Anexo ao artigo do autor “O Brasil já tem três políticas de desenvolvimento: falta conectá-las”,  publicado no Terapia Política em 01/07/2026.

Íntegra da Proposta

Introdução

O Brasil vive uma nova encruzilhada histórica do desenvolvimento.

Ao longo do século XX, o país construiu importantes bases industriais, urbanas e infraestruturais. O Plano de Metas dos anos 1950 desempenhou papel decisivo nesse processo ao organizar prioridades nacionais, mobilizar investimentos e criar uma visão integrada de transformação econômica.

O século XXI, contudo, apresenta novos desafios.

A nova industrialização brasileira não poderá reproduzir mecanicamente o modelo concentrado, intensivo em carbono e territorialmente desigual do passado. O desenvolvimento contemporâneo exige combinar:

– produtividade;

– inovação;

– sustentabilidade;

– inteligência territorial;

– segurança energética;

– inclusão produtiva;

– e redução das desigualdades regionais.

Nesse contexto, emerge uma nova fronteira estratégica para o país:

transformar os fluxos materiais dispersos do território brasileiro — resíduos agroindustriais, urbanos e minerais — em base de reindustrialização interiorizada, bioeconomia, economia circular e desenvolvimento regional.

O Brasil possui enormes reservas invisíveis de riqueza já colhida, extraída, processada ou descartada, mas ainda pouco integradas a uma estratégia nacional de agregação de valor.

Em diferentes regiões do país, biomassa agrícola, subprodutos agroindustriais, resíduos urbanos orgânicos, rejeitos minerais e fluxos produtivos subutilizados podem sustentar:

– bioenergia;

– biogás e biometano;

– fertilizantes;

– remineralizadores;

– biomateriais;

– química verde;

– materiais de construção;

– microindustrialização territorial;

– e novos circuitos produtivos regionais.

A proposta aqui apresentada busca transformar esse potencial disperso em política nacional de desenvolvimento.

Mais do que uma política ambiental, trata-se de uma política:

– industrial;

– territorial;

– tecnológica;

– produtiva;

– energética;

– e social.

O objetivo central é promover uma nova etapa de industrialização brasileira:

– mais capilar;

– territorialmente distribuída;

– ambientalmente sustentável;

– e articulada às vocações produtivas locais.

# Objetivo Estratégico Nacional

## Reindustrializar o interior do Brasil por meio do aproveitamento produtivo de resíduos agroindustriais, urbanos e minerais, articulando desenvolvimento regional, produtividade territorial, bioeconomia e economia circular.

Eixo Estruturante I

Inteligência Territorial e Planejamento Produtivo

Meta 1 — Implantar o Atlas Brasileiro dos Fluxos Materiais e Resíduos Produtivos

O Governo Federal implantará uma plataforma nacional integrada de inteligência territorial destinada a mapear:

– biomassa agrícola residual;

– resíduos agroindustriais;

– resíduos urbanos orgânicos;

– rejeitos minerais;

– passivos produtivos reaproveitáveis;

– e potenciais territoriais de transformação industrial.

O Atlas integrará informações produzidas por:

IBGE;

– Ibama;

– ANM;

– SINIR;

– Embrapa;

– Conab;

– universidades;

– e centros tecnológicos públicos.

Objetivos do Atlas

– identificar territórios prioritários para bioindustrialização;

– apoiar políticas de desenvolvimento regional;

– orientar investimentos produtivos;

– estruturar cadeias da economia circular;

– apoiar consórcios intermunicipais;

– e subsidiar políticas de financiamento e inovação.

Indicadores territoriais prioritários

– intensidade residual municipal;

– densidade bioindustrial;

– potencial de reaproveitamento mineral;

– circularidade territorial;

– produtividade material regional.

Eixo Estruturante II

Polos de Reindustrialização Territorial

Meta 2 — Estruturar polos regionais de transformação produtiva

Serão implantados polos regionais voltados ao aproveitamento econômico de resíduos produtivos em regiões estratégicas do interior brasileiro.

Os polos atuarão como ecossistemas regionais de:

– processamento;

– transformação;

– inovação;

– capacitação;

– logística;

– e agregação de valor.

Tipologias prioritárias

  1. a) Polos sucroenergéticos

Transformação de:

– bagaço;

– palha;

– vinhaça;

– torta de filtro.

Produtos prioritários:

– biogás;

– biometano;

– SAF;

– fertilizantes;

– química verde;

– etanol de segunda geração.

  1. b) Polos agroindustriais de grãos

Transformação de:

– palhada;

– cascas;

– farelos;

– biomassa lignocelulósica.

Produtos prioritários:

– bioinsumos;

– biomateriais;

– proteína alternativa;

– química verde.

]c) Polos de proteína animal

Transformação de:

– dejetos;

– efluentes;

– gorduras;

– resíduos orgânicos.

Produtos prioritários:

– biodigestores;

– bioenergia;

– fertilizantes;

– colágeno;

– aproveitamento proteico.

  1. d) Polos mineradores de reconversão produtiva

Transformação de:

– rejeitos minerais;

– escórias;

– finos;

– estéreis.

Produtos prioritários:

– cimento verde;

– materiais de construção;

– remineralizadores;

– recuperação mineral secundária.

  1. e) Polos urbanos de economia circular

Transformação de:

– resíduos alimentares;

– resíduos orgânicos urbanos;

– poda urbana;

– resíduos de abastecimento alimentar.

Produtos prioritários:

– compostagem;

– biogás;

– fertilização urbana;

– logística circular.

Eixo Estruturante III

Microindustrialização e Interiorização Produtiva

Meta 3 — Implantar uma Rede Nacional de Microindustrialização Territorial

O Governo Federal apoiará pequenas cidades e regiões rurais na implantação de:

– microagroindústrias;

– unidades cooperativas;

– centrais de compostagem;

– biodigestores;

– unidades de pellets;

– pequenas plantas de fertilizantes orgânicos;

– e estruturas locais de agregação de valor.

A prioridade será dada a:

– municípios de baixa densidade econômica;

– regiões com elevado desperdício produtivo;

– territórios com potencial cooperativo;

– e cidades dependentes de atividades primárias de baixo valor agregado.

Objetivos estratégicos

– elevar a produtividade local;

– gerar renda regional;

– ampliar o adensamento produtivo;

– reduzir desperdícios;

– e fortalecer economias locais.

Eixo Estruturante IV

Ciência, Tecnologia e Capacitação Territorial

Meta 4 — Criar uma Rede Nacional de Tecnologia para Reindustrialização Territorial

Será estruturada uma rede nacional articulando:

– Embrapa;

– institutos federais;

– universidades públicas;

– SENAI;

– centros tecnológicos;

– e agências de inovação.

Funções da rede

– desenvolver tecnologias apropriadas;

– adaptar soluções produtivas às escalas locais;

– apoiar cooperativas e consórcios;

– padronizar bioinsumos;

– desenvolver usos industriais para resíduos;

– apoiar certificação e regulação técnica.

Áreas prioritárias

– bioenergia;

– biometano;

– fertilizantes;

– biomateriais;

– reaproveitamento mineral;

– química verde;

– logística circular.

Eixo Estruturante V

Financiamento e Compras Públicas

Meta 5 — Criar instrumentos financeiros para reindustrialização territorial

Serão estruturados mecanismos específicos de:

– crédito;

– subvenção;

– financiamento;

– garantias;

– e compras públicas.

Instrumentos prioritários

– linhas BNDES para bioindustrialização;

– crédito territorial para cooperativas;

– fundos de reconversão produtiva mineradora;

– apoio a consórcios intermunicipais;

– compras públicas verdes;

– incentivos à produção de fertilizantes nacionais;

– financiamento de biodigestores e microplantas.

Eixo Estruturante VI

Governança Territorial e Cooperação Federativa

Meta 6 — Implantar consórcios territoriais de economia circular e transformação produtiva

O Governo Federal incentivará:

– consórcios intermunicipais;

– arranjos produtivos locais;

– governança territorial compartilhada;

– e plataformas regionais de cooperação.

Objetivos

– ganhar escala produtiva;

– integrar logística;

– reduzir custos;

– compartilhar infraestrutura;

– ampliar coordenação regional.

Diretriz Estratégica Central

A nova industrialização brasileira não pode se limitar aos grandes corredores já consolidados.

Ela precisa alcançar:

– pequenas cidades;

– regiões rurais;

– territórios mineradores;

– cidades médias;

– e economias locais dispersas.

O objetivo não é apenas produzir mais.

É:

– reorganizar produtivamente o território;

– elevar a produtividade sistêmica;

– reduzir desperdícios;

– ampliar a agregação de valor;

– e transformar passivos dispersos em ativos econômicos.

Síntese Estratégica

Se o Plano de Metas dos anos 1950 buscou criar a base material da industrialização brasileira, o presente Plano busca construir a base territorial, ecológica e produtiva da industrialização do século XXI.

A reindustrialização interiorizada baseada no aproveitamento produtivo dos fluxos materiais brasileiros representa:

– uma nova fronteira do desenvolvimento nacional;

– uma estratégia de produtividade territorial;

– uma política de sustentabilidade ativa;

– e uma oportunidade histórica de reconectar industrialização, território e inclusão produtiva.

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