
O osso de borracha, roído na ponta até revelar a espuma sintética, dormitava esquecido entre os pés do sofá. Paçoca, um típico vira-lata caramelo de orelhas desiguais e paciência infinita, observava seus donos com a distância crítica de quem não compreende a aflição das palavras.
A TV multicoloria nas paredes brancas da sala mal iluminada, como uma fogueira moderna, emitindo um zumbido histérico de desgraças em alta definição. Na tela, um sujeito de gravata vermelha gesticulava com fúria sobre o fim dos tempos, incitando a audiência, com ideias superficiais, a abraçar seus medos, frustrações e preconceitos mais profundos.
No sofá de corino rachado, o casal reagia em um dueto de demências. Ele rosnava para a tela a cada notícia de assalto, gesticulando com o controle remoto como se fosse uma adaga que, exibida, afastaria uma eventual ameaça. Ela, de olhar vidrado, dividia sua atenção entre o apresentador, que secretamente achava bonito, e um pote de sorvete de flocos, engolindo generosas colheradas de gordura hidrogenada a cada sobressalto televisivo.
O som alto da TV compensava o chiado da panela de pressão que enchia o ar da sala com cheiro de feijão. O apresentador conversava com outro engravatado sobre impostos e a ruína da família tradicional. Com ar de indignação, ele desferiu um soco na almofada, praguejando contra deputados, vizinhos e o tempo chuvoso. A mulher, meio como resposta, meio como desabafo, soltou um suspiro dramático e acusou a cunhada de ser comunista por não ter vindo ao almoço de domingo.
Paçoca bocejou, esticando as patas dianteiras. Para o cão, a vida era uma equação simples de cheiros, petiscos e cafunés ocasionais. Não conseguia alcançar a lógica daqueles bípedes que preferiam o veneno da tela à brisa fresca que entrava pela janela da varanda. Não entendia porque preferiam se alimentar de rancores abstratos e indignações pré-fabricadas a algum tipo de afeto ou carinho.
Na tela, chuvas devastadoras, secas históricas, imigrantes apanhando e morrendo, a ganância devorando o futuro. A dor alheia exibida em imagem de qualidade digital era diversão sádica para o casal. Sentiam satisfação e cumplicidade ao culparem, juntos, ateus, macumbeiros, comunistas e feministas pelas espetaculares desgraças do mundo. O ódio os mantinha unidos mais do que a antiga promessa feita no altar.
A mulher deixou cair um pedaço de linguiça frita no tapete. Paçoca aproximou-se com cautela cínica, abocanhou o petisco e o engoliu sem mastigar. Ninguém notou. Estavam ocupados demais odiando o mundo para perceber a vida real acontecendo a seus pés.
O cão voltou ao seu canto, deitou a cabeça sobre as patas e fechou os olhos. Entre a loucura dos homens e o sono dos bichos, preferiu a sabedoria do silêncio.
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Ilustração: Mihai Cauli
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