O relatório do gigante banco de investimentos Morgan Stanley sinaliza uma mudança de época: não apenas constata que as mulheres acumulam mais renda e patrimônio, mas mostra o crescente poder das mulheres de transformar o sistema.

Há momentos em que um simples relatório financeiro pode sinalizar o curso de uma mudança de época. O estudo sobre a SHEconomy do Morgan Stanley de março de 2026 (SHEconomy: Women’s Wealth Shift) parece ser um desses documentos. À primeira vista, trata-se apenas da constatação de que as mulheres acumulam mais renda, mais patrimônio, maior escolaridade e crescente poder de consumo. Não seria apenas uma mudança demográfica, mas a reorganização dos mercados consumidores com a passagem do capitalismo industrial para o capitalismo organizado em torno da individualização da vida, financeirização das relações sociais e mercantilização da própria reprodução humana.

Durante séculos, a economia moderna apoiou-se em uma divisão sexual do trabalho. Aos homens cabia o trabalho remunerado, em geral fora de casa e às mulheres, o trabalho gratuito e invisível do cuidado em casa, da reprodução e da manutenção cotidiana da vida. Como demonstrou Silvia Federici, esse trabalho nunca foi externo ao capitalismo. Ao contrário, constituiu uma de suas bases fundamentais, pois reproduzia gratuitamente a força de trabalho necessária ao sistema (O patriarcado do salário, 2021).

Essa arquitetura histórica, contudo, parece ruir. As mulheres estudam mais que os homens, ocupam parcelas crescentes das profissões qualificadas, adiam o casamento, reduzem a fecundidade e ampliam sua autonomia econômica. Nos Estados Unidos, estudos projetam que, até o final da década, cerca de 45% das mulheres entre 25 e 44 anos poderão estar solteiras e sem filhos. Em diferentes ritmos, esse fenômeno também avança na Europa, no Leste Asiático e na América Latina.

Não parece se tratar de “crise da família”, como frequentemente sugerem interpretações conservadoras, mas do esgotamento de um modelo histórico de organização da sociedade. Nancy Fraser descreve esse processo como uma crise da reprodução social (Crise do cuidado?, 2023). O capitalismo exige cada vez mais trabalho remunerado, produtividade e disponibilidade permanente, ao mesmo tempo em que destrói as condições necessárias para reproduzir a própria vida. O resultado é uma sociedade na qual o tempo para cuidar, formar famílias, criar filhos e envelhecer coletivamente torna-se escasso.

O crescimento das mulheres solteiras e sem filhos não constitui uma simples mudança de comportamento. Representa uma profunda transformação da reprodução social, cujo modelo patriarcal do trabalho gratuito realizado pelas mulheres dentro das famílias entra em crise. Nesse ponto é que emerge a SHEconomy, uma frente inteiramente nova com a expansão dos segmentos de moradia individual, turismo solo, saúde preventiva, bem-estar, educação continuada, investimentos personalizados, previdência privada, seguros, serviços digitais, alimentação personalizada, cuidados para idosos e até robôs destinados à companhia doméstica.

Enquanto a solidão converte-se em negócio, a longevidade transforma-se em ativo financeiro e o envelhecimento feminino passa a orientar bilhões de dólares em investimentos. Entretanto, há uma questão ainda mais profunda. Se o século XX foi marcado pela industrialização e pelo consumo de massa, o século XXI poderá ser caracterizado pela mercantilização das trajetórias individuais.

Cada escolha de vida como casar ou não, ter filhos ou não, morar sozinho, envelhecer sozinho, cuidar da saúde, investir o patrimônio converte-se em oportunidade de negócios. A SHEconomy revela exatamente isso. O novo poder econômico das mulheres servirá para construir uma sociedade mais igualitária ou será apenas mais um capítulo da expansão da financeirização da vida? A resposta definirá não apenas o futuro das mulheres, mas também o futuro do capitalismo no século XXI.

E é precisamente nesse contexto que emerge a SHEconomy. O que para os movimentos feministas representa uma conquista histórica por autonomia econômica, liberdade de escolha e independência, aparece para o capital financeiro como um gigantesco mercado em expansão. Wall Street identifica, por exemplo, oportunidades onde antes via apenas questões sociais. Cada mulher economicamente independente torna-se potencial investidora, consumidora de serviços financeiros, compradora de imóveis, usuária de planos de saúde, cliente de previdência privada, consumidora de turismo individual, educação continuada, plataformas digitais, tecnologias de bem-estar e produtos personalizados.

Nesse contexto, a emancipação converte-se em ativo financeiro. Uma extraordinária capacidade adaptativa do capitalismo financeiro de capturar valor adicional a partir da transformação das conquistas sociais em novas oportunidades privadas de rentabilidade. A SHEconomy parece ilustrar esse mecanismo, com avanços produzidos por décadas de lutas feministas que passam a ser apropriados como estratégia de expansão dos mercados.

Como mostrou Thomas Piketty, a riqueza tende a concentrar-se continuamente quando os rendimentos do capital crescem mais rapidamente que a economia (O capital no século XXI, 2014). A entrada massiva das mulheres nos mercados financeiros amplia sua autonomia patrimonial, mas não altera automaticamente os mecanismos estruturais de concentração da riqueza. A inclusão pode coexistir com a desigualdade, mesmo quando as mulheres ocupam posição central na transformação.

A liberdade conquistada convive com novas formas de pressão e autocobrança. Elas precisam ser profissionais bem-sucedidas, financeiramente independentes, emocionalmente equilibradas, fisicamente saudáveis, permanentemente qualificadas e socialmente conectadas. Em simultâneo, as estatísticas demográficas apontam à queda na taxa de fecundidade e maior idade para o primeiro filho, bem como a diminuição no casamento, a expansão dos domicílios unipessoais e a maior proporção da população idosa vivendo sozinha.

Cada um desses fenômenos pode ser interpretado como novos mercados, como a economia da solidão se tornando um dos setores mais dinâmicos do capitalismo contemporâneo. Moradias menores, seguros personalizados, inteligência artificial aplicada ao cuidado, plataformas digitais, turismo solo, assistência remota, monitoramento da saúde, robôs sociais, serviços por assinatura e investimentos voltados à longevidade movimentam trilhões de dólares.

Aquilo que era consequência da fragmentação social converte-se em oportunidade econômica. Mas existe um paradoxo histórico, uma vez que a maior autonomia feminina convive com menor taxa de fecundidade nas sociedades que mantêm elevados custos de moradia, educação, cuidado infantil e jornadas intensas de trabalho.  O problema, portanto, não reside na emancipação das mulheres, mas na incapacidade das instituições econômicas de reorganizar a reprodução social em bases compatíveis com essa nova realidade. É aqui que a discussão ultrapassa o feminismo e alcança a questão do desenvolvimento.

Os países que conseguirem combinar igualdade de gênero, políticas públicas robustas de cuidado, educação infantil universal, segurança econômica, redução das jornadas de trabalho e distribuição mais equilibrada do tempo social provavelmente enfrentarão melhor o desafio demográfico. Os que insistirem em transferir integralmente os custos da reprodução às famílias experimentarão envelhecimento acelerado, redução populacional, escassez de mão de obra e crescente dependência da imigração.

A SHEconomy é, portanto, muito mais do que um nicho de mercado. Ela representa a expressão econômica do capitalismo financeirizado em transição civilizatória. Se o século XX foi organizado em torno da fábrica, da família nuclear e do consumo de massa, assiste-se no primeiro terço do século XXI, a centralidade dos dados, plataformas digitais em concomitância com a longevidade, individualização e financeirização da vida.

A questão decisiva é política. O poder econômico conquistado pelas mulheres poderá impulsionar uma nova organização social baseada na igualdade, no reconhecimento da economia do cuidado e na ampliação dos direitos coletivos. Ou poderá ser absorvido por um capitalismo que transforma todas as dimensões da existência, inclusive a liberdade, a autonomia e a solidão, em novos ativos financeiros.

A SHEconomy não é apenas um fenômeno econômico. É um espelho das profundas contradições do capitalismo contemporâneo. Ela anuncia, simultaneamente, uma extraordinária conquista histórica das mulheres e a impressionante capacidade do capital de converter cada transformação social em uma nova fronteira de acumulação. Talvez seja essa a maior lição do tempo atual, referente ao capitalismo digital e financeirizado, quando a emancipação humana pode transformar-se em modelo de negócios.

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