
Recentemente, dois intelectuais públicos do campo da esquerda iniciaram um debate relevante. Depois de décadas, assistimos ao início de uma discussão concreta e necessária, em alto nível. Um desses intelectuais é Fernando Haddad, quadro político dos mais importantes dos últimos 20 anos, aquele que mais políticas públicas estruturais implementou, seja na Educação, seja na Fazenda, e atualmente é o principal nome para representar a esquerda majoritária no pós-Lula.
O outro é relativamente novo no debate público, Elias Jabbour, professor da UERJ, trabalhou com Dilma Rousseff no NDB do BRICS, permanece um tanto ignorado pela “intelligentsia”, principalmente porque, interpretação minha, foca em um tema (China) que na intelectualidade e na política muitos acham muita coisa, mas conhecem pouco. Também porque ele não vem do ramo da esquerda que se tornou majoritário a partir sobretudo da década de 90, esse campo majoritário não se sentia tributário das experiências socialistas no leste europeu e nem ficou amargurado pela derrocada delas.
O debate em si foi iniciado por Haddad, ainda que sem se dirigir ao Jabbour especificamente, numa excelente entrevista ao Breno Altman sobre seu novo livro, “Capitalismo Superindustrial”, em que faz um panorama amplo sobre as experiências socialistas. Em um momento da entrevista ele tratou da China, que também é capítulo do livro, considerando-a um “novo tipo de capitalismo”.
Só que a China é o principal assunto do Jabbour e este, também em entrevista ao Altman, defendeu que por aquelas plagas vigora, sim, um tipo novo, mas de socialismo. O Jabbour, aliás, acabou de lançar um novo livro focando especialmente no gigante asiático: “Poder e Socialismo”.
Estou resumindo o que pensam os dois sobre uma questão específica, até porque não terminei de ler os livros e não pretendo entrar nessa questão. Apenas identifico nos dois intelectuais públicos o saudável desejo de promover discussões substantivas, ainda que não de urgência imediata. A urgência é derrotar mais uma vez a extrema direita e reeleger Lula.
Mas é um debate absolutamente necessário se quisermos no médio prazo sair do campo da resistência e passarmos à “ofensiva”, o que só conseguimos nos últimos anos em poucos e dispersos temas, como da redução da desigualdade fiscal, por meio da reforma tributária do consumo, da isenção do imposto de renda e da tributação dos dividendos (ainda que parcial apenas) e o fim da escala 6×1, esse último ainda por votar no Congresso.
A polêmica sobre a China ser capitalista ou socialista é de menor importância, o importante é que Haddad e Jabbour, com suas marcadas diferenças, têm em comum a ousadia e a boa arrogância de fincar marcos para debater de fato um projeto de país. Palmas entusiasmadas para eles.
Uma das razões pelas quais a extrema direita cresceu nos países centrais do capitalismo foi pela incapacidade política dos partidos de esquerda e centro esquerda responderem aos anseios de uma sociedade do bem-estar-social que ruía lenta, mas firmemente.
Contribuiu para esse quadro a paralisia intelectual e social nos últimos 30 ou 40 anos, o que infelizmente se refletiu por aqui, pois somos da periferia geopolítica e costumamos debater problemas e categorias que não são inteiramente nossos ou que pelo menos não são pensados a partir da nossa realidade.
Temos grandes intelectuais “autóctones”, mas que andam ou andaram meio “esquecidos” e não pautaram as últimas décadas.
Por aqui, como sabemos, a extrema direita tomou o poder e aplicou o programa de destruição e ruína pregado principalmente pela via estadunidense desse espectro político, que coloca à frente os espantalhos das guerras cultural, sexual, religiosa, mas cujo objetivo verdadeiro é destruir tudo que é público e impor uma espécie de anarcocapitalismo.
Interrompemos esse projeto em 2022 com a vitória de Lula, e conseguimos esse feito por alguns motivos, entre eles porque os governos anteriores do PT foram concretos em suas realizações à massa da população, mesmo com erros e limitações reais ou autoimpostas.
Assim como na Europa e no EUA, muita gente no Brasil escreveu e refletiu nas últimas décadas sobre os dilemas da esquerda, da social-democracia, lamentou a substituição do “fordismo-keynesianismo” pelo capitalismo financeiro… tudo muito relevante, sim, mas se esquecendo de que nos países centrais esse debate fazia sentido, enquanto aqui os problemas não eram os mesmos que os de uma sociedade onde o bem-estar-social tinha se concretizado. No Brasil, para larga parcela da população, a questão ainda era da ordem da necessidade, da sobrevivência, não dos direitos.
Nunca é demais lembrar que pouco antes da Constituição de 1988, quando foi aprovado o voto efetivamente universal (Emenda Constitucional nº 25 à Constituição de 1967, aprovada em 1985), quase 30% da população brasileira era analfabeta; apenas em 1997 a educação infantil foi universalizada; quando Lula assumiu pela primeira vez, em 2003, milhões passavam fome ou sofriam de insegurança alimentar; somente uma minoria tinha acesso ao ensino superior… ou seja, o Brasil estava distante de um suposto “teto” (segundo a visão neoliberal) em que chegou o distributivismo nos países do centro do capitalismo.
O “drama do financiamento do estado” só poderia ser assumido como um problema brasileiro a partir de uma visão colonizada que ignorava que a realidade brasileira ainda era a de dar acesso ao básico: comida, educação fundamental, ampliação do ensino superior, políticas de inclusão para superar uma sociedade culturalmente escravocrata, empregos minimamente decentes, políticas de salário-mínimo e de benefícios sociais que atendessem às faixas mais pobres da população, casa própria para a baixa renda… por aí vai.
Isso os governos petistas entregaram, além de investimentos públicos, mesmo que não integrados ou organizados em um plano estratégico. Alguns foram exitosos, como o petróleo no pré-sal, a transposição do Rio São Francisco, o desenvolvimento tecnológico para o agronegócio, apenas exemplificando.
A criminalização do PT, o golpe de 2016 e a vitória eleitoral da extrema direita em 2018 interromperam esse projeto (difuso, limitado, mas ainda assim um projeto). Contudo, a experiência dos governos de 2003 a 2015 deixou marcas, tanto que vencemos em 2022 (ou Lula venceu, se preferirem, porque ele encarnava e encarna esse projeto) apesar das forças políticas reacionárias terem sido exitosas em deslocar o debate público para o campo “cultural” e para um individualismo antiestatal, muito longe da economia real.
O projeto de destruição foi amplo, mas muita coisa se manteve por sua força política e social, assim como também não conseguimos ainda reconstruir tudo que foi devastado. Estamos em um impasse que se resolverá em outubro.
Então, supondo que haverá vida após outubro (temos que trabalhar para isso), aí sim, seria uma boa hora de fazermos um debate sem medo para construir um projeto de país. Ou projetos, porque vivemos em uma sociedade plural.
Aí que volto aos intelectuais Haddad e Jabbour, exaltando-os, porque em seus livros e intervenções públicas estão ambiciosamente construindo caminhos estruturantes, trazendo o debate para questões econômicas concretas, tirando a esquerda do cipoal subjetivista em que se meteu nos últimos 40 anos, no qual mais se preocupou com debates situados no campo idealista, não para reconstruir um caminho macroeconômico. Esse campo foi inteiramente dominado pelo neoliberalismo.
A despeito das diferenças, Haddad e Jabbour refletem sobre o Estado e a sociedade, sobre os fatores de produção e as formas possíveis de poder sobre eles, sobre o que pode ser considerado mercadoria e o que deve ser um bem disponível para toda sociedade, a reflexão sobre investimentos públicos integrados, projetos de desenvolvimento, enfim, pensam a totalidade.
Jabbour resgata pensadores econômicos brasileiros, como Ignacio Rangel, e enxerga na China uma referência a ser conhecida e analisada. Ao contrário do que faria a maioria dos pensadores da esquerda dita ocidental dos últimos 40 anos, ele não foca em controvérsias paralisantes, ainda que reais e relevantes (ser ou não ditadura, exploração ou não do trabalhador, socialismo ou capitalismo?), mas nos resultados concretos de um País que 40 anos atrás era economicamente menor do que o Brasil e hoje virou a “fábrica do mundo”, está na liderança tecnológica em inúmeros campos e promoveu uma inegável ascensão social nesse período, tirando 800 milhões de pessoas da pobreza extrema e promovendo uma urbanização maciça sem desemprego e sem favelização.
Já Haddad, como homem público, pautou sua atuação por medidas estruturantes, na educação ampliou o ensino superior, criou programas que se tornaram políticas enraizadas que nem a extrema direita conseguiu desmantelar, na Fazenda conseguiu, ainda que de forma insuficiente, pautar a desigualdade, nossa maior chaga. Não se acomodou com o fato de ser o segundo homem mais importante do governo e encontrou tempo para escrever um livro que tem como alicerce seus escritos lá dos anos 90, onde ele reflete sobre economia, Estado, sociedade, geopolítica e faz uma amarração lógica em busca de um caminho para o Brasil.
Só o tempo dirá qual a dimensão intelectual dos dois, provavelmente não terão o tamanho de outros grandes do passado, mas isso não tem a menor importância. Eles aliam como poucos ousadia intelectual e militância política e espero que a massa cinzenta que existe no Brasil, principalmente de esquerda (mas não precisa ter carteirinha de sócio do clube, um André Lara Resende é muito bem-vindo, por exemplo), não perca tempo e se junte ao esforço de pensar o País, não tema o confronto, a divergência.
Já passou da hora de tirar o neoliberalismo do conforto em que se encontra, em que não tem adversário no campo do imaginário, construindo falsas verdades que resistem até ao teste da realidade, pois persistem mesmo só tendo espalhado barbárie, destruição e terra arrasada.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
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