O conflito no Oriente Médio já passa de sete semanas e, apesar de um complexo cessar-fogo instalado, não dá sinalização de que chegue a uma trégua assentada. A coisa é tão complicada que não existe consenso entre as partes sobre uma agenda de discussão para que o atual cessar-fogo se transforme em paz, seja lá o que isso de fato signifique na situação do Oriente Médio. As coisas são tão difíceis de entender que os EUA colocaram a reabertura do Estreito de Ormuz como um pilar do cessar-fogo, para logo em seguida… fechar de novo o Estreito. Triste a sina de quem ousa se debruçar para analisar essa situação.

Um efeito do conflito foi a subida explosiva dos preços do petróleo internacional, que rapidamente superaram os US$ 100 por barril. Tomando o petróleo tipo Brent como referência, os preços passaram de US$ 70 no finzinho de fevereiro para mais de US$ 110 no final de março e, com a “trégua”, seguem oscilando entre US$ 90 e US$ 100. Ou seja, com a tal trégua, os preços ainda seguem bastante próximos ao pico alcançado, e bem distantes dos US$ 70 do final de fevereiro, e ainda mais longe da faixa entre US$ 60 e US$ 70 em que se moveram ao longo do segundo semestre do ano passado.

Essa subida dos preços do petróleo (e do gás, cuja produção está associada ao petróleo) tem consequências variadas no cenário internacional, e vou falar rápida e brevemente sobre algumas delas. A primeira é, evidentemente, o aumento da inflação mundial. Relatório (otimista, na minha opinião) apresentado há pouco pelo FMI nas chamadas “Reuniões de Primavera” do Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial aponta como efeito da guerra uma subida da taxa de inflação mundial dos 3,8% previstos inicialmente, para 4,4%. Por que a estimativa parece otimista? Porque parece levar em conta apenas efeitos diretos e não outras expectativas negativas que são criadas, em especial a partir de escassez de produtos derivados do petróleo e gás no mercado internacional, como querosene de aviação, diesel e gás de cozinha. Quem acompanhou as notícias em jornais no último período vai lembrar rapidamente da possibilidade de escassez de querosene de aviação na Europa, diesel no Brasil e gás de cozinha na Índia. A falta pode acontecer ou não, mas as expectativas negativas já estão criadas, afetando rapidamente o preço de passagens aéreas (na Europa), toda a matriz de transporte urbano e nacional (Brasil), e os custos da alimentação domiciliar na Índia, dependente do aquecimento a gás. Mais do que isso, uma parte importante dos fertilizantes nitrogenados é produzida a partir do gás natural, e eles já subiram de preço e podem escassear, afetando o conjunto da produção agrícola mundial. Assim, os efeitos devem ser ampliados pela escassez e pela especulação, que virá como natural elemento acessório ao processo.

Outra consequência desses acontecimentos será a ampliação dos investimentos no rumo da transição energética. Países altamente dependentes de importação de petróleo, que relutavam em acelerar seus programas de transição pela abundância e preços baixos do petróleo e por estruturas produtivas já construídas para depender desse importante insumo (como as estruturas já estão montadas, são caras para serem alteradas), agora podem rever suas decisões. A China já está se movendo neste sentido, acelerando a sua transição energética para depender menos do petróleo nos próximos anos.

No curto prazo, se o petróleo ficar muito tempo nestes patamares altos, voltará a viabilizar a expansão da produção de gás de xisto (“shale gas”) em países que desenvolviam essa produção, como os EUA, mas foram desestimulados pelos preços do petróleo abaixo de US$ 70 o barril. A produção do gás de xisto tem devastadores impactos ambientais, comprometendo os lençóis freáticos de seu entorno e prejudicando populações, a criação de animais e a agricultura (e, com esses dois últimos impactos, contribuindo também para a escassez de alimentos no futuro). Ou seja, a guerra no Oriente Médio, além de um impacto humano e social, tem um impacto ambiental deletério pela queima de combustíveis, destruição e intensiva utilização de elementos ambientalmente nocivos no seu processo destrutivo. E, com a expansão da produção do gás de xisto, esse efeito negativo se amplia. Muito pouca discussão tem sido feita na mídia sobre esse tema dos efeitos ambientais da guerra.

O Brasil, como país autossuficiente em petróleo na última década, não precisaria estar convivendo com problemas nesta área, se tivesse se preocupado em transformar a autossuficiência em petróleo em autossuficiência em derivados. Não o fez. Ao contrário, desde o governo Temer, processo que se aprofundou no governo Bolsonaro, cortou investimentos importantes da Petrobras que poderiam ter reduzido nossa fragilidade agora. E o atual governo não desfez rapidamente esses cortes, promovendo investimentos pesados no processamento de petróleo, que tivessem nos permitido reduzir o problema. O resultado é que, em especial nas áreas de diesel e fertilizantes, já estamos sentindo os efeitos da guerra. É bastante perigoso que um país que tem o seu transporte urbano e nacional (infraestrutura rodoviária) baseado há muitas décadas no diesel, e que tem como importante atividade produtiva o agronegócio, dependente de fertilizantes, não tenha priorizado se preparar para essa situação.

Vamos ver aos poucos a evolução dessa crise, no mundo e no Brasil, que será tão mais profunda quanto mais durar a guerra e processos de cessar-fogo de fancaria.

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
Clique aqui para ler artigos do autor.