
“Suas endêmicas ridiculezas e sua corrupção cotidiana
constituíam a própria fonte da sua autoridade e do seu poder.”
Semana passada, Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás e candidato a presidente pelo partido de Gilberto Kassab se referiu ao autoexilado filho do presidiário Jair Bolsonaro como “o Pateta da política brasileira”. Numa publicação no X, Caiado começou perguntando: “Quem é o personagem que vive nos Estados Unidos, é todo atrapalhado e, sempre que abre a boca faz alguma besteira? A) Mickey B) Pateta C) Pato Donald?”. E continuou: “A diferença é que o Pateta da Disney é atrapalhado, mas bem-intencionado e inofensivo. Já o da política brasileira tropeça nos Estados Unidos, e a queda pode custar caro ao Brasil, atingindo a indústria, as exportações e os empregos.”
Iniciada a corrida ao Palácio do Planalto, aliados de primeira hora começam a dar cotoveladas pela disputa da herança bolsonarista. Estão todos com muita sede para ir ao pote. Assanhados com a onda que impulsiona uma ampla tipologia de direitistas e ultras em todo o mundo ocidental se apressam a definir os traços dos seus próprios personagens – ou máscaras, como faziam os gregos dos tempos de Péricles. É preciso manter a alma da renascida ultradireita planetária – por décadas expulsa do cenário após a catástrofe da II Guerra – e ao mesmo tempo criar sua própria caracterização. Empenham-se arduamente para auscultar os ruídos da plateia, captar o humor do público e ver até onde podem carregar na maquiagem. Quanto mais chamativa e pitoresca, melhor.
A marca ou o slogan é tudo, aconselham os publicitários. A motosserra para os argentinos de Milei, “el Tigre” para o colombiano de la Espriella, o “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” do capitão.
No vale-tudo que se segue, até o cowboy chuta a bunda do Pateta. No meio do caminho, o rebanho inteiro pode ir para o brejo. Mas, cuidado – é melhor esperar para ver. Primeiro porque podemos estar confundindo nosso desejo com a realidade e as histórias dos gibis falam muito de cowboys e patetas, mas não mostram os rumos do mundo. Além do que, os homens nem sempre têm o bom caráter dos heróis e dos justos das histórias aventurescas e não raro, são capazes das mais espantosas piruetas, dizendo e desdizendo no mesmo diapasão, como se a audiência fosse composta apenas de risonhos idiotas.
Membros da mesma família, surfando na mesma onda, brigam, acusam-se, vituperam uns aos outros, lançam impropérios – mas não se apartam. Íntimos de uma mesma imagem do mundo, comensais de um mesmo banquete, são também irmãos de privilégios.
#
Os atropelos têm sido inúmeros, quase tanto quanto os tropeços. E o presidenciável Ronaldo Caiado parece acertar o centro do alvo quando associa o “03” ao personagem dos quadrinhos da Disney. As patetices de Eduardo Bolsonaro vão se acumulando uma após a outra. Mas não são exclusividade do histriônico personagem – os outros membros da campanha parecem carregar uma enorme tralha de malfeitos. Mesmo assim, se são guias, são também guiados e se há culpa daqueles que apelam aos votantes, há também naqueles que votam. Nesse jogo não há inocentes, ainda que haja muitíssima manipulação das vontades e das escolhas.
#
Se o bolsonarismo não se demonstrar capaz de ser mais que um pequeno grupo atado por laços de sangue – como os Corleone, por exemplo, os Trapo e os Rothschild –, cada vez mais circunscrito e aferrado aos interesses da própria família, logo estará destinado ao mais ou menos rápido desaparecimento e outros ocuparão o espaço deixado para trás. O vazio na política não existe. Os atores podem ser trocados, mas a chama que alimenta a trama e encanta a audiência permanece. Esse é o desejo da própria plateia. É verdade que eleito Jair Bolsonaro os interesses da família passaram a ocupar o primeiro lugar (não o Brasil, não Deus). Seus milhões de eleitores, também eles personagens do drama, tratarão imediatamente de encontrar um novo autor.
É possível que, como resultado dos próprios laços, métodos e interesses que os alçaram ao poder, tenham se metido numa rota que os levará ao isolamento e à extinção. O futuro dirá.
Por incrível que possa parecer, algo semelhante ao que ocorreu com a casta que comandava a ex-União Soviética. Como diz um grande historiador inglês, seus integrantes “tinham como absoluta prioridade sua própria sobrevivência”. O que são os bolsonaros que não um bando aglutinado em torno de uma figura ou mito, como certamente preferem, cuja densidade política é formada por uma retórica bélica que encontra inimigos conforme as próprias conveniências, organizando sentimentos nebulosos, rancores e raivas, e que têm como absoluta prioridade a própria sobrevivência (e dos agregados)?
_____
P.S.: Segue a gulosa e desmedida ambição do bolsonarismo como familiocracia. Sexta-feira, 31 de julho, às vésperas das convenções partidárias, Michele Bolsonaro, a madrasta do candidato a presidente, anuncia que deve mesmo se candidatar ao senado, tendo como suplente o meio-irmão Diego Torres Dourado e o outro meio-irmão, Eduardo Torres, como candidato a deputado.
P.S.2: Michele Bolsonaro tem quatro meios-irmãos (irmãos por parte de pai ou de mãe), entre eles, os citados Diego Torres Dourado, filho do pai de Michele, e Eduardo Torres, enteado do pai. Há ainda mais duas meias-irmãs, e um meio-irmão, todos nascidos da mãe de Michele – como não são candidatos a nenhum cargo eletivo, pelo menos até o momento, não cabe citar seus nomes.
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
Leia também “A trajetória eleitoral segue seu curso”, de Adhemar Mineiro.






