Nas últimas semanas, escrevi três artigos sobre a Europa (este, este e este), nos quais venho afirmando que a União Europeia, seus valores, princípios e propósitos iniciais foram traídos e colocados a serviço de grandes corporações e grupos de poder. Alcançou-se tal grau de submissão, incoerência e impotência política que, ao menos para mim, chega até a causar vergonha sentir-me europeu.

No entanto, nessa situação, surge um paradoxo que convém resolver se quisermos refletir com lucidez sobre nosso futuro: se a União Europeia está “acorrentada”, segundo a expressão de Sami Naïr no título de sua última obra; se não coloca em prática os valores progressistas originais; se foi e continua sendo uma sócia fiel dos Estados Unidos e aceitou submeter-se a seus ditames, por que a odeiam os grandes líderes do novo capitalismo tecnológico que procuram dominar o mundo e que utilizam o trumpismo e a extrema direita global para consegui-lo? Por que Trump a despreza e insulta? Por que não dissimulam — como se faz no recente documento sobre Segurança Nacional da administração norte-americana — que desejam destruí-la e reduzir a nada sua presença e influência no mundo?

Responder a essas perguntas é fundamental para não cair no antieuropeísmo que conduz a um perigo letal: o de renunciar a condições indispensáveis para frear a ofensiva totalitária que se expande, avançando ao mesmo tempo rumo a um mundo diferente, baseado na democracia, na justiça, na liberdade e na paz.

Minha resposta geral é simples: a extrema direita trumpista não odeia a Europa porque funcione mal, mas porque resiste a deixar de ser a Europa que poderia ter sido. Ainda que tenha sido traída, esteja acorrentada, burocratizada e moralmente desorientada, a União Europeia ainda encarna princípios estruturalmente incompatíveis com o tipo de economia e sociedade que o novo capitalismo tecnológico oligárquico, autoritário e tendencialmente neofeudal que se expande impõe. Em concreto, há cinco elementos que continuam presentes na Europa e que esse novo capitalismo não pode admitir.

  1. Fizeram da Europa principalmente um mercado, mas ela continua sendo um limite

O novo capitalismo que tem no trumpismo sua bandeira política concebe — ou talvez fosse mais preciso dizer que necessita — o Estado como uma empresa, a cidadania como clientela, a política como intercâmbio e o poder como exercício de um direito que nasce da propriedade privada.

A União Europeia, mesmo em sua versão claramente disfuncional e submetida à lógica imposta pelos grandes poderes econômicos e financeiros, não corresponde plenamente a essa concepção de sociedade e política.

A Europa continua sendo um espaço pós-nacional, o que é inaceitável para o nacionalismo autoritário em que se baseia o novo capitalismo. E continua sustentada, ao menos formal ou declarativamente, por um arcabouço de direitos positivos que não estão definidos exclusivamente para proporcionar liberdades de mercado. Embora o espaço europeu padeça de um profundo déficit democrático, ainda configura um sistema em que o poder não é plenamente discricionário.

  1. O modelo social europeu conserva heresias imperdoáveis para o novo capitalismo

O “modelo social europeu”, embora esteja sendo erodido por dentro, conserva três heresias imperdoáveis para o novo capital tecnológico e para o capitalismo de concentração exacerbada da riqueza: a ideia de que o mercado deve ser regulado — algo que, além disso, se torna prática cotidiana na Europa —, o reconhecimento de direitos sociais universais e a contenção, por mais enfraquecida que esteja, frente ao poder concentrado.

O novo capitalismo oligárquico das plataformas, das big techs e das finanças algorítmicas necessita, ao contrário, de desregulação radical, Estados fracos ou capturados, condições legais que permitam trabalho precarizado, não sindicalizado e despolitizado, e cidadãos transformados em dados.

A Europa, entretanto, ainda regula, sanciona, protege dados e limita monopólios — ainda que o faça mal e tarde, mas o faz. E o novo capitalismo simplesmente não pode prosperar, nem sequer existir, em um marco assim.

  1. A Europa é deliberativa e, por isso, “ineficiente”

A Europa é deliberação constante. Precisa articular consensos complexos para harmonizar uma enorme diversidade de interesses, instituições, sujeitos e nações. Por isso é quase sempre lenta, e suas negociações às vezes produzem monstros. Tudo isso a torna “ineficiente”, ou até perigosa, para aqueles que apenas pretendem levar adiante seus negócios sem qualquer consideração pelas externalidades ou danos que produzem, nem por qualquer responsabilidade.

O novo autoritarismo tecnológico necessita de decisão rápida, opacidade, concentração de poder e ausência de conflito democrático. Exatamente o oposto do que existe na Europa: procedimentos longos, contrapesos, tribunais, normas comuns e negociação constante. Para quem aspira a ser o novo senhor do mundo, tudo isso não passa de um obstáculo operacional atrás do outro; fricções que geram custos e limitam o lucro.

  1. A Europa conserva uma memória genética talvez indelével: o poder pode ser domesticado

Mesmo admitindo que a Europa tenha sido submetida e desfigurada, a realidade é que conserva uma espécie de marca genética original que possivelmente não pode ser apagada: a ideia de que o poder pode ser domesticado.

Ainda que isso se torne cada vez menos evidente e vá ficando em recantos cada vez mais distantes do subconsciente coletivo, essa marca contém algo essencial: a Europa nasceu do trauma, do fascismo, das guerras e do genocídio, da rejeição aos Estados totalitários, e por isso, apesar de tudo, desconfia do líder forte, da ausência de regras — inclusive no sacrossanto mercado — e da fusão entre dinheiro, tecnologia e poder político.

Exatamente o contrário do que necessita e persegue o novo capitalismo e sua extrema direita neofeudal: líderes carismáticos, empresários soberanos, tecnólogos que desenham o rumo do mundo e uma democracia esvaziada, reduzida a mero espetáculo. Diante disso, a memória interna da Europa continua sendo incômoda.

  1. Não a odeiam pelo que é hoje, mas pelo que poderia ser

Na realidade, o novo capitalismo não odeia a Europa pelo que ela é hoje. Nossos dirigentes, com Von der Leyen e o chanceler alemão à frente, empenham-se diariamente em demonstrar que não deveriam temê-la. Odeiam-na pelo que poderia ser.

A Europa não é perigosa por seu presente, pelo que seus líderes vêm fazendo há décadas, mas por seu potencial. Se recuperasse soberania política, democratizasse sua economia, controlasse seriamente o capital tecnológico, reforçasse os direitos sociais e apostasse em bens públicos europeus que proporcionem segurança e autonomia a seus povos, tornar-se-ia o único bloco capaz de oferecer uma alternativa sistêmica ao capitalismo autoritário oligárquico.

É pelo que poderia fazer — e não pelo que faz — que querem uma Europa fragmentada e quebrada, fraca, ridicularizada e submissa até mesmo nas formas. Por trás do ódio não há desprezo, mas prevenção estratégica.

A Europa hoje funciona mal, tem dirigentes medíocres e aplica políticas que geram mal-estar, insegurança e desafeto cidadão. O comportamento servil de seus líderes envergonha. Mas seu DNA de liberdades e democracia, por imperfeito que seja, continua sendo uma pedra no sapato do novo capitalismo, porque lhe impõe um limite histórico, político e moral.

  1. A Europa como problema geoestratégico

Por fim, há uma razão adicional, de caráter geoestratégico, que explica o ódio do trumpismo e da extrema direita global à Europa.

A União Europeia é hoje o único grande espaço econômico integrado do mundo que, ainda que subordinado, não está completamente submetido nem ao novo capitalismo tecnológico oligárquico nem a uma soberania estatal única que o controle sem fissuras. Seu peso econômico, sua capacidade regulatória com efeitos globais, sua posição central nas cadeias de valor e sua localização estratégica entre Estados Unidos, Rússia, China, África e Oriente Médio fazem dela um território decisivo que nenhum projeto hegemônico pode deixar fora de controle.

No cenário traçado pelo novo capitalismo, uma Europa politicamente autônoma, capaz de definir uma política industrial própria, construir soberania tecnológica, energética e financeira e dotar-se de uma arquitetura de segurança independente, seria um competidor sistêmico. Não tanto por seu poder militar, mas por sua capacidade de estabelecer regras, padrões e limites ao poder econômico global.

Por isso, a estratégia dos Estados Unidos nunca foi fortalecê-la como aliada em pé de igualdade, mas mantê-la fragmentada, dependente, militarmente subordinada, tecnologicamente vulnerável e politicamente irrelevante como ator global. Não se trata de conquistá-la, mas de neutralizá-la como sujeito histórico, inclusive envolvendo-a em conflitos bélicos decorrentes de escaladas geopolíticas que desembocaram em guerras como a da Ucrânia.

As elites políticas, econômicas e tecnocráticas dominantes na Europa não defenderão esse DNA europeu de democracia, bem-estar e liberdades. A maioria demonstrou preferir uma Europa subordinada, porém funcional aos grandes interesses econômicos, a uma Europa autônoma a serviço de seus povos.

É preciso evitar dois erros: transformar “o problema europeu” em mero enfrentamento com Trump e deixar a defesa da Europa nas mãos de quem a esvaziou de conteúdo democrático e social. A Europa só terá futuro se for resgatada do duplo naufrágio ao qual é empurrada: de um lado, pelo autoritarismo oligárquico global; de outro, pelo conformismo tecnocrático interno.

Defender a Europa não significa aceitar o que ela é hoje, mas lutar pelo que poderia e deveria ser.

Na situação em que o mundo se encontra, renunciar à Europa ou abandoná-la ao antieuropeísmo seria um erro histórico de consequências letais. Compreender por que a odeiam é essencial para entender que é fundamental resgatá-la, se quisermos frear a deriva autoritária global que se aproxima e abrir caminhos alternativos para transformar as condições de vida no planeta. (Publicado por Ganas de Escribir – Juan Torres López)

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Tradução: Eduardo Scaletsky
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
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