Se a corrente de Petro perder as eleições na Colômbia, o México e o Brasil ficarão ainda mais isolados na resistência à expansão imperial americana.

No último dia oito de março, foi eleito um novo Congresso na Colômbia (Senado e Câmara de Representantes). No mesmo processo eleitoral, tal como previsto pela legislação do país, foram realizadas consultas, mediante votação popular, para uma seleção de candidatos à Presidência da República, que foram apresentados pelos partidos políticos.
Iván Cepeda, candidato de esquerda do Pacto Histórico, partido do atual presidente Gustavo Petro, foi impedido de participar pelo Consejo Nacional Electoral, controlado pela direita e, desta forma, ele não pôde disputar nesta prévia com os outros pré- candidatos do bloco progressista – Frente por la Vida. Assim, para concorrer à presidência, Iván Cepeda terá de concorrer diretamente pelo seu partido no primeiro turno eleitoral, com outros quinze candidatos, além de outros também indicados diretamente por seus partidos.
Os resultados eleitorais desenham um novo panorama político para o primeiro turno das eleições presidenciais, que ocorrerá no próximo 31 de maio, e também diante de um eventual segundo turno (21 de junho), caso nenhum candidato obtenha mais de 50% dos votos na disputa.
O indicador mais representativo do momento político eleitoral vivido na Colômbia nas eleições de oito de março é o resultado da votação para o Senado. O Pacto Histórico, partido do presidente Petro e de Iván Cepeda, candidato a sucedê-lo, passou de 20 para 27 cadeiras, em um total de 102 que compõem essa casa legislativa.
O Centro Democrático, partido do ex-presidente Álvaro Uribe e da senadora Paloma Valencia, sua candidata à presidência, passou de 14 para 17 cadeiras. Os dois grandes partidos em disputa cresceram, mas não conseguiram maiorias contundentes.
As 58 cadeiras foram distribuídas entre partidos minoritários, embora, segundo analistas, o Pacto Histórico tenha grandes possibilidades de atrair aliados para formar maiorias no próximo governo. Entre estas agremiações menores, nos partidos Liberal, de la U, Conservador e Verde, que juntos somam 48 senadores eleitos, em geral venceram os candidatos mais próximos do governo Petro, enquanto os aliados de Uribe foram derrotados.
Segundo as regras do jogo eleitoral, agora disputarão a presidência o candidato de extrema direita, De la Espriella, conhecido pelo apelido de “El Tigre”, seguidor dos modelos de Bukele e Milei, que nas pesquisas tinha uma média de 22% de apoiadores, contra o candidato progressista Cepeda, que marcava 33%. Eles representavam o novo espectro eleitoral presidencial.
A novidade pós-eleitoral é que o ex-presidente Álvaro Uribe conseguiu se reinventar (sua popularidade havia caído drasticamente após os processos judiciais que enfrenta e que chegaram a levá-lo à prisão). Sua candidata Paloma obteve 3,6 milhões de votos na consulta e agora desafia “El Tigre”, mas de papel, já que este nunca disputou eleições. Seu sucesso tem sido apenas no manejo das redes sociais e no espetáculo de agressividade verbal.
Por enquanto, os partidos do “pântano” foram os perdedores. Seu maior expoente, Sergio Fajardo, que se diz não ser nem uribista nem antiuribista não participou da consulta recente e não tem bancada própria no Senado. Nas eleições passadas, ele foi “ver as baleias”, em vez de escolher entre Petro e Uribe. É um enorme blefe.
Claudia López, que se reivindica do centro e recentemente se aproximou da direita – embora Uribe não a aceite – saiu muito enfraquecida da consulta: obteve apenas 575 mil votos e sua esposa, Angélica Lozano, não conseguiu se reeleger ao Senado.
A grande surpresa do eleitorado de centro foi Juan Daniel Oviedo, ex-diretor do Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE) no governo do presidente uribista Iván Duque (Petro chegou a lhe oferecer o mesmo cargo, mas ele recusou). Sendo membro da comunidade LGBT, apresentou-se na consulta junto aos políticos de direita e obteve a expressiva soma de 1,3 milhão de votos.
Oviedo poderia ser convidado a ser vice-presidente de Paloma Valencia para atrair setores não uribistas para esse projeto. Contudo, ele declarou apoiar o Acordo de Paz firmado entre o Estado e a guerrilha das FARC em 2016, algo inaceitável para o principal líder da direita, Álvaro Uribe.
Iván Cepeda é filho do senador de esquerda Manuel Cepeda Vargas, assassinado em 1994 por membros do Exército. Esse crime contra a humanidade foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, como parte da guerra suja contra a União Patriótica, que deixou mais de 4.000 assassinatos.
Cepeda conta com o respaldo do presidente Petro, que por sua vez tem o apoio de 52% dos colombianos. Ele se comprometeu a aprofundar as transformações iniciadas por Petro – reforma agrária, reforma trabalhista, sistema de pensões, sistema de saúde, educação, entre outras – muitas das quais permanecem bloqueadas pelo Congresso. Além do mais, comprometeu-se também com uma luta profunda contra a corrupção sistêmica e estrutural que deslegitima o Estado colombiano.
Falta ainda um ator-chave nesse cenário: o presidente Donald Trump. Toda a direita uribista apostava que Trump faria com Petro o mesmo que havia feito com o presidente Nicolás Maduro. Alguns chegaram a pedir explicitamente que os Estados Unidos invadissem a Colômbia. Porém, esse discurso desmoronou quando Petro e Trump se reuniram no dia quatro de fevereiro e Trump declarou: “Nós nos damos muito bem… tivemos uma reunião muito boa. Ele é fantástico.”
Mas com Trump tudo pode mudar. Os Estados Unidos ainda não retiraram Petro da lista OFAC – uma lista de pessoas que sofrem bloqueios financeiros por parte dos Estados Unidos, embora o presidente não tenha nenhum processo perante as autoridades americanas. Por enquanto, concedem-lhe apenas vistos temporários.
Os uribistas continuarão pressionando seus aliados em Miami para que ocorra na Colômbia o mesmo que aconteceu nas últimas eleições na Argentina, Honduras e até na Venezuela. Porém, essa já parece uma jogada fracassada.
De todo modo, na nova desordem internacional construída pelo presidente Trump, Petro aparece ao lado de Claudia Sheinbaum e Lula como aliados não domesticados, aqueles que não são convidados para sua mansão em Miami.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
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