A trégua provisória entre Estados Unidos e Irã não encerra a guerra. Ela expõe algo mais profundo: a incapacidade crescente de Washington de impor soluções duradouras nos termos que historicamente definiu. O que se vê não é o fim de um conflito, mas a revelação de um limite — e, com ele, a abertura de um espaço.

É nesse espaço que o debate sobre o papel do BRICS ganha densidade.

Um artigo recente de Jim O’Neill sugere que o conflito no Oriente Médio pode deslocar o equilíbrio estratégico em direção ao eixo asiático e oferecer ao BRICS+ a oportunidade de se afirmar como liderança inevitável da nova ordem global. A formulação é provocativa — e parcialmente correta. Mas precisa ser reposicionada.

O ponto central não é que o BRICS+ esteja prestes a substituir os Estados Unidos como novo centro hegemônico. O ponto é outro: o mundo já não comporta mais uma hegemonia única.

O esgotamento da centralidade americana

Durante décadas, a ordem internacional funcionou sob uma premissa relativamente estável: os Estados Unidos eram capazes de combinar poder militar, capacidade financeira e legitimidade política para arbitrar crises e estruturar consensos.

Esse arranjo claramente já não se sustenta. A guerra envolvendo o Irã deixou isso evidente. A intervenção ocorreu sem planejamento estratégico claro, sem construção de coalizão política robusta e, sobretudo, sem capacidade de produzir um desfecho estável. O resultado não é vitória — é contenção de danos.

Esse tipo de atuação tem consequências sistêmicas. Quando a principal potência global demonstra capacidade de iniciar conflitos, mas não de resolvê-los, abre-se um vazio de governança. E vazios de governança não permanecem vazios por muito tempo. Eles são ocupados.

BRICS+: não hegemonia, mas centralidade

É nesse contexto que o BRICS+ deve ser compreendido. Não como um bloco coeso pronto para “governar o mundo”, mas como uma plataforma de coordenação entre grandes economias emergentes que passam a ter papel crescente na definição dos termos da ordem internacional.

A ampliação recente do grupo — formalizada na cúpula de Johanesburgo, em 2023, e consolidada ao longo de 2024 com a entrada de países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã, Egito e Etiópia — alterou qualitativamente a natureza do BRICS. O bloco passa a incorporar alguns dos principais produtores de energia do mundo, reunindo uma parcela significativa da oferta global de petróleo e gás, algo que, na prática, aproxima sua configuração de um arranjo com peso comparável ao da OPEP no plano energético. Não deixa de ser irônico que esse movimento ocorra justamente dentro de um agrupamento cujo acrônimo — BRIC — foi cunhado, no início dos anos 2000, por Jim O’Neill, então economista do Goldman Sachs, para designar um conjunto de economias emergentes com potencial de crescimento.

O que era uma categoria analítica transforma-se, agora, em uma articulação política com implicações estratégicas reais. O BRICS+ deixa de ser apenas um fórum econômico e passa a incorporar, de forma mais direta, dimensões centrais da geopolítica contemporânea: energia, rotas comerciais, segurança e autonomia frente a mecanismos de sanção e pressão externa.

Isso não transforma o bloco em uma aliança militar. Mas amplia sua capacidade de articulação política. E, no mundo que emerge, essa capacidade é decisiva.

Um mundo pós-hegemônico

A leitura mais produtiva, portanto, não é a de uma “substituição” de hegemonia, mas a de uma transição para um sistema mais fragmentado, negociado e instável — um mundo pós-hegemônico.

Nesse cenário, o BRICS+ tende a desempenhar três funções centrais. A primeira é oferecer um espaço de coordenação entre países que não se veem mais representados pelas instituições tradicionais de governança global. Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e até mesmo a Organização das Nações Unidas (ONU) carregam hoje déficits evidentes de legitimidade.

A segunda é ampliar as possibilidades de financiamento, comércio e cooperação fora dos circuitos dominados pelo Ocidente. O debate sobre uso de moedas locais, por exemplo, não é apenas técnico — é profundamente político.

Se há um pilar que ainda sustenta a centralidade dos Estados Unidos, ele não está apenas no poder militar, mas na posição do dólar como moeda de reserva global. É essa condição que permite financiar déficits em larga escala, impor sanções com alcance extraterritorial e projetar poder econômico mesmo em contextos de fragilidade política. Mas esse pilar começa a ser tensionado.

A ampliação do BRICS+ e a crescente articulação entre seus membros trazem à tona um movimento ainda incipiente, mas estrutural: a busca por alternativas ao dólar nas transações comerciais e financeiras. Não se trata, ao menos por ora, de substituição direta, mas de diversificação deliberada. Acordos bilaterais em moedas locais, mecanismos de compensação fora do sistema dominado pelo Ocidente e discussões sobre novos instrumentos de liquidação internacional indicam que o tema deixou de ser periférico.

A própria presença de grandes produtores de energia dentro do BRICS+ amplia essa possibilidade. A ideia — ainda seletiva, mas cada vez mais recorrente — de precificação de petróleo em moedas alternativas, como o renminbi (yuan), recoloca a moeda no centro da disputa geopolítica.

Isso não significa o colapso do dólar. Sua profundidade financeira e seu papel como ativo de segurança permanecem incomparáveis no curto prazo. Mas significa algo talvez mais relevante: o início de um processo em que a hegemonia monetária deixa de ser incontestada. E, uma vez questionada, ela nunca volta a ser a mesma.

A terceira é funcionar como instância de mediação em crises internacionais, especialmente naquelas em que o Ocidente aparece como parte do problema, e não como solução. Nenhuma dessas funções, isoladamente, constitui hegemonia. Mas, juntas, redesenham o sistema.

China, Índia e os limites da convergência

O artigo de O’Neill acerta ao destacar o papel crescente da China e da Índia. Ambas ganham centralidade em um contexto de deslocamento do eixo dinâmico da economia global para o Indo-Pacífico. Mas há um ponto que não pode ser ignorado: o BRICS+ não é um bloco homogêneo.

China e Índia têm interesses distintos, trajetórias diferentes e, em alguns casos, rivalidades históricas. Isso vale para outros membros do grupo. Essa heterogeneidade não é um detalhe — é uma característica estrutural. Paradoxalmente, é também uma das suas forças. Porque o que o BRICS oferece não é uniformidade, mas possibilidade de negociação sem tutela externa.

O que está realmente em jogo

A guerra no Oriente Médio não está apenas redesenhando equilíbrios regionais. Ela está acelerando um processo mais amplo: a reconfiguração da ordem internacional. O que está em curso não é a ascensão de um novo império, mas o enfraquecimento da ideia de que um único centro pode organizar o mundo.

Nesse processo, o BRICS+ emerge menos como substituto e mais como sintoma — sintoma de um sistema que já não funciona como antes e que busca, ainda de forma incompleta e contraditória, novos arranjos. A ordem que vem pela frente será mais complexa, menos previsível e mais disputada. Mas uma coisa parece cada vez mais clara: ela não será mais unipolar.

E há um dado adicional que torna essa transição incontornável

Sob a presidência da Índia em 2026, o BRICS+ se aproxima de sua próxima cúpula de líderes em um momento em que a ordem internacional já não consegue ocultar seu esgotamento. Não se trata de mais uma reunião diplomática. Trata-se da tentativa, ainda em construção, de organizar um novo eixo de poder em um sistema que perdeu sua capacidade de coordenação.

Enquanto os Estados Unidos demonstram capacidade de iniciar guerras, mas não de produzir estabilidade, o restante do mundo deixa de esperar por soluções que já não virão. Esse é o ponto de ruptura. O BRICS+ não é uma promessa. É uma resposta.

Uma resposta imperfeita, heterogênea, cheia de tensões internas — mas, ainda assim, uma resposta concreta à falência de um modelo de ordem baseado na centralidade de uma única potência.

A questão já não é mais se o mundo será multipolar. A questão é que ele já é. E aqueles que insistirem em operar como se a ordem anterior ainda estivesse de pé não apenas interpretarão mal o presente — mas estarão, sobretudo, incapacitados de disputar o futuro.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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