Nas últimas décadas, principalmente a partir dos anos 70 do século passado, algumas transformações no sistema econômico atual vêm abalando os fundamentos da democracia liberal. Compreender essa passagem não é simples. Até porque a queda está associada a dois fenômenos fortemente interligados: o crescimento da extrema direita e um declínio acentuado das instituições democráticas em muitos países. Vários autores, como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt[1], se dedicaram ao tema, especialmente em sua vertente política. Sem querer esgotar o assunto, este artigo pretende analisar os aspectos econômicos subjacentes a essas transformações.

Historicamente, a democracia liberal se consolidou na passagem do século XIX para o XX, no período conhecido como 2ª Revolução Industrial, com a formação do mercado de consumo de massa e de uma extensa classe média[2] nos países centrais. Desde então, a classe média se tornou a principal base de sustentação política e social do capitalismo. Esse fenômeno atingiu seu apogeu nos trinta anos após o término da Segunda Guerra Mundial, período este que recebeu a designação de “Golden Age” nos EUA e “Trente Glorieuses” na França (1945-1975). Foi o auge da democracia liberal e do estado de bem-estar social.

Por conta desse período excepcional, moldou-se a convicção entre certos setores da intelectualidade de que a História tinha chegado ao fim. Um apressado Francis Fukuyama, em seu livro “O Fim da História e o Último Homem”, escreveu: “Nós, que vivemos em democracias liberais estáveis e duradouras, encontramo-nos numa situação singular. No tempo dos nossos avós, muitas pessoas ponderadas podiam sonhar com um radiante futuro socialista, em que a propriedade privada e o capitalismo tivessem sido abolidos e, de certo modo, a própria política fosse ultrapassada. Hoje em dia, pelo contrário, é difícil imaginar um mundo que seja radicalmente melhor do que o nosso ou um futuro que não seja essencialmente democrata e capitalista. É claro que, neste contexto, muito haveria a aperfeiçoar: podíamos dar casa aos sem abrigo, garantir oportunidades às minorias e às mulheres, melhorar a competitividade e criar novos empregos.” …  “Mas não é possível imaginar um mundo essencialmente diferente e simultaneamente melhor do que o atual.”[3]

Entretanto, a Era de Ouro não foi obra do acaso. Teve causas bem objetivas. A reconstrução das economias europeias e japonesa destruídas pela guerra, a expansão demográfica (baby boom) e a disponibilidade de energia barata, com os combustíveis fósseis, foram componentes importantes no crescimento observado. Além disso, a produção de bens de capital nos países desenvolvidos foi impulsionada pela ascensão dos emergentes, ávidos por máquinas e equipamentos industriais.

Ao mesmo tempo, baixas taxas de desemprego no período de expansão econômica favoreceram as ações dos sindicatos, que se empenhavam em obter melhores salários e condições de trabalho. Paralelamente, nos parlamentos, partidos trabalhistas, socialistas, comunistas e social-democratas aprovaram leis e regulamentos que favoreciam a distribuição de renda e o bem-estar da população.

No entanto, nas décadas seguintes, as condições favoráveis que deram origem à Era de Ouro, desapareceram ou começaram a perder força.

Crise e instabilidade

Em 1973 e 74, em consequência da formação da OPEP e da instabilidade política no Oriente Médio, o preço do barril de petróleo passou de 3 para 12 dólares. Em 1979 e 80, novamente saltaram de 13 para 40 dólares, gerando uma forte inflação em todo o mundo. Para conter a inflação, o Banco Central americano (FED), elevou os juros básicos da economia de cerca de 3% em 1972 para 12% em 1974, atingindo um pico de quase 20% em meados de 1981. A recessão se instalou em boa parte do planeta. A recuperação das economias europeias e japonesa chegou ao fim. A expansão demográfica declinou.

Uma das consequências mais funestas da política monetária americana desse período foi a elevação brutal das dívidas dos países periféricos, que eram denominadas em dólares e gravadas por juros flutuantes. Uma sucessão de moratórias se espalhou pelo mundo, especialmente na América Latina. Entre 1982 e 1987, México, Brasil, Argentina, Peru, Equador, Chile e Venezuela tiveram que recorrer à moratória ou se envolver em duras renegociações de suas dívidas externas.

Em paralelo, vários países emergentes, principalmente os asiáticos, atingiram um grau elevado de industrialização que lhes permitiu passar de consumidores para fornecedores de bens industriais. Muitos desenvolveram sistemas nacionais de educação e tecnologia que os tornaram capazes de competir com produtos industriais mais elaborados. A presença dos orientais nos mercados mundiais, especialmente do Japão e dos Tigres Asiáticos aumentou muito as dificuldades comerciais dos EUA e da Europa. Na década de 2000, a entrada da China agravou ainda mais esse quadro.

Mas não foi só isso. Desde os anos 70 do século passado, os ativos financeiros cresceram muito mais rapidamente que o PIB mundial. A financeirização aumentou a instabilidade do sistema e a concentração de renda e riqueza.

Diante desse cenário obviamente degradado e longe da Era de Ouro, políticos e economistas da Europa e EUA articularam uma reação que se mostraria muito ineficiente.

O neoliberalismo no Ocidente

Liderados por Ronald Reagan e Margareth Tatcher, que governaram os EUA e a Inglaterra entre 1979 e 1990, muitos entenderam que a única solução possível para retomar o controle da economia e sustentar uma concorrência aberta com os asiáticos seria aumentando, a todo custo, a competitividade das empresas em seus países. Para tal, implantaram uma radical privatização e um gigantesco corte em direitos trabalhistas e serviços públicos, essenciais para o bem-estar da população. Estavam convictos de que somente a liberação total e a redução de custos seriam capazes de criar as condições para o enfrentamento da nova realidade. No mercado financeiro, cortaram as regulações usuais nessa área. Em consequência, mais adiante, em 2007/2008, explodiu nos EUA uma das maiores crises que o capitalismo já conheceu.

Em decorrência dessas políticas, a classe média dos países centrais viu suas condições de vida se deteriorarem. Estagnação da renda real, precarização do trabalho, condições mais difíceis para a aposentadoria e endividamento levaram a classe média ao desespero. Certamente em cada região ou país a insatisfação desse segmento social assumiu características próprias. Entretanto, as condições econômicas quase sempre estão presentes. Na maioria dos países periféricos, especialmente na América Latina, não foi diferente. As condições de vida dos setores mais vulneráveis da população se deterioraram. Mesmo a reduzida classe média desses países sentiu a queda.

Uma resposta eleitoral nada surpreendente

Com o agravamento das condições de vida, a população começou a votar em candidatos de extrema direita que se declaravam antissistema. Não por acaso, escolheram Donald Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Milei na Argentina, Kast no Chile, Bukele em El Salvador e Asfura em Honduras. Na Europa, votaram em Orbán na Hungria, Meloni na Itália, Wilders nos Países Baixos, Kickl na Áustria e Nawrocki na Polônia. Mesmo em países onde esses grupos não chegaram ao poder, seus partidos têm demonstrado um crescimento constante.

Observadores atentos têm constatado que a ascensão da extrema direita tem sido acompanhada por um declínio das instituições democráticas em todo o mundo. O Instituto V-Dem, do Departamento de Ciência Política da Universidade de Gothenburg na Suécia, é o principal organismo acadêmico que acompanha essa evolução. Segundo seu último relatório, publicado em março de 2026, em 2005, 50% da população mundial vivia em uma democracia, enquanto que em 2025 somente 26% está nessa condição; uma queda de quase à metade em duas décadas[4].

Essa correlação não deveria nos surpreender, já que existem precedentes históricos para tal comportamento coletivo. Nas décadas seguintes ao término da 1ª Guerra Mundial, a população alemã, diante de condições de vida degradantes, colocou no poder um partido nazista de triste memória que, entre outras barbaridades, sepultou de vez os últimos resquícios de democracia herdados da República de Weimar[5].

Deve-se observar que os líderes da extrema direita, uma vez eleitos, não se propõem a restaurar o estado de bem-estar social, nem promover o desenvolvimento dos países ainda atrasados. Na verdade, misturam atitudes caóticas e antidemocráticas com aprofundamento do ultraliberalismo, agravando ainda mais as precárias condições dos mais vulneráveis e dificultando a vida da classe média.

Donald Trump, nos EUA, adota uma mistura de delírios autoritários com medidas que favorecem o grande capital, deixando de fora qualquer expectativa de retorno ao “sonho americano”. Perseguição implacável aos imigrantes, tarifas protecionistas indiscriminadas, intervenção ideológica nas maiores Universidades, desregulamentação das Big Techs e cortes de impostos para os mais ricos são alguns dos pontos mais característicos de sua agenda.

Além disso, numa clara subordinação ao complexo militar industrial, aumenta as verbas para projetos armamentistas e intervém militarmente em outros países. “A proposta orçamentária de Trump para o ano fiscal de 2027 prevê um gasto de US$ 1,5 trilhão em defesa, de longe o maior valor em dólares da história moderna” (Wall Street Journal em 04.04.26). No Irã, diretamente ou através de Israel, despeja grande quantidade de armas de todo tipo, certamente aumentando as encomendas e contratos para seus fabricantes e fornecedores. O complexo militar industrial, sobre o qual nos alertava Eisenhower no seu discurso de despedida[6], agradece e retribui, com vultosas contribuições para as próximas campanhas eleitorais.

No Brasil, Bolsonaro tem uma administração igualmente caótica; não poucas vezes tentou golpear as instituições democráticas; promoveu uma campanha antivacinação em plena epidemia da Covid 19; desmontou sistematicamente o combate à degradação ambiental e incentivou o desprezo e agressão às mulheres.

Na economia, entregou o controle ao ultraliberal Paulo Guedes que privatizou setores estratégicos para o desenvolvimento, como a Eletrobrás, a BR Distribuidora e a Refinaria Landulpho Alves. Além disso, buscou, a qualquer custo e sem critério, a redução do orçamento público, não distinguindo gastos com investimentos de despesas correntes; comprometendo ainda mais o já combalido crescimento da economia.

Diante desse quadro, seria de se esperar uma reação coordenada dos partidos mais à esquerda do espectro ideológico. Trabalhistas, socialistas e social-democratas, ao invés de se submeterem à onda neoliberal, poderiam apresentar para suas bases políticas e eleitorais um projeto alternativo, de longo prazo e convincente. Deveriam propor a retomada do desenvolvimento para os emergentes, tendo como objetivo o estado de bem-estar social para todos. Uma atitude desse tipo seria capaz de despertar a esperança por um futuro melhor, colocando o campo progressista de volta na liderança do jogo político. Nada disso é impossível, já que uma parte dos asiáticos conseguiu e outros estão a caminho. Naturalmente, esses países vêm adotando modelos econômicos distantes do neoliberalismo. No geral, constroem modelos híbridos onde o Estado tem forte presença.

Notas:
[1] Levitsky, Steven e Ziblatt, Daniel, Como as Democracias Morrem, Editora Zahar, Rio de Janeiro, RJ, 2018.
[2] O conceito de classe média utilizado neste artigo não está vinculado à renda monetária. É a camada da sociedade capaz de manter ao longo do tempo uma vida digna do ponto de vista econômico. A metodologia da Eurostat, destinada a medir a vulnerabilidade da população, fornece os melhores parâmetros para esse propósito. São utilizados indicadores objetivos das condições de vida que não estão necessariamente vinculados à renda monetária (ver “Persons at risk of poverty or social exclusion” no site da Eurostat).
[3] Fukuyama, Francis, O Fim da História e o Último Homem, Gradiva Publicações, Portugal, Lisboa, 3ª edição, 2007.
[4] Nord, Marina at al., Democracy Report 2026: Unraveling The Democratic Era?, V-Dem Institute, University of Gothenburg, Suécia, 2026.
[5] Ver Os ovos e o ninho da serpente, em Terapia Política.
[6] Eisenhower, Dwight, Discurso de Despedida, proferido em 17 de janeiro de 1961, Biblioteca Presidencial Eisenhower, Abilene, Kansas, EUA.

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Revisão: Celia Bartone
Leia também “Bolsonarismo: o fim do Brasil!”, de Marcos Grillo.