
Tomado de certa apatia, imagino não ser o único a me sentir, meio que por espasmos, apalermado com as notícias sobre o Banco Master e seu dono Daniel Vorcaro. Um escândalo a mais, ainda que de proporções inéditas. Quem sabe não seja algo como um surto de entorpecimento. Cansaço de ver de novo mais do mesmo. Exaustão da mesmice das trambicagens, dessa enraizada cultura do truque barato e da truculência, do esnobismo escroto dos novos ricos de todos os tamanhos e espécies (do craque indolente e enfadado quem sabe com a própria fortuna e dos donos de casas de apostas online e seus convidados de luxo para viagens nababescas), ou dos muito velhos, das suas inarredáveis falta de cultura e de educação, da truculência travestida de hombridade. Tudo isso parece estar muito bem expresso, por exemplo, no videozinho que circula na internet do promoteur de festas indecentemente caras que prestava serviços exclusivíssimos a Vorcaro, onde ele próprio aparece narrando suas proezas num tom de voz enjoativo e afetado, deslumbrado, enquanto mostra umas tantas moças dançando sobre mesas de comidas e bebidas sofisticadas uma dança automatizada, rude e sem graça, exibindo uma esbeltez medicamentosa, tão idênticas umas às outras que parecem produzidas em laboratório ou saídas de uma linha de produção. O que esperam essas pobres mulheres, tratadas como objetos decorativos de um banquete, além do cachê pré-combinado e das brutalidades dos machos a que são obrigadas a servir, e sofrer caladas? (Como contou Marcelo Rubens Paiva na sua coluna para a Folha, Vorcaro disse conhecer “mais de cem profissionais do sexo, que já deu festas com 300, mas que nunca ficou com essas mulheres… porque sentia nojo do tipo de trabalho que essas mulheres fazem.)
Talvez estejamos todos saturados de espanto, exauridos desse eterno retorno ao cenário emporcalhado no qual viceja boa parte das chamadas classes produtoras brasileiras e seus herdeiros – grandes agricultores e pecuaristas, industriais e grandes comerciantes, banqueiros e os donos dos meios de comunicação, pastores e a variada gama de vendedores de ilusão.
Já não há surpresa, nem sequer com a dimensão do escândalo que bate os recordes atordoantes, superando em profundidade e alcance os anteriores – ondas de escárnio produzidas pelos quatro cantos da República se sucedem umas às outras num interminável espetáculo de banalização.
Antes de prosseguir, devo esclarecer que esse nojo e esse asco que nos enchem de vergonha e medo, não são sobre um mundo distante, habitado por serezinhos verdes (ou verdes e amarelos), ao contrário, esse asco e esse nojo são também sobre mim mesmo, sobre o mundo com o qual compartilho ruas e calçadas, e ainda que sem intimidade, certos ambientes e pedaços da cidade. Trata-se, portanto, de um inimigo que, como diria aquele soldado drogado do Apocalipse Now que, engolido pelas trevas e pela selva, dispara morteiros contra um inimigo invisível no meio da noite: “Ele está perto, muito perto…” (“He is close, real close…”).
Como disse um dia desses o deputado por Minas Gerais Rogério Correa, “esse Vorcaro e seu cunhado, o pastor André Valadão da Igreja Lagoinha, nós os conhecemos de perto lá em Minas… seus modus operandi não são novidade pra ninguém lá em Minas”. Eles, eu, vocês, cada um de nós, os de São Paulo ou Santa Catarina, de Brasília, do Rio, da Bahia ou de Minas Gerais, nós os conhecemos bem ou estamos de algum modo familiarizados com suas figuras. Eles estão fincados na nossa memória, frequentam nosso imaginário tanto quanto, eventualmente, os noticiários, fazendo crescer nossa repulsa quase ao ponto do entorpecimento. Eles estão próximos, muito próximos, eles e seus modos e suas manias e seus tiques rudes, seus tons e expressões inseminados de vulgaridade, seu escárnio com os que, aos milhões e à distância, alimentam a ilusão e o desejo de um dia se tornarem como eles, ricos e indecorosos.
Dessa sensação de culpa e vergonha provocada pela proximidade, ainda que apenas relativa, não há como se livrar. Nós às vezes os encontramos em festas ou funerais, tocamos seus corpos em breves e constrangidos apertos de mão. É como se estivessem desde sempre na seiva que move o país, contaminando a vida social e o próprio Estado.
P.S: Enquanto isso, lá fora, o Imperador, dia após dia, semana após semana, decide que tem o direito de governar os países sob sua área de influência ou quem deve ser sequestrado e levado preso para a sede do Império, ao mesmo tempo em que, no Oriente Médio, Netanyahu (procônsul do Império na área – embora eventualmente pareça ser ele mesmo um imperador) decide quem tem legitimidade para governar e quais chefes de Estado ou auxiliares próximos devem ser – e são – assassinados. De mãos livres para sequestrar e mandar matar, naturalizam a ilegalidade e o crime, e sem mais nenhuma máscara, sem se sentirem obrigados a sequer dar satisfação dos atos que praticam, se assumem como os donos do pedaço, os brutamontes da turma a quem ninguém ousa desafiar, e já que possuem os mais poderosos exércitos, aqueles a quem foi concedida a graça de determinar pela força o que é o bem e o que é o mal.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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