Petróleo, moeda e poder em perspectiva histórica

O choque do petróleo como ruptura sistêmica
Os grandes choques do petróleo não devem ser lidos apenas como episódios de escassez ou surtos inflacionários. Historicamente, eles funcionam como momentos privilegiados de reordenação das relações entre poder estatal, moeda internacional, fluxos de capitais e hierarquias geopolíticas. Foi isso que ocorreu nos anos 1970, quando a elevação abrupta dos preços do petróleo coincidiu com a ruptura definitiva do arranjo monetário de Bretton Woods e com a consolidação de uma nova arquitetura financeira centrada no dólar fiduciário.
A literatura convencional frequentemente enfatiza as filas nos postos, a inflação de custos e a recessão subsequente. Esses elementos foram, sem dúvida, relevantes. Contudo, uma leitura de economia política internacional revela um movimento mais profundo: a ascensão dos países exportadores de petróleo como polos de acumulação de excedentes em dólar e a transformação desses excedentes em mecanismos de expansão financeira global.
O circuito dos chamados petrodólares permitiu que bancos americanos reciclassem a liquidez acumulada pelos países da OPEP em empréstimos para economias periféricas, especialmente na América Latina, inaugurando um ciclo de endividamento externo que desembocaria na crise da dívida dos anos 1980.
Como observou Susan Strange, uma das fundadoras da Economia Política Internacional na London School of Economics, o verdadeiro poder nas relações internacionais não reside apenas na força militar, mas na capacidade de estruturar os circuitos de crédito, produção e finanças. O petróleo, nos anos 1970, tornou-se precisamente um desses mecanismos de poder estrutural.
Petrodólares e a nova centralidade do dólar
Nesse sentido, o petróleo operou como elo entre a esfera produtiva, a esfera monetária e a expansão da finança internacional. A perda do lastro ouro-dólar em 1971 não enfraqueceu a moeda americana; ao contrário, sua centralidade foi reforçada por um mecanismo histórico novo: a precificação da energia em dólar e a reciclagem dos excedentes petrolíferos através das instituições financeiras sediadas nos Estados Unidos. O choque energético, portanto, converteu-se em vetor de fortalecimento da hegemonia monetária americana.
Mais do que uma simples resposta conjuntural, consolidou-se ali um novo regime de poder estrutural. O dólar deixou de depender de sua conversibilidade em ouro e passou a apoiar-se crescentemente na sua função como moeda de denominação do principal insumo estratégico da economia mundial. Essa mudança deu aos Estados Unidos uma capacidade singular de absorver e reexportar liquidez global, reforçando sua posição no centro do sistema financeiro internacional.
Aqui, a tradição pós-keynesiana oferece uma lente particularmente fértil. Hyman Minsky, da Washington University em St. Louis, mostrou como sistemas financeiros tendem endogenamente à fragilidade quando a liquidez se expande sem mecanismos adequados de contenção. A reciclagem dos petrodólares foi um dos momentos históricos em que essa dinâmica se tornou global, preparando o terreno para a crise da dívida periférica da década seguinte.
A crise atual em um contexto histórico distinto
A crise atual recoloca essa problemática em novos termos. A guerra envolvendo o Irã e a possibilidade, ainda que parcial, de interrupção prolongada do fluxo pelo Estreito de Ormuz reacendem a centralidade estratégica do Golfo Pérsico. Entretanto, a analogia com os anos 1970 só é útil se for tratada em nível estrutural, e não descritivo. O mundo contemporâneo é marcado por cadeias globais de valor muito mais complexas, por mercados financeiros profundamente integrados e pela presença de novos grandes demandantes energéticos, especialmente China, Índia e o restante da Ásia.
Além disso, os próprios Estados Unidos ocupam hoje posição distinta. A expansão da produção doméstica de petróleo e gás não convencional nos Estados Unidos — especialmente por meio do fraturamento hidráulico de rochas de xisto, conhecido internacionalmente como shale oil e shale gas — alterou profundamente sua inserção energética internacional, reduzindo a vulnerabilidade externa que caracterizava o país no período dos choques clássicos.
Isso desloca o epicentro dos efeitos imediatos para a Ásia industrial e para a Europa, ao mesmo tempo em que preserva a centralidade do dólar como ativo de refúgio em momentos de tensão sistêmica.
Esse deslocamento do epicentro dos efeitos imediatos decorre da própria geografia contemporânea da produção e da energia. A Ásia industrial, fortemente integrada às cadeias globais de valor e altamente dependente de importações energéticas, tende a absorver de forma quase instantânea o encarecimento do petróleo, do gás, dos fretes e dos insumos petroquímicos, com repercussões sobre custos industriais, inflação ao produtor e dinamismo exportador. Na Europa, onde a base manufatureira já opera sob o peso da desaceleração alemã, da crise energética e da perda relativa de competitividade, um novo choque aprofunda simultaneamente pressões recessivas e inflacionárias. Paradoxalmente, enquanto os efeitos reais mais severos se irradiam para esses polos produtivos, a incerteza sistêmica reforça a procura global por liquidez e segurança, preservando a centralidade do dólar e dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos como principais ativos de refúgio.
Essa assimetria entre o espaço onde a crise é gerada financeiramente e o espaço onde seus custos produtivos e inflacionários se materializam ajuda a explicar por que o sistema internacional continua reproduzindo mecanismos de instabilidade estrutural sem abalar, no curto prazo, os fundamentos da supremacia monetária norte-americana. Mais do que uma repetição mecânica dos anos 1970, o que se observa hoje é uma nova configuração da mesma lógica: choques geopolíticos que reorganizam preços relativos, penalizam os polos industriais mais dependentes de energia e, simultaneamente, renovam a função do dólar como eixo de proteção patrimonial em tempos de incerteza.
Dos bancos aos fundos soberanos
A questão analiticamente mais relevante não é, portanto, se veremos uma repetição das filas dos anos 1970, mas se o atual choque poderá desencadear nova rodada de reorganização dos circuitos globais de liquidez. Os grandes fundos soberanos do Golfo, muito mais robustos e sofisticados do que os mecanismos de acumulação estatal daquele período, já são hoje atores centrais nos mercados financeiros internacionais.
Em vez do simples “petrodólar reciclado” via bancos comerciais, o que se observa é uma financeirização institucionalizada, baseada em fundos de investimento, private equity, infraestrutura e participação acionária em empresas estratégicas de tecnologia, logística e defesa.
O capital excedente oriundo da renda petrolífera já não retorna apenas como crédito; ele passa a disputar diretamente ativos estratégicos no núcleo do capitalismo contemporâneo.
Energia, hegemonia e transição sistêmica
Isso sugere uma mudança qualitativa importante. Nos anos 1970, o choque do petróleo fortaleceu a hegemonia do dólar dentro de uma ordem ainda claramente unipolar no plano monetário. Hoje, embora o dólar permaneça dominante, a recorrência de choques energéticos em um contexto de rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China pode acelerar mecanismos de diversificação monetária, acordos bilaterais de liquidação em moedas locais e novos arranjos financeiros regionais.
Em perspectiva histórica mais longa, Giovanni Arrighi, da Johns Hopkins University, mostrou que momentos de financeirização intensa costumam coincidir com fases de transição hegemônica. O atual reposicionamento dos fluxos energéticos e financeiros talvez deva ser lido à luz dessa hipótese: não como simples perturbação conjuntural, mas como parte de um deslocamento mais amplo do centro dinâmico da economia mundial.
O petróleo, nesse sentido, continua menos importante como mercadoria isolada do que como infraestrutura material do poder. Seu preço, sua rota e sua moeda de denominação seguem condensando relações hierárquicas entre centros financeiros, Estados militares e economias industriais. A comparação historicamente fecunda entre os anos 1970 e o presente reside justamente aí: em ambos os casos, a energia aparece como catalisador de transformações que ultrapassam o mercado de commodities e atingem o núcleo da ordem internacional.
Talvez estejamos menos diante de um novo choque do petróleo, no sentido clássico, e mais diante de um choque sobre os próprios mecanismos de reprodução da hegemonia monetária global. Se essa hipótese se confirmar, o paralelo com os anos 1970 deixará de ser mera analogia histórica para se tornar chave interpretativa de uma nova etapa da transição sistêmica em curso.
Referências:
- ARRIGHI, Giovanni. The Long Twentieth Century: Money, Power, and the Origins of Our Times. London: Verso, 1994.
- ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith in Beijing: Lineages of the Twenty-First Century. London: Verso, 2007.
- MINSKY, Hyman P. Stabilizing an Unstable Economy. New Haven: Yale University Press, 1986.
- MINSKY, Hyman P. Can “It” Happen Again? Essays on Instability and Finance. Armonk, NY: M.E. Sharpe, 1982.
- STRANGE, Susan. States and Markets. London: Pinter Publishers, 1988.
- STRANGE, Susan. Casino Capitalism. Oxford: Blackwell, 1986.
- STRANGE, Susan. The Retreat of the State: The Diffusion of Power in the World Economy. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
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