E então, quais as verdadeiras razões para os EUA terem iniciado essa guerra?  Muitos dizem que ele foi forçado por Israel a entrar nela, alguns alegando, infantilmente, até mesmo chantagens de Netanyahu sobre Trump.

Na breve análise que se segue, constataremos que as razões são muito mais complexas.

É um fato inconteste que os EUA e Israel sempre desejaram dominar o Oriente Médio. Prova disso foram os conflitos com o Iraque, com a Líbia, a Síria, o Iêmen, etc. Qualquer país na região que ameace a dominância dos EUA e o colonialismo israelense será implacavelmente combatido. E a razão por trás disso é clara: petróleo. No Oriente Médio encontram-se as maiores reservas mundiais do produto. Arábia Saudita (2ª), Irã (3ª), Iraque (5ª), Emirados Árabes Unidos (6ª), Kuwait (7ª), Líbia (9ª), Qatar (14ª), Oman (23ª), e por aí vai. E note-se que a razão da intervenção ocorrida recentemente na Venezuela também foi por causa de petróleo (1ª reserva mundial). Controlar as reservas mundiais de petróleo dessa região é uma estratégia que foi claramente explicitada pelo Diretor Executivo Jared Aen, Diretor do Conselho Nacional de Dominância Energética, entidade recém-criada por Trump.

Mas, por que razão os EUA estão empenhados em dominar as reservas do Oriente Médio se eles mesmos são, de longe, os maiores produtores mundiais de petróleo?

A resposta é de uma clarividência solar: para manter o dólar dos EUA como a moeda de referência do planeta! Para manter vivo o sistema de petrodólares que viabiliza a dominância do dólar no comércio e finanças mundiais. Para os desalinhados, imposição de sanções ilegais, majoritariamente na esfera do sistema financeiro internacional, dominado pelos EUA.

Como é sabido, de uns tempos para cá, começou no mundo um movimento de desdolarização do comércio internacional, primeiramente, capitaneado pela Rússia, por força das sanções a ela impostas pela guerra da Ucrânia e, posteriormente, como parte da agenda do BRICS. Trump, por diversas ocasiões, alertou os países do BRICS que imporia tarifas de 100% sobre suas exportações para os EUA caso não mantivessem seu comércio 100% dolarizado.

O BRICS ganhou relevância e aumentou de tamanho com a adesão de inúmeros novos países além dos cinco fundadores (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Irã foi o novo membro que, por força das sanções impostas a ele pelos EUA, impulsionou a desdolarização e a criação de uma nova moeda de reserva internacional, promovendo relevantes operações de comércio em moedas locais.

Temos, portanto, duas razões básicas para a obsessão dos EUA em dominar o Oriente Médio: petróleo (a commodity mais importante do planeta) e o dólar (como moeda de reserva global). O sistema de petrodólares criado em 1974 num acordo entre Arábia Saudita e os EUA garantiu que todas as exportações de petróleo do Oriente Médio fossem pagas exclusivamente em dólares. Os excedentes seriam parqueados nos Bancos, na Bolsa e nos títulos do tesouro dos EUA, servindo para equilibrar o significativo déficit da economia americana com o resto do mundo. Em troca, os EUA forneceriam segurança militar (construção de bases militares) e equipamentos.

O dólar como reserva mundial e o sistema dos petrodólares têm favorecido por décadas as elites financeiras mundiais, que reciclam seus excedentes em dólares em ativos financeiros norte-americanos (ações, bonds, fundos imobiliários, opções, derivativos, hedge funds, etc.). Os europeus detêm USD 15 trilhões de ativos norte-americanos, os asiáticos detêm USD 10 trilhões de tais ativos e os países do continente americano detêm USD 5 trilhões. Prova disso é que o mercado de ações norte-americano representa 60% do mercado de ações mundial. Nesse pujante mercado acionário dos EUA, os 10% norte-americanos mais ricos detêm 90% das ações.

Atualmente, 80% das exportações de petróleo são dolarizadas e apenas 20% exportados pela Rússia e Irã são pagos em outras moedas. Venezuela por vezes vendeu petróleo para a China pagos em yuan, mecanismo que foi suspenso.

Outro aspecto que ajuda a entender a obsessão norte-americana em dominar os países do Oriente Médio é o fato de a China ser o maior importador de petróleo do mundo, com elevada dependência de importações de petróleo barato da Rússia, Irã e Venezuela. O fechamento das portas venezuelana e iraniana teria um impacto negativo no crescimento econômico chinês e, como sabemos, o bloqueio da China é outra, senão a maior, obsessão norte-americana.

Por fim, não deve ser subestimado o importante papel de resistência do Irã contra o imperialismo norte-americano e o colonialismo israelense, inclusive apoiando o Hesbolah e Hamas. Os ataques do Irã a países vizinhos que hospedam bases militares norte-americanas podem descambar na regionalização do conflito, envolvendo até membros do BRICS (Irã e UAE).

Deve ficar claro que, por décadas, os EUA vêm gestando um conflito com o Irã, independentemente de Israel. Fica a dura lição: a dominância do dólar no mundo vale forte oposição, sanções e até mesmo invasões contra quem não se submeta.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
Leia também “Da guerra do petróleo à guerra pela água”, de Maria Luiza Falcão.