O século XXI poderá ser lembrado como o período em que a América Latina assumiu o controle do próprio destino. Ou como o momento em que aceitou passivamente transformar-se em periferia.

A América Latina e o Caribe vivem um momento que poderá ser lembrado pelas futuras gerações como o período em que o futuro lhes foi roubado. A cada eleição, acumulam-se governos mais frágeis, sociedades mais divididas e economias mais dependentes. Presidentes entram e saem dos palácios, partidos se alternam no poder e discursos inflamados dominam as campanhas eleitorais. Mas, terminado o espetáculo das urnas, permanece a mesma realidade: Estados enfraquecidos, crescimento medíocre, desigualdade persistente e incapacidade de formular projetos nacionais de longo prazo. O que se observa não é uma crise passageira. Trata-se do esgotamento histórico de um modelo.
Durante mais de quatro décadas, o neoliberalismo prometeu modernização, estabilidade e prosperidade. Em seu nome, privatizaram-se empresas públicas, abriram-se mercados, enfraqueceram-se instrumentos de planejamento estatal e transferiram-se decisões estratégicas para o mercado financeiro internacional. O resultado está diante dos nossos olhos: uma região mais vulnerável, mais desigual e menos soberana.
As democracias latino-americanas passaram a funcionar como sistemas permanentes de administração de emergências. Governos já não governam; apenas reagem. Combatem incêndios fiscais, crises cambiais, ondas migratórias, violência urbana, catástrofes climáticas e explosões de insatisfação social. O horizonte estratégico desapareceu. A política deixou de organizar o futuro para administrar o presente.
Ao mesmo tempo, uma transformação ainda mais profunda ocorre no cenário internacional. O centro do capitalismo mundial desloca-se gradualmente para a Ásia, enquanto os Estados Unidos enfrentam um processo de declínio relativo de sua hegemonia econômica, tecnológica e política. Nenhuma potência abandona voluntariamente sua posição dominante.
Quando já não consegue liderar pelo exemplo econômico, o império tende a recorrer aos instrumentos de força. A história registra esse movimento repetidas vezes. Foi assim com impérios antigos e modernos. O poder que perde capacidade de produzir prosperidade frequentemente amplia sua capacidade de produzir conflitos. A eventual consolidação do trumpismo como eixo duradouro da política norte-americana aponta precisamente nessa direção. A mensagem é clara: menos cooperação internacional, menos integração econômica e mais confrontação geopolítica.
Para a América Latina, isso significa crescente pressão para escolher lados em disputas que não são suas. Significa militarização das fronteiras, criminalização dos fluxos migratórios, intensificação das disputas por recursos naturais e ampliação das tensões em torno da presença chinesa na região. Nesse contexto, emerge uma pergunta inquietante: estaria a América Latina caminhando para uma condição semelhante àquela que marcou o Oriente Médio nas últimas décadas? Não se trata de afirmar que a história irá se repetir. As realidades são distintas. Mas a analogia serve como advertência.
O Oriente Médio converteu-se em espaço geográfico permanentemente submetido a intervenções externas, guerras indiretas, disputas por recursos estratégicos e fragmentação política. Em muitos casos, as agendas das grandes potências passaram a prevalecer sobre os interesses nacionais das populações locais. O risco latino-americano reside justamente aí. Uma região incapaz de construir seu próprio projeto histórico torna-se terreno fértil para que outros decidam seu destino.
Os sinais já estão presentes. O crime organizado atravessa fronteiras nacionais. O tráfico internacional de armas expande-se. A mineração ilegal avança sobre territórios estratégicos. As plataformas digitais estrangeiras controlam fluxos de informação. Os dados produzidos pelas populações latino-americanas são processados e monetizados fora do controle público. A soberania econômica é corroída pela dependência financeira. A soberania tecnológica é capturada pelas grandes corporações globais. Enquanto isso, a região mais desigual do planeta continua exportando riqueza e importando vulnerabilidades.
O mais grave é que tudo isso ocorre justamente quando a América Latina reúne condições excepcionais para desempenhar papel central no século XXI. Água doce, biodiversidade, alimentos, energia renovável, minerais estratégicos e uma população majoritariamente urbana compõem um patrimônio que poucas regiões possuem. Mas riqueza sem projeto nacional transforma-se em maldição. Recursos naturais sem soberania convertem-se em objeto de disputa. Democracias sem desenvolvimento tornam-se fábricas de frustração. E sociedades sem futuro tornam-se territórios de conflito.
O verdadeiro dilema latino-americano não é escolher entre direita e esquerda, mercado ou Estado, globalização ou protecionismo. O desafio histórico é muito mais profundo: decidir se a região continuará ocupando uma posição subordinada na reorganização do sistema mundial ou se será capaz de construir um novo ciclo de desenvolvimento baseado em integração regional, soberania tecnológica, reindustrialização, transição ecológica e redução das desigualdades. A história raramente oferece segundas oportunidades.
O século XXI poderá ser lembrado como o período em que a América Latina finalmente assumiu o controle do próprio destino. Ou como o momento em que aceitou passivamente transformar-se em periferia conflagrada de um mundo em disputa. A escolha ainda está aberta. Mas o tempo para fazê-la está se esgotando.
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “Do ECOSOC ao Conselhão: a importância de voltar a planejar o futuro”, de Maria Luiza Falcão.






