
Ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-45), a criação da Organização das Nações Unidas ocorreu em um mundo muito diferente do atual. Naquele momento, menos de 70 países soberanos conviviam com vastos impérios coloniais europeus que dominavam grande parte da Ásia, África e Caribe. Em poucas décadas, a descolonização ampliou para aproximadamente 200 o número de Estados independentes, tornando a soberania nacional o princípio organizador da ordem internacional do segundo pós-guerra.
O paradoxo contemporâneo é que, justamente quando a humanidade alcançou o maior número de nações soberanas de sua história, a capacidade efetiva dos Estados de controlar o seu próprio destino vem sendo reduzida. O enfraquecimento relativo da ONU ocorre simultaneamente à ascensão de grandes corporações transnacionais, conglomerados financeiros e plataformas digitais que operam acima das fronteiras nacionais e concentram poder econômico, tecnológico e informacional sem precedentes.
Mas essa não é a única transformação em curso. O segundo quarto do século XXI está sendo marcado por uma mudança estrutural ainda mais profunda, com o deslocamento do centro dinâmico da economia mundial do Ocidente para o Oriente e, em medida crescente, do Norte desenvolvido para o Sul Global.
Durante quase cinco séculos, a riqueza, a inovação tecnológica e o poder militar estiveram concentrados principalmente na Europa Ocidental e, posteriormente, na América do Norte. Hoje, porém, a expansão econômica da Ásia, liderada pela China, por exemplo, bem como diversos países do Sudeste Asiático, aponta para uma redistribuição histórica do poder global. Enquanto economias maduras enfrentam baixo crescimento e envelhecimento populacional, grande parte do Sul Global amplia a sua participação na produção industrial, no comércio internacional e na inovação tecnológica.
Ao mesmo tempo, uma inflexão demográfica sem precedentes altera o mapa humano do planeta. Países como Japão, Coreia do Sul, Itália e Alemanha convivem com taxas de natalidade persistentemente baixas, envelhecimento acelerado e redução da população. Em algumas projeções, determinadas sociedades poderão perder entre um quarto e metade de seus habitantes ao longo deste século. Em contraste, países africanos como Nigéria, Etiópia e República Democrática do Congo deverão concentrar parcela crescente da população mundial.
Essa redistribuição demográfica terá consequências profundas para o mercado de trabalho, os fluxos migratórios, os sistemas previdenciários e a própria correlação de forças internacionais. O futuro da humanidade será cada vez mais africano, asiático e latino-americano.
Como se não bastassem essas significativas transformações, a crise climática introduz uma dimensão inédita de insegurança global. O aumento da temperatura média do planeta acelera o degelo das calotas polares e das geleiras continentais, contribuindo para a elevação do nível dos oceanos. Pequenos países insulares, como Maldivas, Tuvalu e Kiribati enfrentam o risco existencial de perder parte significativa de seus territórios.
Mas o problema não se restringe às pequenas ilhas. Grandes áreas costeiras densamente povoadas poderão sofrer impactos severos. Regiões do delta de Bangladesh, partes dos Países Baixos, áreas costeiras da China, cidades como Xangai, Miami, Alexandria e extensas zonas litorâneas brasileiras poderão enfrentar inundações recorrentes, deslocamentos populacionais e elevados custos de adaptação.
Surge então uma contradição histórica de grandes proporções. Os desafios centrais do século XXI como as mudanças climáticas, inteligência artificial, migrações, segurança alimentar, pandemias, fluxos financeiros e governança de dados se tornaram globais. Entretanto, os instrumentos políticos para enfrentá-los permanecem predominantemente nacionais e cada vez mais fragilizados.
O mundo parece transitar para uma nova configuração. Já não é o sistema colonial dos séculos anteriores, tampouco a ordem internacional organizada exclusivamente por Estados soberanos. Trata-se de uma estrutura híbrida em que governos, corporações digitais, fundos financeiros, organismos multilaterais e redes tecnológicas disputam o comando dos processos decisórios.
A questão decisiva das próximas décadas talvez não seja apenas quem liderará a economia mundial ou qual potência substituirá outra. O desafio fundamental será construir mecanismos democráticos capazes de governar problemas globais sem sacrificar a soberania dos povos. Caso contrário, a humanidade poderá assistir à substituição da antiga dominação colonial por uma nova forma de poder, como um sistema em que algoritmos, plataformas e capitais transnacionais condicionam o destino das sociedades mais do que seus próprios cidadãos.
Se o século XX foi o da emancipação nacional, o segundo quarto do século XXI poderá ser lembrado como o período em que a humanidade terá de decidir entre duas alternativas. De um lado, a democratização da governança global e, de outro, a consolidação de um mundo pós-nacional comandado por poderes econômicos e tecnológicos cada vez menos sujeitos ao controle público.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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