Analisar o fenômeno da “dominância da política monetária” e o regime de metas de inflação sob a ótica da economia política é essencial para o entendimento da alternativa a ser construída para superar a convenção de política econômica dominante desde os anos 90 no Brasil. As falhas históricas e teóricas do dogma monetarista e da regra do juro neutro vão ser criticadas para que fique clara a centralidade conferida às taxas de juros de curto prazo pelos Bancos Centrais na função predominantemente ideológica e política: isolar as decisões econômicas da luta política, salvaguardar a autonomia do capital privado e reestruturar balanços, ativos e passivos,  do capitalismo oligopolista e financeirizado, em detrimento do uso de instrumentos fiscais e distributivos diretos.

O debate macroeconômico contemporâneo é profundamente marcado pela “dominância da política monetária”. Trata-se do arranjo institucional e ideológico segundo o qual o conjunto das políticas econômicas governamentais – inclusive a política fiscal e as estratégias de desenvolvimento industrial – deve se subordinar estritamente aos parâmetros fixados pelas autoridades monetárias, nomeadamente a definição da taxa básica de juros de curto prazo. Este paradigma se assenta sobre a premissa assumida como um dogma por economistas e gestores do mercado financeiro de que o manejo do custo do crédito (juro) representa a alavanca primária mais eficiente para controlar a inflação, regular a atividade econômica e equilibrar o nível de emprego.

Historicamente, essa hegemonia discursiva e operacional é herdeira da crise de estagflação dos anos 1970, período em que o monetarismo friedmaniano emergiu como resposta à derrocada do consenso neoclássico/keynesiano do pós-guerra. A proposta monetarista original pretendia conter o aumento geral de preços mediante o estrito controle da oferta de moeda. Contudo, a experiência prática da década de 1980, evidenciou o colapso dessa tese: enquanto a inflação nas economias centrais despencava, a oferta monetária continuou se expandindo a taxas elevadas. A desaceleração inflacionária do período Reagan (1981–1988)[1] resultou, na verdade, do desemprego em massa promovido pelo aperto monetário e da retração nos custos globais de energia, desnudando a incapacidade dos Bancos Centrais de gerenciar diretamente a quantidade de meios de pagamento em circulação.

Diante do fracasso prático do monetarismo quantitativo, o final da década de 1980 marcou a transição para um novo instrumento de intervenção: a manipulação da taxa de juros de redesconto cobrada das instituições financeiras comerciais. Essa virada metodológica coincidiu temporalmente com fatores estruturais globais que rebaixaram os preços de forma expressiva, em especial o deslocamento de cadeias produtivas para o Leste Asiático, em especial a China, e a consequente enxurrada de bens manufaturados de baixo custo nos mercados dos países desenvolvidos. Também coincide com a queda da URSS e a unilateralidade americana.

A convergência entre inflação baixa e o novo arcabouço institucional levou a que os economistas liberais e a grande mídia dominante aclamassem o modelo de Metas de Inflação como uma espécie de concepção mágica da política econômica. O dogma consolidou a ficção teórica da existência de uma “taxa neutra de juros” – uma taxa de equilíbrio hipotética, capaz de manter a economia em pleno emprego sem gerar pressões inflacionárias ou deflacionárias. O objetivo implícito dessa concepção consistia em despolitizar a gestão macroeconômica, substituindo os conflitos distributivos, a luta de classes, inerentes à repartição da renda salarial e aos custos de insumos por um cálculo técnico supostamente neutro.

A despeito da sofisticação econométrica aplicada pelos Bancos Centrais na previsão da inflação, a teoria ortodoxa de transmissão monetária padece de profundas incoerências lógicas e empíricas. O modelo convencional estabelece um nexo causal inverso: o aumento dos juros desestimularia o consumo e o investimento, reduzindo a demanda agregada e forçando a queda dos preços, ao passo que a redução dos juros produziria o efeito oposto. No entanto, a observação dos dados históricos invalida essa dinâmica mecânica. As taxas de juros (tanto as de redesconto dos Bancos Centrais quanto as praticadas no mercado comercial) tendem a apresentar comportamento pró-cíclico. Elas variam na mesma direção do ciclo econômico, e não de forma contraposta:

Fase de Expansão ⟹↑Atividade Econômica/Inflação⟹↑Taxa de Juros

Fase de Recessão ⟹↓Atividade Econômica/Inflação⟹↓Taxa de Juros

Esse comportamento pró-cíclico revela que as autoridades monetárias reagem ao ciclo econômico e à volatilidade dos preços de commodities e energia – como na crise de 2007–2009, na pandemia de COVID-19 ou no choque inflacionário de 2022 –, em vez de comandarem autonomamente o ritmo da atividade real.

Durante a longa estagnação que se seguiu à crise financeira internacional de 2007–2009, o colapso desse modelo ficou patente. Mesmo quando os Bancos Centrais reduziram as taxas nominais a zero (ou terreno negativo), a economia global não registrou uma reação expressiva dos investimentos privados. A tentativa da ortodoxia em justificar o fenômeno, alegando que a taxa “natural” havia se tornado profundamente negativa, apenas atesta o caráter tautológico da teoria: a incapacidade de reativar a economia por meio de juros baixos decorre do fato de que o motor da acumulação capitalista é a expectativa de lucro, a qual não pode ser artificialmente gerada por pura expansão monetária.

A desconstrução da dominância monetária exige resgatar a da abordagem heterodoxa, para demonstrar que a inflação é, prioritariamente, um fenômeno derivado das tensões no mercado de trabalho e da estrutura de custos dos bens primários, e não um simples desequilíbrio entre oferta e demanda monetária. A taxa de variação dos preços depende fundamentalmente de duas variáveis centrais:

– A razão entre os gastos de consumo e a oferta de bens de salário. Se o crescimento do investimento privado e do emprego elevar a massa salarial em ritmo superior à capacidade de produção e oferta de bens de consumo essencial, surgem pressões inflacionárias decorrentes do conflito distributivo.

– O custo das matérias-primas e energia: choques de oferta em insumos básicos alteram a estrutura de custos de toda a cadeia produtiva, repassando aumentos de preços independentemente da política de juros em vigor.

Essa formulação explica com rigor a evolução dos preços ao longo do último meio século. A desinflação observada a partir dos anos 1980 não resultou da sabedoria científica e política dos governadores dos Bancos Centrais, mas sim do aumento drástico do desemprego (que enfraqueceu o poder de barganha dos trabalhadores) e do barateamento relativo da energia. Na era pós-1990, a estabilidade de preços foi ancorada na integração de milhões de trabalhadores chineses ao mercado de trabalho global – exportando manufaturas a custos reduzidos – e na abundância de matérias-primas baratas. Por outro lado, as pressões inflacionárias pós-2022 derivam diretamente da desorganização das cadeias globais de suprimento e dos conflitos geopolíticos que afetaram a energia e os alimentos.

A única variável puramente monetária com impacto direto sobre a inflação em economias de crédito pós-padrão-ouro é a taxa de câmbio, na medida em que repassa variações nos custos de bens importados para a moeda doméstica. No entanto, o instrumento estabilizador decisivo das taxas de câmbio na periferia do sistema (Brasil) tem sido a rede de swaps operada pelo Federal Reserve americano e pelo Banco Central brasileiro, e não o manejo isolado das taxas de juros locais.

Nesse cenário, a taxa de juros assume uma relevância estritamente assimétrica. Para famílias trabalhadoras e pequenas e médias empresas, a alteração nos juros não funciona como elemento regulador do investimento produtivo, mas como fator de agravamento da transferência de renda. Enquanto os setores vulneráveis utilizam o endividamento informal ou de curto prazo como mecanismo de sobrevivência e gestão do consumo básico – sendo oprimidos pelo custo da dívida –, a grande corporação oligopolista utiliza o acesso ao crédito barato para fins predominantemente financeiros (financeirização).

A função política e ideológica do paradigma monetário pelo manejo da taxa de juros se mostra ineficaz para controlar as causas estruturais da inflação e para induzir o investimento produtivo em momentos de estagnação.  Então, qual é a função real da dominância da política monetária no capitalismo contemporâneo?

A resposta reside na dualidade entre os efeitos práticos da política monetária sobre a esfera financeira e o seu papel de salvaguarda política dos interesses do capital financeiro.

No plano estritamente econômico, a alteração das taxas de juros operada pelos Bancos Centrais atua diretamente sobre a estrutura de ativos e passivos do sistema financeiro sofisticado. Variações na taxa básica alteram a rentabilidade relativa entre dívida de curto prazo, títulos públicos, ações e derivativos. Assim, os anúncios de políticas de juros não modulam a economia real da produção e do emprego, mas desencadeiam intensas movimentações de refinanciamento de balanços corporativos (portfólios de ativos e passivos), fusões e aquisições e operações de engenharia financeira. A política monetária serve, prioritariamente, para garantir a liquidez e a rentabilidade do capital financeirizado e oligopolizado.

A função política assume o veto ao planejamento estatal e o isolamento do Banco Central (autonomia/independência). No plano político e ideológico, a preferência intransigente do empresariado e das elites econômicas pela política monetária em detrimento da política fiscal fundamenta-se na preservação da autonomia do poder privado ligada á autonomia do Banco Central.

A eficiência autônoma dos instrumentos diretos de gasto, a política fiscal, traduzida em gastos públicos em infraestrutura, oferta universal de serviços de saúde e educação, criação direta de empregos e regulação da jornada e do salário mínimo – demonstra eficácia imediata para alterar a atividade econômica, independentemente das decisões dos investidores privados.

O poder de veto do capital se mostra exatamente na autonomia do Banco Central para definir a política monetária, baseado na definição teórica e a estabilidade dos preços e da economia depende inteiramente da “fada confiança” do setor privado para se traduzir em investimento real. Ao alçar a taxa de juros à condição de único instrumento legítimo de intervenção macroeconômica, o sistema concede às grandes corporações e ao mercado financeiro o poder de vetar as políticas públicas: caso as ações do Estado ameacem a rentabilidade do capital (por meio de impostos ou fortalecimento do poder salarial), a “fada confiança” desmorona e o investimento é retido.

A mística construída em torno dos Bancos Centrais pela grande mídia aliada do capital e a sua reverência às decisões dos comitês de política monetária (como o FOMC nos EUA ou o Copom no Brasil) desempenham o papel de ocultar a natureza política dessas decisões. Ao apresentar o combate à inflação como uma tarefa puramente técnica, neutra e científica, a classe dominante retira do escopo do debate público e do voto popular as escolhas essenciais relativas à distribuição funcional da renda, ao nível de emprego e ao financiamento do bem-estar social. É a mais pura expressão da luta de classes, estúpido.

O regime de metas de inflação e a centralidade absoluta das taxas básicas de juros constituem um arranjo funcional à preservação do capitalismo financeirizado e oligopolista à esfera mundial.

As narrativas de que a autoridade monetária pode conduzir suavemente a economia ao pleno emprego e à estabilidade de preços por meio de “ajustes finos” na taxa de redesconto carecem de sustentação teórica e empírica. Quando a economia real enfrenta a estagnação, a ineficácia da política monetária é classificada pelos teóricos ortodoxos como uma “quebra no mecanismo de transmissão”, escondendo o fato de que a acumulação de capital depende de expectativas de lucro real e de horizontes de demanda que o mero custo do crédito é incapaz de criar.

A superação do quadro de estagnação econômica, precarização social e degradação ambiental não virá da busca ilusória por uma “taxa neutra de juros” ou da benevolência de banqueiros centrais tecnocratas. Isto é o verdadeiro obstáculo à prosperidade coletiva, à garantia de serviços públicos universais e a um planejamento socioambiental sustentável. Nada disso reside na margem de variação das taxas de juros, mas nas contradições estruturais da própria lógica de acumulação capitalista. De novo, é a luta de classes, estúpido.

Nota:

  • Referências para a elaboração do texto: Monetary Policy and Capitalism by Jan Toporowski Vol. 78, No. 03 (July-August 2026) View in the MR Archives: Article | Issue: The Global Structural Crisis of Capital by John Bellamy Foster Issue: Vol. 78, No. 03 (July-August 2026)View in the MR Archives: Article | Issue; Belluzzo, L. G. Economia e Política. Valor Econômico/Opinião 04/08/2026 https://valor.globo.com/opiniao/coluna/economia-e-politica.ghtml e Lara Resende, A. A hipertrofia da riqueza financeira é a inflação do século XXI, ago 04, 2026. Substack.
  • [1] O governo de Ronald Reagan ocorreu entre 20 de janeiro de 1981 e 20 de janeiro de 1989.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “Alerta Estratégico: O peso financeiro da dívida nas contas da União”, por Antonio Prado.