Quando a guerra ameaça a água

Há algo de profundamente perturbador no tempo histórico em que vivemos. Em pleno momento em que a ciência alerta para a urgência de conter o aquecimento global, o mundo assiste a uma nova escalada militar no Oriente Médio que ameaça não apenas a estabilidade geopolítica, mas também os próprios fundamentos ecológicos da vida humana.

O conflito em torno do Irã revela, de forma dramática, como as guerras do século XXI continuam presas à lógica dos combustíveis fósseis e do controle de rotas energéticas – e começam agora a colocar em risco algo ainda mais básico: o acesso à água.

É nesse sentido que a situação criada pela dupla Donald Trump e Benjamin Netanyahu ultrapassa o terreno da geopolítica regional e entra diretamente no coração do problema climático mundial. A guerra contra o Irã, iniciada no final de fevereiro e que já se aproxima da terceira semana, não apenas multiplica mortos, deslocados e destruição material. Ela também empurra o mundo de volta à lógica do combustível fóssil, da segurança energética militarizada e da emergência permanente – exatamente o oposto do que seria necessário para uma transição ecológica planejada.

O caso do Estreito de Ormuz tornou-se o símbolo mais dramático dessa nova escalada. Após o assassinato do aiatolá Ali Khamenei durante os ataques americanos e israelenses e sua rápida substituição por seu filho, Mojtaba Khamenei, a crise regional entrou em um cenário que durante décadas foi considerado o pior pesadelo da geopolítica energética: a interrupção da navegação pelo Estreito por onde circula cerca de um quinto do petróleo comercializado no planeta e uma parcela significativa do gás natural liquefeito e de fertilizantes do comércio mundial.

O que durante anos foi tratado como hipótese extrema transformou-se em realidade.

O fechamento de Ormuz não é apenas um episódio militar; é um choque energético de alcance global. Ao interromper uma das principais artérias do sistema energético mundial, o conflito empurra novamente os mercados para a lógica do medo, da escassez e da corrida por combustíveis fósseis – exatamente o oposto do que seria necessário para estabilizar o clima.

Quando uma das principais artérias energéticas do planeta é interrompida, o sistema internacional não reage com serenidade climática. Reage com pânico fóssil. Governos voltam a priorizar segurança energética imediata, mercados disparam e a transição energética – que exige previsibilidade e planejamento – é empurrada para segundo plano.

Dessalinização: a fragilidade oculta do Golfo

Como se não bastasse a ameaça ao sistema energético global, começam a surgir sinais ainda mais perturbadores. Notícias recentes indicam que a guerra já ameaça inclusive o funcionamento de sistemas de abastecimento de água em partes da região.

Em grande parte do Golfo Pérsico, entre 70% e 90% do fornecimento de água potável depende da dessalinização do mar. Essa é a realidade da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar e Bahrein – os maiores usuários de água dessalinizada do mundo.

As usinas que realizam essa transformação dependem de energia abundante e de cadeias logísticas estáveis para operar. Quando conflitos militares atingem portos, redes elétricas, instalações industriais ou rotas marítimas, o risco deixa de ser apenas energético e passa a ser também hídrico.

Em uma das regiões mais áridas do planeta, onde a água doce natural é escassa, qualquer interrupção desses sistemas pode rapidamente transformar uma crise militar em uma crise humanitária capaz de atingir algo em torno de 100 milhões de pessoas.

O risco de colapso torna-se particularmente grave porque três dependências estruturais se sobrepõem: a água depende de energia, a agricultura depende de água e o abastecimento alimentar depende majoritariamente de importações. Se a energia falha e a dessalinização é interrompida, a cadeia de efeitos pode ser devastadora.

Sem energia não há dessalinização; sem dessalinização não há água potável; sem água as cidades entram em paralisação; crises sanitárias emergem; cadeias logísticas se rompem e o risco de escassez alimentar passa a ser real.

A vulnerabilidade é agravada por um dado pouco conhecido fora da região: muitas cidades do Golfo possuem apenas alguns dias de reserva de água potável. Estimativas indicam que países como Kuwait dispõem de algo entre três e cinco dias de reservas, enquanto no Qatar esse intervalo pode variar entre dois e quatro dias. As usinas de dessalinização precisam operar praticamente de forma contínua para garantir a sobrevivência cotidiana dessas sociedades.

No Golfo, a água não é apenas um recurso natural. Ela é, literalmente, um produto industrial.

É precisamente essa infraestrutura vital – as usinas que transformam água do mar em água potável – que a guerra começa agora a colocar em risco.

A contradição é evidente. Há anos se repete nas conferências climáticas que a transição energética exige previsibilidade, coordenação internacional, financiamento e planejamento de longo prazo. A guerra faz exatamente o oposto. Ela introduz rupturas de oferta, especulação, choques de preços e medo de desabastecimento.

Em vez de acelerar o abandono do velho paradigma energético, o conflito o ressuscita sob a forma de urgência estratégica.

A própria máquina da guerra é intensiva em carbono. Operações militares, deslocamentos de tropas, bombardeios, produção de armamentos e reconstrução de cidades destruídas ampliam significativamente as emissões. Orçamentos que poderiam financiar adaptação climática, transição energética ou proteção ambiental são redirecionados para defesa e rearmamento.

Em outras palavras, a guerra não é apenas um drama humanitário ou diplomático. Ela é também uma política climática regressiva.

Existe ainda uma dimensão política menos visível, mas igualmente grave. A crise climática depende de cooperação internacional em larga escala. Exige confiança mínima entre Estados, instituições multilaterais capazes de coordenar metas, financiamento e transferência tecnológica. A guerra destrói exatamente esse ambiente.

Quando a política internacional entra em estado de beligerância permanente, a governança do clima se torna refém da lógica do inimigo.

Nesse cenário, a China aparece como uma contradição relevante. Ainda depende de carvão, é verdade, mas ao mesmo tempo tornou-se o maior investidor mundial em energias renováveis e tecnologias de transição energética. Enquanto parte do Ocidente reacende a geopolítica do petróleo sob escolta militar, Pequim expande rapidamente sua capacidade em energia solar, eólica, baterias e redes elétricas.

A disputa entre essas duas trajetórias – a militarização da energia fóssil e a industrialização da energia limpa – ajudará a definir o futuro da transição climática global.

Brasil: a potência hídrica que poucos percebem

Em um planeta marcado pelo aquecimento global, pela expansão de regiões áridas e pela pressão demográfica sobre recursos naturais, a disponibilidade de água doce tende a se tornar um dos fatores mais decisivos de estabilidade política e segurança alimentar.

Sob essa perspectiva, o Brasil ocupa uma posição singular. Detentor de cerca de 12% da água doce superficial do planeta, o país possui uma vantagem estratégica que muitas vezes passa despercebida no debate público.

Em um mundo onde a escassez hídrica pode alimentar tensões regionais, migrações forçadas e crises humanitárias, a abundância relativa de água transforma-se em um ativo geopolítico de primeira ordem.

Isso não significa que o Brasil esteja imune às turbulências globais. Conflitos no Oriente Médio podem elevar o preço dos fertilizantes, pressionar custos de transporte marítimo, provocar volatilidade nas commodities agrícolas e alimentar pressões inflacionárias.

Nenhuma economia está completamente isolada de uma crise dessa magnitude. Mas o contraste permanece evidente. Diferentemente de regiões onde a sobrevivência cotidiana depende de complexas infraestruturas industriais para produzir água potável, o Brasil ainda possui vastos sistemas fluviais, reservatórios naturais e uma matriz energética relativamente limpa.

Essa posição oferece uma vantagem estratégica em um mundo cada vez mais pressionado por crises ambientais e geopolíticas.

A tragédia que se desenha diante de nós é dupla. Morrem pessoas sob bombas e morre, ao mesmo tempo, um pouco mais da já frágil possibilidade de coordenação global para enfrentar o aquecimento do planeta. O mesmo sistema internacional que se mostra incapaz de proteger civis também se mostra incapaz de proteger as condições mínimas de habitabilidade da Terra.

A guerra no Oriente Médio já ameaça o petróleo, ameaça rotas marítimas, ameaça sistemas energéticos e agora ameaça até o acesso à água.

Quando conflitos armados começam a comprometer os próprios fundamentos ecológicos da vida humana, não estamos apenas diante de uma crise geopolítica. Estamos diante de um alerta civilizatório.

Se o mundo quiser realmente enfrentar a emergência climática, terá de reconhecer uma verdade incômoda: militarização, guerra e transição ecológica são caminhos cada vez mais incompatíveis. Não se pode defender o planeta mantendo intacta a lógica geopolítica que transforma energia, água e territórios em instrumentos de poder e destruição.

As guerras de nosso tempo não apenas incendeiam regiões inteiras. Elas ajudam a incendiar o próprio futuro climático da humanidade.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
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