Integro o mundo dos sonhadores, dos que escrevem por um mundo melhor.

Setembro é o mês dos ventos, dos moinhos de vento, dos sonhadores com a primavera após o gélido inverno. Os pássaros cantam, se acasalam, as flores com cores encantam, tudo renasce, tempos quixotescos. Caminhamos animados, com graça, os velhos amigos fazem as pazes, as famílias se encontram, a esperança retorna de uma longa viagem, o mundo sonha. Imagino um mundo poético, onde o poeta orienta nas curvas e retas, e os humoristas divertem, afinam o sentido de humor que maravilha a Terra graciosa e poética.

Tudo vai muito bem, quando aparece um tsunami, um choque traumático, e novamente a ingenuidade, o velho calcanhar de Aquiles dos sonhadores. Os que só têm um sonho, sempre o mesmo, levam vantagem, pois eles só querem a vitória a qualquer custo, a qualquer mentira, e são os únicos que deliram com o dinheiro e o poder. Pagam o que for preciso para desprezar os sonhadores, não querem saber de uma Terra para toda a humanidade. Não respeitam as diferenças entre os povos, as religiões, agnósticos e materialistas. Os que têm só o norte do poder a qualquer morte não são poetas, desprezam o humor, estão casados com os cifrões, odeiam o povo, o povão. Desprezam a saúde pública, o público, são os donos dos aeroportos, e adoecem quando pobres invadem os aviões.

Setembro é também amarelo, amarelo da prevenção do suicídio, e pergunto se não seria masoquismo meio suicida quando uma boa parte do povo vota contra seus interesses.

O mundo, às vezes, fica seduzido pela destruição, e aí se instalam o fascismo, o nazismo, o estalinismo, as ditaduras militares. Aí lembro a pergunta feita em 1929 por Freud no finalzinho do “Mal-estar na cultura” sobre quem vencerá entre a educação e a cultura de um lado e a crueldade do outro. Essa é uma questão sem resposta ainda, ela segue presente e seguirá, pois não se sabe ainda o vitorioso.

Duas perguntas ao nosso setembro: uma é sobre nossas relações após a crise terrível da pandemia, se vamos equilibrar o mundo virtual com o real, e criar espaços de convivência para conversar. Outra pergunta é se nas eleições que se avizinham vencerão os amigos da democracia ou seus inimigos íntimos, que idealizam a ditadura militar, o AI-5, a tortura e o assassinato de trinta mil pessoas, como ocorreu na Argentina? Não sei, mas nosso mundo já foi pior e já foi melhor, e o amanhã é sempre uma aposta, um sonho.

Sonho com a primavera que bate à porta e sonho com o fortalecimento da democracia aqui e no mundo. Integro o mundo dos sonhadores, dos que escrevem por um mundo melhor cuja bandeira tem cores esperançosas. Votar a favor do povo brasileiro, votar num mundo de educação e cultura contra a crueldade, esse é o norte quixotesco. Sim, sou sonhador, adoro os sonhos. O jogo entre a educação e a cultura contra a crueldade será sempre difícil, a guerra avança, há pesadelos à vista. Ainda assim, não convém se desesperar, é preciso torcer e empurrar o time da poesia e da alegria, mudar para melhor, desanimar jamais. Sonho com a primavera vitoriosa, pois o amanhã se constrói com o sonho de hoje.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone

Leia os artigos:  Bola de Cristal“, de Cláudia Laitano e A cortina de fumaça e o que realmente está em jogo na eleição de 2026“, de Ignacio Godinho Delgado.