A terceira configuração histórica da globalização recoloca o Estado nacional como espaço decisivo das políticas.

A história da globalização costuma ser narrada como a expansão dos mercados. Uma de suas dimensões importantes, contudo, encontra-se também na transformação das formas de organização política. A primeira grande onda da globalização, constituída sob a hegemonia liberal britânica entre o final do século XIX e o início do século XX, caracterizou-se não apenas pela crescente integração comercial e financeira, mas também pela internacionalização das ideias e dos projetos políticos.
Naquela oportunidade, o capitalismo atravessava fronteiras e as diferentes concepções de sociedade faziam movimento semelhante. A divisão política entre esquerda e direita, originária da Revolução Francesa de 1789, adquiriu progressivamente expressão internacional. Correntes socialistas e comunistas organizaram suas Internacionais, ao passo que diferentes vertentes conservadoras e nacionalistas estabeleceram redes intelectuais e políticas transnacionais como a Igreja Católica que respondeu à questão social por meio da encíclica Rerum Novarum, de 1891, com a formulação de uma doutrina de alcance internacional.
Um contexto político que tendia a interpretar as transformações econômicas por meio da oportunidade do avanço de grandes projetos para as sociedades, sobretudo naquelas que se encontravam em transição do agrarismo para a urbanização e atividade industrial. À constituição de uma economia cada vez mais internacionalizada correspondia também um conjunto de diferentes tentativas de organizar politicamente o mundo a partir de princípios, instituições e ideologias de pretensão universal.
A segunda grande onda de globalização, impulsionada a partir do neoliberalismo das últimas décadas do século XX e acompanhada pela centralidade econômica e tecnológica dos Estados Unidos, produziu uma configuração diferente. A integração financeira, a formação de cadeias globais de produção, a revolução digital e a expansão das corporações transnacionais avançaram simultaneamente ao enfraquecimento de várias das antigas estruturas políticas e ideológicas internacionais.
As organizações políticas que anteriormente buscavam coordenar suas estratégias em escala mundial perderam parte de sua centralidade. Paralelamente, instituições religiosas e organizações sociais internacionais passaram a conviver com novos atores, redes digitais e formas descentralizadas de mobilização e identitarismo. A política contemporânea passou, assim, a combinar conexões transnacionais com crescente valorização das identidades nacionais, culturais e territoriais.
Esse movimento pode ser observado por distintas correntes políticas. Nas direitas contemporâneas, partidos e lideranças de diversos países passaram, por exemplo, a compartilhar temas, estratégias de comunicação e formas de mobilização por intermédio das redes digitais, embora suas plataformas permaneçam fortemente estruturadas em torno das circunstâncias nacionais. Trata-se de uma articulação internacional distinta das antigas organizações ideológicas centralizadas que marcaram parte dos séculos XIX e XX.
Transformação semelhante, ainda que com conteúdos políticos diferentes, pode ser observada nas experiências progressistas. Em diversos países, elas passaram a formular respostas às condições econômicas, sociais e institucionais específicas de cada sociedade, em vez de reproduzir um modelo político internacional relativamente convergente.
No Brasil, algumas experiências na administração federal das primeiras décadas do século XXI apresentaram políticas de ampliação do mercado interno, transferência de renda, valorização do trabalho, expansão educacional e fortalecimento de determinados instrumentos de atuação estatal. Independentemente da avaliação política de seus resultados, essas experiências podem ser compreendidas como respostas formuladas diante de características históricas da economia e da sociedade brasileira em meio ao avanço da segunda onda de globalização capitalista.
Processos igualmente específicos ocorreram em outras partes da América Latina que procuraram reconstruir instrumentos de intervenção estatal e reorganizar políticas econômicas e sociais. Mais do que configurar um modelo comum, essas experiências evidenciam uma transformação na própria organização da política contemporânea. Tanto à direita quanto à esquerda, projetos políticos passaram a depender crescentemente da capacidade de interpretar particularidades históricas, culturais, econômicas e institucionais de cada país.
Essa nacionalização dos projetos políticos não implica necessariamente isolamento internacional. Ao contrário, a cooperação pode ocorrer entre Estados que preservam diferentes estratégias nacionais de desenvolvimento. Países com estruturas produtivas distintas podem conferir prioridades diferentes à industrialização, aos recursos naturais, à integração produtiva, à proteção social, à inovação tecnológica ou à transição ecológica.
A diversidade das estratégias nacionais torna-se ainda mais relevante diante das transformações do século XXI. Mudanças climáticas, inteligência artificial, plataformas digitais, tributação de corporações transnacionais, segurança de dados e transição energética são problemas que ultrapassam as fronteiras nacionais, mas cuja administração depende, em grande medida, da capacidade institucional dos Estados.
Surge daí um aparente paradoxo. Quanto mais interdependente se torna a economia mundial, maior pode ser a importância da capacidade nacional para responder a essa interdependência. A cooperação internacional permanece necessária, mas dificilmente poderá prescindir de Estados capazes de formular estratégias, desenvolver instituições e negociar interesses em um sistema internacional crescentemente complexo.
No campo progressista, essa transformação permite formular uma hipótese histórica. Em lugar da reconstrução de uma Internacional semelhante às organizações do final do século XIX e início do XX, podem ganhar importância as redes menos centralizadas de cooperação entre governos, instituições, universidades e organizações sociais, articuladas em torno de temas específicos, como desenvolvimento, tecnologia, políticas sociais, meio ambiente e financiamento da transição energética.
A soberania, nessa perspectiva, deixa de significar necessariamente isolamento. Pode ser compreendida como a capacidade de cada sociedade responder ao processo de globalização neoliberal com sinais de crescente esgotamento, a partir de instituições nacionais capazes de definir prioridades e estabelecer formas de cooperação internacional.
Tal processo sugere a possibilidade de uma terceira configuração histórica da globalização. A primeira esteve associada à internacionalização liberal dos mercados, acompanhada por grandes universalismos ideológicos. A segunda onda neoliberal da globalização terminou por aprofundar a integração econômica, financeira e tecnológica sob forte protagonismo dos mercados globais.
A terceira – que se encontra atualmente em formação reativa ao neoliberalismo – parece combinar, de maneira ainda contraditória, interdependência econômica, competição geopolítica, fortalecimento da escala nacional e novas formas possíveis de cooperação internacional. A experiência em curso no âmbito do Sul Global, especialmente assentada nos países do Oriente indica novidades desconhecidas, pelo menos nos últimos cinco séculos.
Nesse cenário, as experiências políticas nacionais (progressistas, conservadoras ou de outras orientações) passam a constituir objetos relevantes para compreender como diferentes sociedades procuram responder às transformações globais. Mais do que indicar a existência de um modelo universal, revelam a multiplicação de estratégias nacionais diante de problemas que permanecem mundialmente interdependentes.
A questão central do século XXI talvez não esteja, portanto, na oposição simples entre nacionalismo e globalização. O desafio histórico encontra-se em compreender como sociedades nacionais, inseridas em uma economia mundial profundamente integrada, reorganizam seus Estados, suas instituições democráticas e suas estratégias de desenvolvimento frente ao avanço da era digital.
A globalização pode ter se tornado mais intensa justamente no momento em que suas antigas Internacionais perderam centralidade. O resultado não é o desaparecimento da política internacional, mas uma transformação de sua arquitetura, com uma globalização econômica e tecnológica que recoloca a questão do Estado nacional como espaço decisivo de organização, negociação e construção política.
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também A obsessão norte-americana com a hegemonia mundial, de Marcos Grillo.






