
A primeira eleição livre para a presidência após o fim da ditadura militar teve 22 candidatos, entre eles um vistoso filho do ruralismo chique do Centro-Oeste e presidente da União Democrática Ruralista (UDR). Disputava o eleitorado da direita com gente muito mais notável – por então ainda não se falava de ultradireita, e mesmo gente muitíssimo de direita e diretamente ligada ao regime militar como Paulo Maluf não era classificada como de extrema direita. Dos cinco notórios direitistas, o presidente da UDR foi o lanterninha, atrás de Collor, Maluf, Afif Domingos e Aureliano Chaves, com o apoio de 488 mil eleitores, menos de 1% (0,75) do total dos votos válidos.
Lembrar os idos de 1989 e imaginar que serviriam como referência para a eleição de 2026 é quase o mesmo que querer adivinhar quem sairá com mais votos das urnas no 25 de outubro próximo.
Lançado candidato pelo PSD de Gilberto Kassab no começo da semana passada, um dia antes do aniversário de 62 anos do golpe militar, o goiano se apresentou anunciando que seu primeiro ato se eleito será a anistia para os golpistas de 2023 e para o chefe Jair Bolsonaro. Um convite à camaradagem com seu colega de campo na disputa de outubro, o filho de Jair e também ele um herdeiro dileto da ditadura (para nos recordarmos do filhote da ditadura usado na eleição de 1989 para definir Collor de Mello). Vamos disputar, mas somos todos compadres, filhos do mesmo ventre – poderiam dizer tanto Flávio quanto Ronaldo.
Nas pesquisas, Caiado aparece com índices de preferência muito próximos aos da votação de 1989, um modestíssimo 1% – mas há pesquisas nas quais é o preferido de entre 2% e 4% do eleitorado. Nos jornais do dia seguinte à sua apresentação como candidato, nenhuma manchete de primeira página nos quatro principais jornais do país, apenas citações em colunas assinadas. “Caiado mira em Lula… e testa discurso para não ser visto como ‘linha auxiliar’ de Flávio”, dizia uma delas. “Ronaldo Caiado reedita tentativa de 1989 sob desafio de conquistar direita”, lembra outra. Uma terceira perguntava “Por que eleitores escolheriam Caiado e não Flávio Bolsonaro?”. Ou, outras duas (no Estadão): “O superestimado fator Caiado prestará serviços ao bolsonarismo”, “Com Caiado, a direita despe a fantasia de ‘centro’ e tende a fechar com Flávio Bolsonaro”. E na mais simpática das chamadas (Merval Pereira no Globo), “Caiado é uma tentativa de abrir espaço alternativo à polarização”.
Suponhamos, para acompanhar o colunista da família Marinho, que Caiado pretenda mesmo tornar-se alternativa à polarização e, consequentemente, ocupar o espaço ao centro, comendo votos do bolsonarismo, por um lado, e do pedaço do seu partido que pretende apoiar Lula – dois dias depois de sua oficialização como candidato, a Folha noticiava que “candidatos e governadores do PSD ignoram nas redes lançamento de Caiado à Presidência”, acrescentando que o candidato, “lançado com o mote de acabar com a polarização no país, precisará antes unificar seu próprio partido, com alas já divididas entre o apoio a Lula, a Flávio Bolsonaro e a Romeu Zema”.
Parece unânime entre os analistas a ideia de que a única, ainda que pequena, possibilidade do goiano ir ao segundo turno é se apresentando como alternativa de centro (direita) à polarização. Não é uma operação simples e muito menos fácil de ser construída. A primeira parte dessa manobra seria lapidar a própria imagem, limando as arestas agudas de um personagem cujo perfil nada tem de popular, a começar por uma arrogância que parece vir do berço e que se expressa do tom da voz ao porte de galã hollywoodiano. É genuinamente gente da elite, completa e acabada.
A segunda parte da operação, suponho, seria vender a reputação de bom administrador, de político realizador, amenizando o discurso ideológico e a imagem de lorde londrino. Um dos problemas dessa operação é que até quando anuncia seus feitos como administrador, a marca do sujeito aristocrata se sobrepõe à de alguém capaz de atender às necessidades do chamado povão – levar para o autódromo de Goiânia as provas do campeonato mundial de motociclismo não é algo que possa parecer sedutora a essa nada desprezível parcela dos brasileiros. A ampla votação que certamente terá no seu estado virá fundamentalmente do ultrabolsonarismo que cobra acima de tudo a defesa de valores identitários antes de demandar programas e projetos econômicos. Essa base (e seus agregados) já é suficientemente rica e beneficiada, não importa qual governo ocupe o Planalto – sua prosperidade sob os governos do inimigo mortal (para eles) não foi menor que durante os quatro anos bolsonaristas, e não é, portanto, por questões econômicas que se opõe, com tanto ódio, a Lula.
A ampla votação que deverá ter na base da pirâmide é também ela ultraideologizada, muito mais apaixonada pelo modelo de discurso do bolsonarismo (que explora rancores, frustrações e uma sopa de valores picotados e mal cozidos) que por propostas de tonalidades amenas e de centro (direita). Ainda que assuma um posicionamento centrista e pragmático e apoiado na sua autoproclamada capacidade administrativa, sua força de convencimento estaria assentada na gerência de um estado do interior do país, irrelevante na memória do eleitor dos grandes centros, se não completamente desconhecido. Goiás, onde fica? Qual o nome da capital? – vão se perguntar milhões de brasileiros (preconceito é como o pau que bate em Chico, ele bate também em Francisco).
Outro dos desafios do ex-governador dos goianos é, obviamente, conquistar o eleitor genuinamente bolsonarista, esteja onde estiver, no Sul ou no Norte, no Sudeste ou no Nordeste. No final das contas, Caiado parece estar exatamente entre a cruz e a caldeirinha. Tem que se mostrar o mais autêntico dos representantes do mito (mais até do que aquele que carrega nas veias o sangue do pai), e ao mesmo tempo como outra coisa.
O enigma a ser desvendado é: que coisa será essa?
P.S (a título de ilustração): Conta-se que na Grécia antiga havia uma Esfinge – um monstro com corpo de leão, asas de ave e rosto de mulher – que nos arredores de Tebas aterrorizava seus habitantes. Ela propunha um enigma a todos que por ela tentavam passar, devorando quem não conseguisse resolvê-lo.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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