
Ao longo da semana passada, a candidatura de Lula já dava sinais positivos antes da quarta-feira desastrosa para o candidato Flávio Bolsonaro, quando veio a público de forma indiscutível sua conexão com Daniel Vorcaro, do Banco Master, preso e indiciado por várias falcatruas.
Dois eventos jogaram muito a favor de Lula, com atos como presidente. Primeiro, o encontro com o presidente estadunidense Donald Trump, reafirmando mais uma vez a defesa da soberania, mas através de um relacionamento não-conflitivo, capaz de proporcionar algum espaço para ação comum, fundamentalmente pela neutralização de sua capacidade de fazer estragos (como o tarifaço do ano passado). O segundo, o lançamento detalhado do programa Desenrola, visando administrar a dívida de milhões de brasileiros – um programa fundamental para essa massa de endividados, aliviando um pouco a situação e dando uma sensação de fôlego e de que alguma coisa está sendo feita para essas pessoas em situação desesperadora. Seguramente, essas ações melhoraram a percepção de parte da população sobre o atual governo, o que em caso de reeleição melhora a situação do candidato incumbente.
É neste quadro, já de um ambiente favorável para Lula, que é divulgada a apuração feita pelo Intercept Brasil das conexões entre Flávio Bolsonaro e família com o banqueiro do Master, Daniel Vorcaro. E o que era, a princípio, financiamento de filme vai ficando cada vez mais nebuloso. O fato é, como diria o velho comentarista de arbitragem Mário Vianna explicando impedimento: o dinheiro se desloca em grande quantidade “da figura A” (Banco Master, Daniel Vorcaro e suas conexões) “para a figura B” (Flávio Bolsonaro, contas conexas nos EUA, e outras conexões). E os fios de conexão – reuniões, trocas de mensagem, etc., vão ficando cada vez mais expostos. Muito provavelmente, nas próximas pesquisas o estrago eleitoral estará se consolidando contra a candidatura do PL, com discussão até de eventual troca de candidato.
Aqui, é importante marcar ao menos dois pontos. O primeiro, que existe um grupo de candidatos à direita do espectro político que, evidentemente, só consegue crescer abocanhando votos do candidato hegemônico nesse campo. Esses candidatos sabem que, no segundo turno, terão a confluência do voto antipetista, e por isso todos aparecem com patamares similares no segundo turno. Porém, antes, há que disputar a ida ao segundo turno, e só conseguem crescer tirando votos do candidato do PL, que hegemoniza esse grupo de candidatos. Assim, para serem competitivos, eles têm que conseguir arrancar votos do candidato do bolsonarismo. Porém, devem fazê-lo com a preocupação de não afastar os votos que se mantiverem fiéis ao candidato hegemônico, pois precisarão desses votos no segundo turno. Assim, por exemplo, aos primeiros sinais das trocas de mensagens de Flávio Bolsonaro com Vorcaro, o candidato do Partido Novo, Zema, aproveitou para atirar pesadamente contra Flávio. A reação foi imediata, com troca de chumbo nas redes de direita, e o candidato do Novo teve que abaixar o tom, embora não tenha retirado suas declarações iniciais. Essa lógica de campanha dentro da direita faz com que, ao menor sinal de sangue, os tubarões se agitem, visando fazer o estrago que pode atrair votos para si. Esse vai ser o tom, sempre que aparecer algo desgastante para um desses candidatos.
Finalmente, houve uma questão de estratégia, que ficou clara agora. Se as revelações que vieram à tona agora tivessem se dado em fevereiro, por exemplo, é possível que a pressão pela candidatura do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas à presidência viesse novamente de forma arrebatadora. Tarcísio, entretanto, não pode mais ser candidato a nada além do governo de São Paulo, por conta de não ter se afastado do cargo. Muitos estrategistas do campo de Lula tinham previsto isso, com a indicação de não bater inicialmente muito em Flávio até que ele consolidasse a candidatura, pois o telhado de vidro era largo e viria à tona com o decorrer da campanha.
É o que está começando a acontecer: é um candidato frágil, que para consolidar a candidatura havia anunciado aos aliados que nada além do já conhecido “episódio das rachadinhas” (cobrança de parte dos salários de assessores e indicados para seu uso pessoal) e da proximidade orgânica com setores milicianos apareceria durante a campanha. Começam a aparecer vários outros episódios. Dentro do chamado “clã Bolsonaro”, que inclui a madrasta de Flávio, Michelle, ninguém escapa muito do tal do telhadão de vidro, e qualquer candidato desse pequeno grupo hoje vai ser rapidamente alvejado em campanha. Isso vai se acirrar, e será um dilema no decorrer da campanha, já que o bolsonarismo tem um voto cristalizado indicado pelas pesquisas de 15%, talvez um pouco mais, mas isso não é suficiente para ganhar. E esse setor não mostra nenhuma propensão a se retirar de cena no primeiro turno e repassar esse manancial de votos a algum outro candidato do espectro político da direita.
A campanha está apenas começando, mas os dilemas da direita se mostram claros. Eles precisam de um candidato grande o suficiente para viabilizar que setores do Centrão sejam atraídos por uma candidatura expressiva e com perspectiva de vitória desse grupo. Se a perspectiva for de derrota, o mais provável é que os grupos partidários que compõem esse espectro do centro político fisiológico atuem no sentido de “liberar” seus candidatos locais de apoiar o candidato da direita, nos estados, optando pela neutralidade (nome confortável para dizer que em cada estado, cada um vai com quem facilitar a sua eleição local). Isso se Lula não crescer rapidamente, ocasião em que o alinhamento ideológico se fragiliza, e a candidatura de Lula passa a exercer um forte poder gravitacional pela perspectiva de vitória, fazendo com que vários setores “pragmáticos” (para não dizer oportunistas) se desloquem para a esfera da candidatura petista, que nesse caso atrairia cada vez mais fortemente esses agrupamentos.
A campanha só começa, mas emoção é que não vai faltar.
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “O filme, os milhões e a caixa-preta do bolsonarismo”, de Maria Luiza Falcão.






