Aos berros, existe um olho mágico capaz de reconhecer padrões, perceber movimentos e entender como estratégias antigas podem reaparecer.

 “Em que momento o Peru se fodeu?”

A pergunta que abre Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa, talvez seja uma das perguntas mais poderosas da literatura latino-americana porque ela não procura apenas uma resposta sobre o Peru. Ela tenta encontrar aquele instante quase invisível em que uma sociedade começa a aceitar mudanças, rupturas e deteriorações que, anos depois, parecem óbvias quando olhadas pelo retrovisor da história. O problema é que nenhum país recebe um aviso de que está atravessando uma fronteira perigosa. Não existe uma placa anunciando que uma democracia começou a perder sua força, que instituições estão sendo corroídas ou que determinados discursos estão preparando o terreno para algo maior.

É importante separar o homem da obra. O escritor peruano Mario Vargas Llosa, hoje associado à extrema direita, construiu uma literatura profundamente preocupada com os mecanismos do poder, com a fragilidade das instituições e com a maneira como sociedades inteiras podem caminhar para lugares sombrios sem perceber exatamente quando começaram esse caminho.

A literatura latino-americana sempre teve essa capacidade quase incômoda de perceber antes dos arquivos aquilo que os arquivos depois confirmariam. Ela entendeu que o poder não se manifesta apenas em discursos oficiais, em palácios ou em decisões tomadas por governos. Ele aparece também na construção de narrativas, na manipulação de medos, na criação de inimigos e na maneira como sociedades inteiras passam a enxergar a si mesmas e aos outros. Ela entende que a narrativa é tão protagonista em nossas circunstâncias quanto a história e os fatos em si.

Diante do pelotão de fuzilamento

Gabriel García Márquez transformou Macondo em uma metáfora de um continente preso entre memória e esquecimento, entre ciclos de esperança e de destruição. Aureliano Buendía, diante do pelotão de fuzilamento, lembrando do momento em que tudo começou, representa justamente essa dificuldade humana de compreender o presente enquanto ele ainda está acontecendo. Muitas vezes só percebemos os sinais quando eles já fazem parte da história.

É por isso que olhar para o passado não é fazer uma autópsia arqueológica. Não se trata de abrir o corpo morto de uma época para descobrir uma causa única, como se a história pudesse ser reduzida a um diagnóstico simples. Trata-se de identificar padrões, compreender mecanismos e observar como determinadas estratégias sobrevivem, se adaptam e reaparecem em novos contextos.

A autopsia de uma intervenção

E é justamente por isso que os documentos desclassificados da CIA, sobre intervenções na América Latina, são tão importantes. Quando esses documentos deixam de ser secretos, eles mostram algo que muitas vezes desaparece dos discursos públicos: a linguagem real do poder. Eles mostram que uma intervenção não precisa começar com soldados desembarcando em uma praia ou tanques atravessando uma fronteira. Ela começa antes, na economia, na comunicação, na disputa pela informação, na criação de percepções e na tentativa de reorganizar o ambiente político de um país. A história mostra que dividir para conquistar nunca foi apenas uma frase perdida em algum rodapé de teoria militar. Principalmente se analisamos as intervenções dos EUA nesta porção de mundo.

A pergunta, então, não é se a história vai se repetir exatamente como antes. A pergunta é se estamos atentos o suficiente para reconhecer quando mecanismos conhecidos aparecem novamente.

A anatomia de uma intervenção

Observemos a anatomia de uma intervenção. A Guatemala talvez seja um dos exemplos mais claros de como uma intervenção pode ser construída muito antes de qualquer mudança oficial de governo. Em 1954, o governo de Jacobo Árbenz foi derrubado após a operação PBsuccess, conduzida pela CIA, em uma ação que combinou pressão política, propaganda, guerra psicológica e apoio a forças internas contra o governo guatemalteco.

Durante décadas, o episódio foi apresentado como uma crise exclusivamente interna, como se a queda de Árbenz fosse resultado apenas das disputas políticas do país. Mas os documentos desclassificados pelo governo estadunidense revelam uma operação planejada em diferentes frentes, com estratégias voltadas para enfraquecer a imagem do governo, criar uma percepção de instabilidade e produzir um ambiente político no qual sua queda pudesse ser apresentada como inevitável.

A documentação da operação PBsuccess mostra a importância dada à guerra psicológica, à propaganda e ao controle da informação. A Rádio Liberação, por exemplo, fazia parte desse esforço: uma emissora clandestina criada para transmitir mensagens contra o governo de Árbenz e construir a percepção de que existia uma grande força organizada contra o presidente guatemalteco. A batalha acontecia também no imaginário da população. Como hoje ela acontece na internet e com as fakenews.

A Guatemala mostra um mecanismo que reaparece diversas vezes na história da América Latina: a construção de uma crise de legitimidade, a amplificação de divisões internas e a tentativa de transformar uma disputa política em uma sensação de colapso inevitável.

A história não se repete como uma cópia. Ela muda de roupa, muda de tecnologia, muda de linguagem. Mas determinados métodos sobrevivem.

Faça a economia berrar

O Chile revela outro capítulo dessa lógica. Os documentos desclassificados sobre a atuação dos Estados Unidos durante o governo de Salvador Allende mostram uma preocupação explícita com o rumo político do país e uma disposição em utilizar diferentes instrumentos de pressão para aumentar as dificuldades enfrentadas pelo governo chileno.

Entre os episódios mais conhecidos desse período está a expressão “make the economy scream”, associada às discussões internas do governo de Richard Nixon sobre a estratégia de pressão econômica contra o Chile. A frase se tornou um dos símbolos mais fortes desse período justamente porque transforma a economia em uma ferramenta de disputa política. Não se trata apenas de uma crise econômica acontecendo por acaso, mas da compreensão de que dificuldades econômicas podem ser utilizadas para aumentar a pressão sobre um governo.

A força dessa expressão está na sua brutalidade. “Faça a economia berrar” não é uma frase sobre números, mercados ou indicadores abstratos. É uma frase sobre pessoas, sobre sociedades e sobre o impacto que uma crise econômica produz na vida cotidiana. A economia, assim como a comunicação, também pode ser uma arena de disputa. Que dizer, por exemplo, das famigeradas tarifas…

A intervenção não precisa começar com tanques atravessando fronteiras. Ela pode começar muito antes, na disputa pela informação, na pressão econômica, na construção de narrativas e na tentativa de moldar a percepção pública.

E é justamente por isso que olhar para o presente exige cuidado. É uma pergunta incômoda: estamos diante de fenômenos completamente novos ou estamos vendo velhos mecanismos reaparecerem com novas ferramentas?

Construindo um vilão para chamar de seu

A Nicarágua é outro capítulo dessa história que a América Latina insiste em contar, mas que muitas vezes prefere esquecer. Porque a disputa pelo poder nunca acontece apenas no campo político. Antes de uma sociedade aceitar uma ruptura, antes de um governo ser isolado, antes de uma intervenção ganhar uma justificativa moral, existe uma batalha anterior: a batalha para definir quem é o inimigo.

Mas talvez o ponto mais revelador esteja justamente no que esses episódios mostram sobre a construção de uma narrativa. A guerra não era apenas contra um governo. Era também uma guerra sobre como aquele governo seria visto pelo mundo, sobre quais palavras seriam usadas para descrevê-lo e sobre quem teria o poder de definir a realidade.

Em um documento da CIA publicado em 1983, aparece uma avaliação sobre as dificuldades enfrentadas pelos grupos de oposição apoiados pelos Estados Unidos e sobre os limites de uma estratégia que dependia tanto da pressão política quanto da ação militar indireta.

Porque esse é um dos elementos que se repetem: uma intervenção raramente é apresentada como intervenção. Ela aparece como defesa da democracia, combate a uma ameaça, proteção de interesses estratégicos ou resposta a uma crise. A linguagem muda. O mecanismo, muitas vezes, permanece.

O Brasil e a legitimidade fabricada

O Brasil também faz parte dessa história. Os documentos diplomáticos desclassificados sobre 1964 mostram a preocupação dos Estados Unidos com o governo João Goulart e o acompanhamento próximo da crise política brasileira.

Um telegrama do Departamento de Estado dos Estados Unidos, de março de 1964, fala em apoiar um “representative and constitutional government in Brazil” e menciona preocupações com o rumo político do país. A documentação mostra que Washington acompanhava a crise brasileira e avaliava diferentes cenários diante da possibilidade de uma ruptura institucional.

A frase é reveladora porque mostra um dos pontos centrais de qualquer disputa de poder: não basta agir. É preciso construir a justificativa para a ação.

A pergunta deixa de ser apenas “quem venceu?”. A pergunta passa a ser: quem conseguiu convencer o mundo de que aquela vitória era necessária?

E é aqui que o passado começa a conversar perigosamente com o presente. Porque, quando olhamos para uma época em que comunicação, influência e disputa narrativa se tornaram armas políticas, a pergunta que fica é se estamos diante de uma novidade ou se estamos vendo velhos métodos reaparecerem com novas ferramentas.

O abismo olha de volta

Será que as brigas, as rupturas e as chamadas tretas diplomáticas que vemos hoje na América Latina são apenas acontecimentos isolados ou estamos diante de uma repetição de padrões que a história já tentou nos mostrar?

A pergunta não é confortável porque exige abandonar a ingenuidade de achar que o mundo funciona apenas por declarações oficiais e discursos públicos. Países têm interesses. Grandes potências têm interesses. E a disputa pela influência nunca deixou de existir.

A história da América Latina mostra que os Estados Unidos atuaram diversas vezes em sua área de influência, utilizando diferentes instrumentos: pressão política, operações de inteligência, influência econômica e disputa narrativa.

O desafio é reconhecer esses movimentos sem transformar toda realidade em uma explicação única. Porque a própria história mostra algo mais complexo: sociedades também têm conflitos internos, elites locais, interesses próprios e escolhas que moldam seus destinos.

Mas ignorar a história também tem um preço.

Porque talvez estejamos olhando para o abismo. E talvez o mais assustador seja perceber que o abismo está olhando de volta para nós. Os Estados Unidos só ganham guerras em Hollywood.

Hollywood adora vender a imagem do soldado americano como um herói inevitável. Funciona muito bem no cinema, onde a música cresce, a bandeira aparece em câmera lenta e os créditos sobem no momento certo. A realidade, porém, raramente aceita roteiro.

Quando Hollywood vende um herói, costuma esconder quem existe por baixo do capacete. O soldado americano raramente parece o Rambo dos filmes. Muitas vezes, a imagem é muito mais prosaica: um garoto redneck, sem perspectiva, acocorado na porta de um 7-Eleven, olhando os carros abastecerem no posto de gasolina com um copo de Mountain Dew em uma mão e um cachorro-quente na outra.

A maior guerra que aquele menino deveria estar enfrentando ainda era contra a acne. Então aparece alguém oferecendo um sonho embalado em um slogan: Be All You Can Be. Viajar. Conhecer o mundo. Encontrar um propósito. De repente, ele está do outro lado do planeta, em um país que mal conseguiria apontar no mapa, dentro de uma guerra cuja história nunca estudou e cujas razões nunca ajudou a formular. Quando volta, se volta, pode ser dentro de um caixão coberto por uma bandeira, acompanhado de uma medalha que consola muito mais quem ficou do que quem morreu.

Vinte anos depois, a despedida do Afeganistão não ficou registrada apenas em discursos oficiais ou pronunciamentos presidenciais. Ficou registrada nas imagens de pessoas correndo atrás de um avião militar, agarradas ao trem de pouso em uma tentativa desesperada de escapar e despencando segundos depois da decolagem.

Há imagens que resumem uma época inteira. As cenas da retirada de Cabul talvez sejam uma delas. Pessoas tentando fugir agarradas à estrutura de um avião, sem saber o que viria depois, revelavam o abismo entre a promessa de uma intervenção e o país que permanecia quando os soldados iam embora.

É por isso que certas fotografias sobrevivem às versões oficiais dos acontecimentos. Elas permanecem porque carregam perguntas que continuam sem resposta: o que ficou para trás depois da retirada? Quem reconstruiu o que foi destruído? Quem pagou o preço mais alto? E quem seguiu em frente quando as câmeras foram embora?

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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