Será mesmo que Flávio Bolsonaro marcou um golaço com sua visita à Casa Branca? Golaço a favor ou contra? Vejamos.

Ao que tudo indica, Trump o recebeu, sem agenda, por menos de dez minutos, para uma fotografia. Marco Rubio ficou encarregado de atendê-lo. Ele teria feito o pedido ao Rubio para os EUA enquadrarem as organizações criminosas PCC e CV como organizações terroristas, o que foi formalizado pelo Departamento de Estado, um dia após, em 28/5. Tudo leva a crer que a decisão dos EUA de designação das organizações PCC e CV como terroristas já havia sido tomada antes mesmo da viagem de Flávio. Se for isso, trata-se de uma ameaça velada dos EUA ao Brasil e um empurrãozinho deles, por debaixo do pano, na campanha do Flávio.

Vejamos alguns pontos importantes sobre o assunto.

  1. Flávio Bolsonaro foi chamado aos EUA por Eduardo Bolsonaro para cumprir agenda pré-programada: marcar o “golaço”, fugir da pressão diuturna que vinha sofrendo sobre seu affair com Daniel Vorcaro e, também, para fechar com seu irmão Eduardo uma narrativa consistente sobre as destinações dos R$ 61 milhões recebidos supostamente para a realização do filme Dark Horse.
  2. A designação do PCC e CV como organizações terroristas já estava na agenda do governo norte-americano. Cabe somente a pergunta: Por que somente PCC e CV, e não Milícias?
  3. Segundo as regras da ONU, organizações só devem ser classificadas como terroristas quando sua conduta violenta é pautada por ideologia, política e religião, o que não é o caso do PCC e CV, já que suas atuações, apesar de ilegais e violentas, visam apenas o lucro e não a desestabilização do poder instituído.
  4. A decisão dos EUA de considerarem o PCC e CV como terroristas tem as seguintes implicações:

– Criação da base legal para justificar as ações a serem tomadas pelo executivo norte-americano, que incluem a prisão de pessoas suspeitas em solo estrangeiro, seu sequestro e transferência para os EUA e julgamento por tribunais americanos (vide caso de Nicolás Maduro acusado de pertencer ao Tren de Aragua);

– Transferência da responsabilidade de investigação da DEA (Drug Enforcement Agency) e FBI (Federal Bureau of Investigation) para a CIA (Central Inteligence Agency) e Pentágono.

– O Departamento de Estado pode aplicar sanções e bloqueios de bens a pessoas e/ou empresas que mantenham relações com as organizações terroristas, ainda que tangenciais.

– As instituições financeiras brasileiras (Bancos, Fintechs e Corretoras) serão as primeiras a sofrer com tais medidas, pois o compliance das empresas americanas tenderá a desaconselhar operações ainda que com risco mínimo de contaminação (vide exemplo da Reag – Operação Carbono Oculto).

– Os investidores estrangeiros redobrarão a cautela no envio de dinheiro para o mercado de capital brasileiro e operações de renda fixa e de carry trade. Isso também poderá causar uma redução no investimento direto estrangeiro.

– As empresas exportadoras poderão sofrer sanções se houver contágio de suas operações com as “organizações terroristas” (transporte de carga, compra de combustíveis, etc.)

– Os programas de cooperação internacional Brasil – EUA e as operações conjuntas de combate ao crime organizado (venda de armas para o Brasil e venda de drogas para os EUA) serão descontinuados já que ocorrerá mudança de interlocução (saída do DoJ e FBI e entrada da CIA e Pentágono).

– As operações conduzidas pela CIA e Pentágono são pautadas por estrita confidencialidade e baixíssimo nível de cooperação internacional e, assim sendo, poderão descontinuar as investigações conjuntas e a cooperação técnica que já estão em pauta pelos dois governos.

– As sanções eventualmente impostas pelos EUA poderão causar grandes prejuízos para os fluxos de renda dos empresários brasileiros e estrangeiros, além de afetar o Balanço de Pagamentos do país.

– As eventuais ações que seriam implementadas pela CIA e Pentágono em solo brasileiro poderão se constituir em abusos à soberania nacional.

– Existe um enorme risco de cooptação de agentes da CIA e militares norte-americanos pelas organizações criminosas, o que aumentaria a insegurança pública e perpetuaria a corrupção.

  1. A sociedade brasileira ainda não foi capaz de aprovar a PEC da Segurança Pública que aportaria uma maior cooperação entre os poderes estaduais e federal. O Governo e o PT estão atônitos e ainda estão ensaiando o discurso e ações a serem tomadas na campanha eleitoral. Isso porque o povo brasileiro está cansado da inação das autoridades com o problemaço da segurança pública. O povão tende a acreditar que qualquer ajuda, ainda que estrangeira, é bem-vinda.
  2. Somos terreno fértil para invasões e incursões dos EUA no nosso país, sem qualquer coordenação. Isso significaria perda de soberania com apoio popular?
  3. Por todas as razões antes elencadas tudo leva a crer que o balão de oxigênio que foi dado a Flávio Bolsonaro será esvaziado rapidamente pelo mercado financeiro e demais empresas brasileiras passíveis de sanções. Mas ele, claramente, resolveu radicalizar e partir para o tudo ou nada.
  4. É de se esperar, também, uma forte reação do empresariado brasileiro e norte-americano contra o enquadramento das organizações criminosas como terroristas. Trump pode voltar atrás após as eleições.
  5. Contudo, resta saber qual será a reação dos pobres de direita…
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Ilustração: Mihai Cauli
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