
Por um instante, fez-se silêncio. Ouvia-se as respirações pesadas e os gemidos de desesperadas orações dos clientes da lotérica, além dos ruídos das unhas de Neide batendo desajeitadamente no plástico da gaveta da caixa registradora. O silêncio durou pouco.
Aos gritos, um dos ladrões apressava Neide. “Anda logo! Tá achando que isso aqui é brincadeira?”, dizia estendendo o braço como se o revólver empunhado fosse uma adaga cuja mortalidade exigisse ser cravado no corpo de Neide.
O comparsa, mais aflito, vigiava os reféns. Era difícil dizer quem estava mais amedrontado, ele ou as pessoas para quem apontava sua arma. Mesmo com todos quietos, repetia “cala a boca!”, como se fosse uma peça de teatro e o ator só tivesse ensaiado essa fala.
Aderbal entrou tranquilo na lotérica. Tinha o olhar firme de quem tem o espírito forjado na mais pura coragem. Era como um objeto estranho naquela cena de terror. Parecia desafiar o perigo como um herói de filme gringo.
O segundo assaltante, concentrado nos reféns, só se deu conta da presença de Aderbal quando seu comparsa gritou, “Perdeu! Deita aí!”. Virou-se e disparou maquinalmente, pressionando o gatilho mais por medo do que por consciência.
O disparo foi certeiro. Raspou o braço de Aderbal e pegou em cheio no peito de seu comparsa, que desfaleceu como se fosse um castelo de cartas que desmorona. Aderbal apenas olhou para a manga de seu casaco furado pela bala e para o ladrão assustado que tentava, sem sucesso, disparar mais uma vez.
A ausência de medo no olhar de Aderbal impressionou a todos na lotérica. Neide, mesmo abaixada atrás do balcão, arriscou deixar seu rosto à vista apenas para olhar, admirada, aquele espetáculo de coragem. Os gemidos dos reféns foram silenciados pelo espanto diante da calma de Aderbal.
Restava medo apenas no espírito do ladrão com o comparsa baleado e a arma escangalhada. Fugiu apressado e desajeitadamente, deixando para trás a bolsa que pretendia ter recheado com o dinheiro roubado da lotérica.
Os reféns, exultantes de alívio, apressaram-se em cumprimentar seu herói. Alguns diziam que ele era um enviado do senhor. Outros, se perguntavam de onde viria tanta coragem. Não demorou a perceberem que Aderbal desafiava o perigo como se não fosse nada porque era um idiota. Um completo idiota.
Depois de ver nas redes sociais muitas histórias e opiniões que diziam que pessoas conservadoras eram abençoadas, passou a repetir todas as opiniões conservadoras que ouvia e lia. Praticava julgamentos moralistas e via demônios e comunistas a serem desprezados e combatidos em todos os lugares. Embevecido de raiva conservadora e ilusão de santidade divina, saiu pelas ruas achando-se invulnerável.
Entrou na lotérica apenas para confrontar aquele lugar, que via como comunista e feminista porque só havia mulheres trabalhando. Foi uma surpresa quando viu gente armada lá dentro. Como aprendeu que armas eram coisa de homens de bem, concluiu que eles também haviam detectado aquele antro de feminismo comunista e tomaram uma atitude muito mais radical que a sua. Estava admirado.
Neide, aproveitando que já estava com a sacola cheia de dinheiro na mão, escondeu-a embaixo do balcão. Contaria para a polícia que o outro ladrão fugiu com o dinheiro. Um dos reféns pegou a arma do ladrão morto e escondeu-a no casaco. Outra refém, aproveitando o clima de descontração, pegou para si alguns objetos da lotérica. Outro, surrupiou o dinheiro do bolso do ladrão morto e outro, ainda levou para si o seu par de tênis.
Quase todos saíram dali levando alguma coisa de valor, exceto Aderbal que, triste, encontrou naquela confusão frustração de seu plano de exibição de seu conservadorismo. Mas enquanto a lotérica era saqueada, teve outra ideia.
A polícia chegou logo depois que Aderbal jogou gasolina e acendeu o fósforo na lotérica. Assistia com orgulho as chamas se espalhando enquanto era rendido por policiais que não sabiam ao certo se o estavam prendendo ou salvando da multidão enfurecida que queria linchá-lo.
Palavras-chave: conservadorismo, comportamento, violência, cultura, crime
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
Clique aqui para ler artigos do autor.






