O planeta rumo à idiotização da raça humana

Para quem acreditava ainda ser possível a convivência pacífica entre israelenses e palestinos, vivendo em dois Estados legitimamente criados, a situação parece ter ficado bem mais difícil. Tudo aponta para uma posição irascível de Israel, que não deverá abrir mão de seu projeto de dominação dos palestinos mediante a expansão e fortalecimento de suas centenas de assentamentos ilegais israelenses na Cisjordânia e monitoramento constante da população de Gaza. Para Israel isso se tornou um fator existencial. Toda a história de Israel, de sucessivas ameaças à sua existência, com guerras com países vizinhos desde 1948, hostilidade de grupos como o Hamas e Hezbollah, firme desejo do Irã de eliminá-lo, levam-no a buscar segurança e sobrevivência (fronteiras defensáveis, prevenção de ataques e superioridade militar regional) e poder de dissuasão (força suficiente para desencorajar os ataques de inimigos).

Presentemente, parte significativa da política israelense é contrária à criação de um Estado palestino. Uma das razões é a segurança. Após os Acordos de Oslo, Israel permitiu maior autonomia palestina. Ocorreram, porém, períodos de violência, como a Segunda Intifada, com atentados contra civis israelenses. Após sua retirada em 2005 da Faixa de Gaza, o Grupo Hamas assumiu o controle daquele território e passaram a ocorrer lançamentos de foguetes contra Israel. Daí a percepção de muitos israelenses de que um Estado palestino pode se tornar uma base de ataques.

Outro fator crucial é a falta de confiança entre as partes. Que garantias haveria para a paz?

Outra razão é a falta de uma liderança unificada na Palestina. A Autoridade Palestina “governa” partes da Cisjordânia e o Hamas “governa” Gaza. Qual seria o parceiro confiável para se negociar com o Estado palestino?

Existem muitas divisões dentro de Israel. Partidos mais à direita se opõem a um Estado palestino. Alguns defendem anexar partes da Cisjordânia. Outros (centro e esquerda) ainda apoiam a solução de dois Estados. A sociedade israelense está muito longe de uma unanimidade.

Existem, também, questões territoriais e religiosas. Alguns israelenses consideram algumas áreas da Cisjordânia como históricas ou religiosas. Eles consideram essas terras como parte legítima de Israel. Daí recusarem-se a aceitar outro Estado nelas.

Resumidamente, a rejeição de Israel a um Estado palestino provém de:

– Preocupações de segurança

– Experiências passadas de violência

– Falta de confiança

– Divisão entre lideranças palestinas

– Política interna israelense

As chances de se trazer à pauta o tema do Estado palestino são mínimas. Principalmente no momento atual, de guerra entre Israel / EUA e Irã, que tem o perigo de um ataque nuclear por parte de Israel.

Por outro lado, como é sabido, grande parte dos xiitas muçulmanos não aceita a existência do Estado de Israel. E isso decorre de uma combinação de fatores históricos, políticos e também religiosos. Para os xiitas (além de muitos sunitas), o problema central começa com a criação de Israel em 1948, evento que está ligado à expulsão ou fuga de centenas de milhares de palestinos — conhecida como a Nakba.

Resumidamente, o não reconhecimento do Estado de Israel por boa parte dos xiitas deriva das seguintes razões:

– Solidariedade com os palestinos

– Disputa territorial e histórica

– Importância religiosa de Jerusalém (mesquita de Al-Aqsa)

– Influência política do Irã

– Visão moral de resistência contra opressão

Se pesquisarmos a razão da guerra dos dias de hoje, encontraremos mentiras, falácias e hipocrisias. O Irã, diferentemente do que os EUA e Israel propalam aos quatro ventos, nunca esteve próximo de alcançar a tecnologia da bomba nuclear. Muito ao contrário, eles sempre estiveram prontos para retomar o Plano de Ação Conjunto Global, de 2015, que limitava o programa nuclear iraniano a fins civis e impunha monitoramento internacional, cumprido à risca pelo Irã até 2018, quando Donald Trump decidiu retirar os EUA do Acordo, contrariando os países europeus que também participavam diuturnamente de seu monitoramento.

Com a saída dos EUA do Acordo, o Irã passou gradualmente a reduzir o cumprimento das limitações, aumentou níveis de enriquecimento e restringiu algumas inspeções, o que reforçou temores e suspeitas de que o país estivesse avançando na direção da produção de armas nucleares.

Nos anos 2000, veio à tona a suposta existência de instalações nucleares iranianas não declaradas inicialmente à Agência Internacional de Energia Atômica, criando desconfiança sobre possível falta de transparência. Isso gerou suspeita de que o programa não era totalmente conhecido, o que trouxe desconfiança, mesmo após a realização de novas inspeções minuciosas.

Como se trata de uma tecnologia de duplo uso (dual use), tudo depende do nível de enriquecimento do urânio (3 a 5% para energia e 90% para armas). E o Irã já alcançava enriquecimento da ordem de 60%, o que o deixava mais próximo da produção de armas nucleares. Os críticos do Programa realçavam que as restrições do Acordo expirariam com o tempo (sunset clauses), que ele não cobria totalmente mísseis balísticos e que não eliminava totalmente a capacidade nuclear, apenas a atrasava.

Muito além das questões tecnológicas, o que pesou mesmo foi o espectro político, já que o Irã é uma república islâmica com forte oposição dos EUA e Israel, com sua suposta capacitação nuclear pode mudar o instável equilíbrio regional. O livro A Era da Ilusão, de Mohamed Elbaradei, um dos fiscais do acordo nuclear, ilustra bem que o Irã sempre se dispôs a cumprir rigorosamente o Acordo.

A pergunta que cabe hoje é se o Irã está, de fato, perto de ter uma bomba nuclear. E a resposta é simples: não existe nenhuma prova pública de que o Irã tenha decidido fazê-la, tanto por questões religiosas (firme oposição religiosa de Ali Khamenei a armas nucleares) como por limitações técnicas. Mesmo conseguindo enriquecer o urânio, ainda lhes faltaria tecnologia para a miniaturização de uma ogiva nuclear, para a construção de um sistema confiável de detonação e para integrá-los a um míssil.

Muitos especialistas acreditam que o Irã sempre quis alcançar o “limiar nuclear” (capacidade de fazer a bomba rapidamente) alcançando um poder de dissuasão, sem cruzar a linha negociada no acordo.

Historicamente, o Irã sempre sofreu muito com intervenções estrangeiras. Foi o caso do golpe de Estado de 1953, em que a CIA e a inteligência britânica derrubaram o Primeiro Ministro iraniano Mohammad Mosaddegh e colocaram em seu lugar a autocracia do Shah Mohammad Reza Pahlavi. Também foi o caso dos oito anos de guerra Irã x Iraque, conflito esse causado pelos EUA, para não falar das pesadíssimas sanções econômicas impostas ao Irã pelos EUA. E ainda estão bastante presentes na memória do povo iraniano as atrocidades dos norte-americanos no Iraque e no Afeganistão, que só fizeram deteriorar muito a paz na região.

Parece haver consenso entre os especialistas sobre o erro crasso de estratégia dos EUA e Israel de atacarem o Irã. Trata-se de um país de 90 milhões de habitantes que não representava nenhuma ameaça importante aos EUA, apesar da beligerância atávica Irã x Israel.

O país é predominantemente anti-imperialista. O elemento central da filosofia islâmica é a justiça social e a luta contra a opressão. E o povo iraniano é muito fiel a isso, premissa básica do estado civilizacional iraniano. Daí ter sido um erro crucial dos EUA acreditarem que o regime cairia facilmente. Muito ao contrário, a invasão blindou o regime contra a agressão externa. Os 20% do povo iraniano pró-mudança de regime perderam voz em face da comoção nacional da maioria do povo iraniano contra os ataques.

Trata-se, agora, de analisar os desdobramentos da guerra que já está em andamento desde 28 de fevereiro de 2026 e que tem sido objeto de fortes escaladas contra as infraestruturas energéticas e militares de parte a parte, o que se soma ao fechamento pelo Irã do Estreito de Ormuz, causando uma crise energética internacional.

O cenário esperado pelos agressores é de que ocorra a queda do regime iraniano, o que parece ser pouco provável, especialmente se houver uma invasão terrestre do Irã.

Outro cenário é a regionalização da guerra com risco real de colapso de vários governos da região e crise humanitária massiva, principalmente por falta d’água.

A continuidade da guerra causará uma forte crise econômica global, com a disparada do preço do petróleo, encarecimento dos transportes, alimentos e inflação.

O Irã pode receber apoio indireto da Rússia e da China, o que poderia se transformar numa nova guerra fria, com o risco de proliferação nuclear no Oriente Médio.

O ideal seria os EUA encontrarem uma “saída honrosa”, convencendo Israel e se conter. Inshallah.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
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