uma delícia amorosa.
Morango do amor teve seu tempo de glória. Já não se vê mais por aí nas redes e nas vitrines de docerias. É moda passada. O corpo de Amanda não é da moda, mas também não é passado. Ainda desperta desejos, mas ela sabe que seu fim será o mesmo esquecimento do doce.
Entre um gole e outro de chocolate quente com conhaque, Amanda se revoltou com o sucesso que fez um morango do amor, coisa sem espírito, coisa sem vida. Muito mais sucesso do que ela! Escreveu e postou a lamentação em seu Instagram, bem vestida e mordendo um morango. Perdeu seguidores com seu desabafo.
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Ilustração: Mihai Cauli
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