Enquanto a apologia da morte e da indiferença humanitária era exibida na tela, como espetáculo, a voz do bêbado sussurrava baixinho, “Aripuru…”

É difícil saber quando e onde nasceram as lendas. São conhecidas por tantos e há tanto tempo que a impressão que se tem é de que sempre existiram. Que não nasceram. Nem morrerão. Simplesmente sempre foram e serão sempre.

Mas certa vez, nas profundezas dos becos mais sujos de uma grande cidade, entre um gole e outro de cerveja entremeados por nacos de frango à passarinho, ouvi de um mais bêbado do que eu a lenda do Aripuru, que parecia ser entidade bem recente. Coisa do nosso tempo ressentido.

Como em todas as lendas contadas por bêbados, Aripuru realmente existia. Ele mesmo, antes de naufragar na bebida, o viu várias vezes. Não me disse assim, com todas as palavras, mas entendi que foram os encontros com o Aripuru que o arrastaram para a bebida.

Como que por mágica, Aripuru muda seu corpo. Cada vez que se vê tem cabelos, boca, olhos e idades diferentes. Mas apesar da casca, a alma é sempre a mesma. Sempre o mesmo Aripuru disfarçado em corpos diferentes. Fundamentalmente, Aripuru é um dissimulador, mentiroso daqueles que mentem sem demonstrar nenhum receio da verdade aparecer de repente.

Como qualquer enganador, seja em qual corpo ele aparecer, sempre exibe nas formas e falas o contrário do que quer e faz. Foi quando percebeu isso que o bêbado aprendeu a reconhecê-lo.

Passou a vê-lo vestido de cristão cheio de preconceitos, fúria, maledicências e uma devoção religiosa ao dinheiro. O percebeu rapidamente em seu disfarce de político conservador cuja única coisa que realmente buscava preservar era o poder de realizar seus desejos inconfessáveis.

Uma vez, quase lhe enganou, disfarçado de bom moço que denunciava violentamente a violência contra gente que achava tão inferior a ele ao ponto de achá-los incapazes de pensarem, agirem e se defenderem por conta própria. Ou do sujeito cheio de falas politicamente corretas e profundamente preocupado com o falar alheio. Denunciante de falas corriqueiras como se fossem perversidades morais conscientes. “São muitos os ardis do Aripuru!”, disse o bêbado virando num só gole o corpinho de pinga.

Com um olho quase fechado e outro quase aberto, olhou fundo nos meus olhos. “Entendeu? Hum?… Viu? Ele está em todo lugar… Não aguento mais ele. Ele me persegue… Ele não me larga…”. Achei que este seria o ponto final de seu monólogo, mas ao desviar seu olhar profundo, como quem voltaria à tranquilidade alienada da embriaguez, arregalou os dois olhos, espantado com algo que via sobre o meu ombro. Apenas disse baixinho, “é ele!…”.

Deixando a discrição de lado, olhei rápido para trás. Meu corpo embriagado e meio afetado pelo olhar de medo do bêbado cambaleou chamando atenção. Não havia ninguém. Apenas uma mesa vazia e uma televisão fixada à parede por um braço articulado.

Olhei de volta o bêbado já pensando na hipótese de um Aripuru mais sobrenatural que um engravatado hipócrita. Seu olhar ainda era de medo. Fixo em algum para além de meu corpo. Segui o olhar. Apontava para a tv.

Na tela, o noticiário mostrava um jornalista engravatado e com ar indignado com imagens do presidente americano ao fundo, aviões militares, pessoas desabrigadas, escombros de guerra, gente faminta e mais engravatados gordos dando coletivas de imprensa com ar petulante.

Enquanto a apologia da morte e da indiferença humanitária era exibida como espetáculo, a voz do bêbado sussurrava baixinho, “Aripuru…”.

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Ilustração: Mihai Cauli
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