Uma ilha que ousou imaginar outro caminho hoje sobrevive entre apagões e memórias, entre erros reais e pressões externas. Cuba se transforma em um espelho moral do nosso tempo.
À medida que as luzes de Havana se apagam, um outro mundo possível também cai na escuridão
Quando Fidel Castro subiu à Assembleia da ONU, em 1960, apresentou os planos ambiciosos de alfabetização em Cuba. Naquele mesmo ano, Cuba foi declarada oficialmente livre do analfabetismo, reconhecida inclusive pela UNESCO. Esse era o sonho, e a maneira como ele foi vivido e depois desgastado importa tanto quanto o sonho em si. Havia um sonho de igualdade que, desvirtuado ou não, quando as luzes de Havana se apagam, quando esse sistema é extinto e enfrenta pressões externas, revela que mais do que um sistema de governo público, era uma possibilidade de outro mundo.
Do passado à resistência ao apagão
Antes de Fidel, Cuba servia como um bordel para americanos, governado por Fulgêncio Batista, um sanguinário ditador, corrupto e sem interesse pelo bem-estar de seu povo. Foi desse presente humilhante que nasceu a história da revolução cubana. Independentemente de como ela tenha se mantido e por fim declinado, a ideia central era essa: um sonho de dignidade e de existência de uma alternativa possível.
O apagão de Cuba serve a uma hegemonia dos Estados Unidos que depende da falta de coexistência com sistemas alternativos para se manter legítima. Esse é o cerne de praticamente todas as guerras estado-unidenses, mas sempre lutadas fora de seu território. Ele se valida pelo poder de compra, pelo cartão de crédito sem limite e pela imposição de uma única maneira de existir.
É importante reconhecer as imperfeições do sistema cubano. Não se pode negar as violações de direitos humanos que ocorreram durante a revolução e, sistematicamente, para manter a população alinhada aos deveres e premissas do partido. A privação de liberdade de ir e vir, a negação de passaportes, o controle sobre escolhas pessoais, a perseguição de homossexuais e outros episódios históricos de repressão não podem ser ignorados. Ninguém quer viver sob as arestas de um Estado que limita sua liberdade. Mas isso não desestima a possibilidade de outro mundo. O que os Estados Unidos querem extinguir não é a desigualdade social ou a precariedade de vida em Cuba; é a própria ideia de que outro sistema é possível.
O pequeno Marco Rubio
Nos últimos meses, o presidente dos Estados Unidos intensificou sua retórica sobre Cuba, chegando a declarar que espera ter “a honra de tomar Cuba” e assumir controle sobre a situação da ilha. É grande a distopia quando se tem o líder de um país que terceiriza seus problemas ao mundo e, nesse sentido, exporta conflitos para manter seu próprio poder intacto. O discurso parece influenciado pelo sonho de Little Rubio (Marco Rubio, descendente de cubanos e Secretário de Estado), o filhote de uma ditadura que foi defenestrado por um povo cuja pulsão de liberdade foi maior do que seu desejo de ser inserido num império. Homem cujo caráter político é proporcional à sua estatura simbólica: pequeno diante da complexidade de um povo que resistiu décadas de humilhação e bloqueio.
Marco Rubio não é uma exceção. Ele faz parte – e nasce do bojo da amargura dos exilados de Miami. Outra vez, aqui não cabe julgar. Quando uma revolução acontece, quando uma forma de poder se extingue, no meio de tudo isso há famílias, há pessoas cuja existência foi ameaçada, cujo deslocamento foi inevitável. A Revolução Cubana produziu exilados – e isso é um fato humano antes de ser um juízo político.
Uma visita a Cuba ajuda a entender essa dinâmica. Porque, hoje, quando muitos desses exilados retornam como turistas, não voltam para reconstruir a ilha, nem para recompor laços rompidos. Voltam, muitas vezes, movidos por um impulso de afirmação: demonstrar riqueza diante da escassez, exibir o que conquistaram no país que os acolheu. Caminham vestidos de marcas cafonas, dos pés à cabeça, balançando notas de dólar nas mãos, endurecidos no sonho americano de preço e ostentação, como se o valor estivesse apenas naquilo que se pode mostrar.
E esse espetáculo de poder é esfregado no rosto de cubanos famélicos – primos, amigos, família – porque, para esse cubano, parece já não importar tanto a liberdade, a soberania ou a autodeterminação. O que importa é a riqueza – e, mais do que isso, ser mais rico que o outro, ainda que esse outro seja seu próprio sangue.
Essa linguagem reflete não apenas a pressão diplomática, mas também a intenção de alterar profundamente o futuro de Cuba, desconsiderando sua soberania e reforçando a narrativa de que alternativas à hegemonia americana não podem coexistir.
Um país que não cabe em respostas fáceis
A vida de Cuba se torna um perpétuo exercício de checagem moral. É preciso lidar com a complexidade: foi o bloqueio? Foi o governo? Foi um sistema falido? Quando se encontra pessoas na rua pedindo um Tylenol, ou um homem de 70 anos transportando os pesados ossos de outros humanos em sua bicicleta, ou quando não se encontra idosos que aparentemente pesam mais de cinquenta quilos, tudo isso coloca em xeque qualquer ideia simplista sobre a vida na ilha. Não há de se glamourizar a vida difícil dos cubanos, nem romantizar todo sistema alternativo ao status quo, mas não existem respostas fáceis nem imposições sobre como eles devem viver. O cerne é que nunca tivemos e talvez nunca teremos essa alternativa. Tudo aquilo que pressupõe igualdade e liberdade ou é coibido na sua raiz ou é corroído por forças externas. E, é essa falácia, que há de nutrir, por anos por virem, a narrativa da ultradireita.
A vitima é a verdade
À medida que as luzes vão se apagando em Havana, um outro mundo possível também cai na escuridão. Espera-se que o que nunca se apague seja a lembrança da dignidade de um povo que, mesmo minúsculo em sua geografia e pequeno em suas circunstâncias globais, foi gigante em sua dignidade durante décadas.
É inegável que o bloqueio americano a Cuba teve muitas vítimas. Mas a primeira – e talvez a maior delas – foi a própria verdade. Porque jamais saberemos se um outro mundo é possível, se ele foi, desde o início, estrangulado pela crueldade da vizinhança.
Agonia simultânea
É irônico, contraditório e até um pouco banal que, se o sistema cubano vier a ruir depois de anos de luta, dignidade e privação, isso aconteça justamente agora. Porque não é o único sonho que desmorona. Cuba foi um sonho – e ele rui ao mesmo tempo em que também se desfaz o chamado sonho americano.
Se hoje o governo cubano abrisse seus portos e aeroportos para todos que quisessem fugir da falta de luz, da escassez de comida, das privações, e essas pessoas chegassem a Miami, que tipo de acolhida encontrariam? A de um país cuja política migratória já não esconde sua violência – uma estrutura que não apenas rejeita imigrantes, mas revela, cada vez mais, sua incapacidade de sustentar a promessa que vende ao mundo.
Nesse cenário, o que se desfaz não é apenas Cuba. É também a ideia de que os Estados Unidos sejam um território de acolhimento de sonhos. Essa hegemonia sempre dependeu dessa narrativa – quase onírica – de abertura e oportunidade. Mas ela se sustenta sobre a recusa em enfrentar suas próprias fraturas internas, terceirizando conflitos e projetando para fora aquilo que não resolve dentro.
E então emerge a pergunta: quem são, afinal, “os americanos de verdade”? Na visão de Donald Trump, essa identidade parece restrita, excludente, racializada – uma construção que deixa de fora a América Latina, o Caribe e todos aqueles que historicamente também fizeram e fazem parte desse tecido.
Assim, quando vemos Cuba dar seus últimos respiros – um projeto que nasceu como sonho de justiça, independentemente de seus desdobramentos –, é impossível ignorar que esse sonho nunca teve a chance de evoluir em condições livres de pressão externa. Nem mesmo de falhar plenamente por si só.
Cuba hoje respira por aparelhos – ou nem isso, porque falta luz. E diante disso, o que vemos não é apenas o colapso de um país, mas a agonia simultânea de duas narrativas: dois sonhos que, por caminhos diferentes, chegam ao seu limite.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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