As três políticas lançadas pelo governo são a oportunidade de modernizar a estrutura produtiva, acelerar a transição ecológica e inserir o país nas cadeias globais de valor.

O Brasil vive um momento particularmente favorável para repensar seu desenvolvimento. A retomada da política industrial, a ampliação dos investimentos em infraestrutura e o fortalecimento das agendas de inovação, sustentabilidade e inclusão produtiva recolocaram no centro do debate nacional uma questão decisiva: como construir um crescimento econômico capaz de gerar produtividade, empregos de qualidade e redução das desigualdades.
Nesse contexto, o governo federal lançou iniciativas estratégicas de grande alcance, como a Nova Indústria Brasil (NIB), o Novo PAC e a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC). Juntas, essas políticas oferecem uma oportunidade histórica para modernizar a estrutura produtiva brasileira, acelerar a transição ecológica e ampliar a competitividade do país nas novas cadeias globais de valor.
Mas o Brasil do século XXI precisa dar um passo adicional.
A história econômica brasileira demonstra que crescimento e industrialização são condições necessárias para o desenvolvimento, mas nem sempre suficientes para reduzir desigualdades profundamente enraizadas. Ao longo do século XX, o país construiu uma importante base industrial, ampliou sua infraestrutura e diversificou sua economia. Ainda assim, manteve fortes diferenças regionais, com a renda, a inovação e as atividades produtivas mais dinâmicas concentradas em parcelas relativamente restritas do território nacional.
O Brasil continua marcado por uma forte heterogeneidade estrutural, na qual setores altamente produtivos convivem com amplas áreas de baixa produtividade, infraestrutura insuficiente e reduzida capacidade de inovação. Grande parte das desigualdades sociais e regionais decorre justamente dessa fragmentação produtiva e territorial.
Por isso, a proposta aqui apresentada não pretende substituir as políticas já em curso. Ao contrário. Busca complementar e ampliar seus efeitos, especialmente nos territórios que ainda permanecem relativamente afastados dos principais circuitos econômicos e tecnológicos do país.
A Nova Indústria Brasil organiza seis missões estratégicas voltadas à transformação produtiva nacional, incluindo bioeconomia, agroindústria sustentável, saúde, digitalização e transição energética. O Novo PAC busca ampliar a infraestrutura econômica e social, fortalecendo a integração territorial e a competitividade nacional. A Estratégia Nacional de Economia Circular, por sua vez, procura promover o uso mais eficiente dos recursos materiais, reduzir desperdícios e estimular novos modelos de produção e consumo.
É na convergência dessas três agendas que surge a oportunidade de uma estratégia nacional de reindustrialização territorial.
O Brasil dispõe de enormes quantidades de materiais hoje subutilizados ou simplesmente descartados. Restos de colheitas, resíduos agroindustriais, subprodutos florestais, resíduos urbanos, rejeitos de mineração e diversos outros materiais frequentemente encerram seu ciclo econômico antes que seu potencial produtivo seja plenamente aproveitado.
Transformar esses recursos em matéria-prima para novas atividades industriais pode abrir um caminho inovador para o desenvolvimento regional, para a geração de empregos qualificados e para o aumento da produtividade da economia brasileira.
Um exemplo ajuda a ilustrar esse potencial.
Todos os anos, milhões de resíduos de bananeiras são descartados após a colheita. No entanto, esses materiais podem ser transformados em fibras têxteis de elevado valor agregado, utilizadas pela indústria da moda, por fabricantes de tecidos técnicos e por segmentos ligados à economia sustentável. Celulose, bioplásticos, biofertilizantes, enzimas industriais, pectina, cosméticos, biocombustíveis. O que hoje é tratado como resíduo pode converter-se em insumo industrial, criando renda, inovação e novos encadeamentos produtivos em regiões rurais e cidades médias do interior.
Esse exemplo revela algo mais amplo. A economia circular não deve ser entendida apenas como política ambiental ou de gestão de resíduos. Ela pode tornar-se uma poderosa ferramenta de desenvolvimento regional e de reindustrialização.
Ao estimular o aproveitamento econômico de materiais disponíveis localmente, a Estratégia Nacional de Economia Circular pode funcionar como uma ponte entre os investimentos em infraestrutura promovidos pelo PAC e as oportunidades produtivas abertas pela Nova Indústria Brasil. Dessa forma, resíduos deixam de representar custos e passam a constituir ativos econômicos capazes de impulsionar novos ciclos de desenvolvimento.
Mais do que uma questão ambiental, trata-se de uma estratégia de reorganização produtiva do território brasileiro.
Boa parte dos desafios de produtividade enfrentados pelo país decorre da fragmentação regional, da baixa integração entre cadeias produtivas, do desperdício de recursos e da limitada capacidade de transformar potencialidades locais em atividades econômicas de maior valor agregado.
O desenvolvimento brasileiro dependerá cada vez menos da simples expansão dos polos econômicos já consolidados e cada vez mais da capacidade de ativar economicamente territórios hoje periféricos ou parcialmente desconectados dos circuitos mais dinâmicos da economia nacional.
Isso exige uma política industrial capaz de alcançar cidades médias, pequenas cidades, áreas rurais e regiões cuja inserção produtiva ainda se concentra em atividades de baixa complexidade econômica.
A Nova Indústria Brasil concentra-se, corretamente, em setores estratégicos de alta intensidade tecnológica. O PAC prioriza investimentos estruturantes de grande escala. A reindustrialização territorial pode atuar justamente na conexão entre essas iniciativas e as oportunidades existentes nos diversos territórios brasileiros.
O objetivo não deve ser apenas produzir mais. Deve ser produzir melhor, de forma mais distribuída, sustentável e integrada.
A produtividade de um país não depende apenas da eficiência de cada empresa individualmente. Ela depende também da qualidade da infraestrutura, da logística, da capacidade tecnológica, da articulação entre cadeias produtivas e do aproveitamento inteligente dos recursos disponíveis em cada território.
Ao reduzir desperdícios, valorizar recursos locais, integrar cadeias produtivas regionais e estimular novas economias de aglomeração, a reindustrialização territorial pode elevar a produtividade sistêmica da economia brasileira.
Regiões economicamente articuladas tendem a gerar mais inovação, renda, dinamismo empresarial e capacidade de adaptação às mudanças tecnológicas. Regiões fragmentadas, ao contrário, frequentemente reproduzem ciclos persistentes de baixa produtividade e desigualdade.
Por isso, uma nova etapa do desenvolvimento brasileiro precisará integrar simultaneamente:
- industrialização;
- desenvolvimento regional;
- bioeconomia;
- infraestrutura;
- ciência, tecnologia e inovação;
- sustentabilidade;
- inclusão produtiva.
Ao mesmo tempo, reorganizar a produção com base na bioeconomia e no reaproveitamento de materiais fortalece a segurança energética, reduz dependências externas, aumenta a resiliência econômica e amplia a soberania nacional.
Na produção, pela transição energética e pela crescente disputa tecnológica, o Brasil reúne condições excepcionais para construir uma estratégia própria de desenvolvimento sustentável e industrialização verde.
Mas isso exigirá coordenação nacional, planejamento de longo prazo e cooperação entre União, estados e municípios, de forma que os recursos mobilizados pela Nova Indústria Brasileira, pelo PAC e pela Estratégia Nacional de Economia Circular alcancem efetivamente os territórios mais vulneráveis e ampliem suas capacidades produtivas.
Talvez o principal desafio brasileiro do século XXI seja justamente reconectar indústria, território e inclusão social.
Reduzir as desigualdades brasileiras não será possível apenas por meio da transferência de renda. Dependerá também da capacidade de democratizar oportunidades produtivas, incorporar milhões de pessoas aos segmentos mais dinâmicos da economia e criar novos polos de desenvolvimento distribuídos pelo território nacional.
Se o Plano de Metas dos anos 1950 buscou construir a base material da industrialização brasileira, e se a Nova Indústria Brasileira, o PAC e a Estratégia Nacional de Economia Circular procuram modernizar essa estrutura para os desafios do século XXI, a próxima etapa do desenvolvimento nacional precisará consolidar sua dimensão territorial, ecológica e produtiva – chegando aonde os grandes programas ainda não chegam com toda a intensidade necessária.
A Nova Indústria aponta o que o Brasil precisa produzir. O PAC ajuda a construir a infraestrutura necessária para isso. A Estratégia Nacional de Economia Circular mostra como utilizar de forma mais eficiente os recursos já disponíveis. A reindustrialização territorial pode ser o elo capaz de integrar essas três agendas em um projeto nacional de desenvolvimento que combine produtividade, sustentabilidade e redução das desigualdades.
O futuro do desenvolvimento brasileiro dependerá cada vez mais da capacidade de transformar desperdícios em produtividade, resíduos em valor agregado e territórios historicamente periféricos em novos espaços dinâmicos de inovação, produção e prosperidade compartilhada.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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