
Poucas medidas reuniam, no papel, tantas condições para produzir dividendo político quanto a ampliação da isenção do Imposto de Renda. Comparável, apenas, ao fim da escala 6×1, cuja votação o Congresso adiou para depois das eleições. A mensagem era curta, o efeito chegava ao contracheque e a lógica distributiva tributária era de fácil compreensão: quem ganha até R$ 5 mil deixa de pagar, entre R$ 5 mil e R$ 7.350 a redução é decrescente e, na outra ponta, a mesma lei criou tributação mínima para pessoas físicas de alta renda.
A premissa não era retórica. Em outubro de 2025, ainda durante a tramitação, uma pesquisa da Quaest registrava que 67% de brasileiros diziam conhecer a proposta, dentre os quais 79% eram a favor da isenção até R$ 5 mil e 17% contrários, e 64% de concordância com a cobrança de 10% sobre rendimentos anuais acima de R$ 600 mil para compensar a renúncia. Raramente uma medida tributária reúne apoio majoritário simultâneo ao benefício e ao financiamento progressivo: o consenso existia inclusive sobre a parte que aumentava o imposto para uma parte da população. Todavia, a conversão política esperada não apareceu.
A série mensal da Quaest mostra o porquê. Em outubro de 2025, antes da vigência, 41% esperavam melhora importante na renda e 49%, melhora pequena. Em fevereiro de 2026, com os primeiros contracheques ajustados, 30% afirmavam terem sido beneficiados contra 67% que diziam não ter sido. Esse cenário quase não se mexeu desde então: 31% em março e abril, 32% em junho, 30% em agosto.
Sabemos que a comparação desses números exige cuidado, porque são amostras independentes e a pergunta muda de expectativa para experiência. Ainda assim, não é impossível inferir que o desalinhamento é estável: o público que se imaginava alcançado é o dobro do que se reconhece alcançado.
Encadeadas, as duas perguntas produzem o número que melhor resume o problema. Como a pergunta sobre impacto na renda é feita apenas a quem se declarou beneficiado, o alcance percebido efetivo é o produto das duas: em agosto de 2026, cerca de 16% do eleitorado combinava dizer-se beneficiado com perceber algum aumento de renda, e apenas 6% percebiam aumento significativo. A ordem de grandeza é inequívoca: a política nasceu com 79% de apoio e chegou ao contracheque como ganho expressivo para algo entre cinco e oito de cada cem brasileiros.
Entre quem se reconhece como beneficiado, houve por alguns meses uma melhora que o governo pode ter lido como maturação da medida: a parcela que relatava aumento significativo saiu de 15% em fevereiro para 21% em maio, 23% em junho e 24% em julho. Em agosto, a curva virou: caiu para 21%, e a parcela que diz não sentir diferença alguma saltou de 39% para 46%. Sete meses depois da vigência, quase metade dos próprios beneficiados não identifica efeito na renda.
Nesse cenário, uma análise rasa apontaria erro de comunicação. Mas a pergunta que interessa é outra: por que uma política que corta imposto pode existir, incidir sobre o bolso e ainda assim não ser reconhecida por quem a recebe?
Entre uma lei tributária e um voto há pelo menos quatro etapas: ser alcançado pela medida, obter ganho que sobreviva à inflação, perceber esse ganho e atribuir sua autoria. Nenhuma garante a seguinte.
A primeira ruptura não é de percepção. É de alcance. O FGV Ibre calcula 21,6 milhões de beneficiários potenciais, mas a isenção e a redução só se aplicam na prática a quem tem vínculo CLT e tem o imposto retido na fonte: os informais ficam de fora e os autônomos formais só sentirão o efeito em 2027, ao declarar. O contingente alcançado em 2026 cai de fato para 8,8 milhões de pessoas.
A segunda ruptura está no tamanho do que sobra. Pelos cálculos do Ibre, quem recebe R$ 3.500 ganha R$ 39,80 por mês, ou 1,1% da renda; o pico está em R$ 5 mil, com R$ 312,90, equivalentes a 6,3%, e a partir daí o ganho decresce até se tornar quase irrelevante acima de R$ 7 mil. Quem recebia até dois salários mínimos já era isento desde 2025 e não ganhou nada novo.
Some-se a isso o fato de que com inflação acima de 4%, o ganho fica abaixo da alta de preços em quase todas as faixas: dos 8,8 milhões alcançados, apenas 1,7 milhão teve ganho real. Num país com mais de 100 milhões de ocupados, esse é o tamanho verdadeiro da medida.
Isso reposiciona a pergunta inicial. Quando dois terços dos brasileiros dizem não terem sido beneficiados, a hipótese mais simples não é que não perceberam. Ao contrário, a realidade dos números mostra que na prática eles efetivamente podem não ter sido beneficiados.
E há um teste para ela: se o universo alcançado em 2026 é da ordem de 8,8 milhões, os 30% que se dizem beneficiados (perto de 45 milhões de adultos) já excedem o contingente que a lei pode ter atingido. Portanto, não há estoque oculto de contemplados esperando ser informado. Com isso, uma campanha de esclarecimento tenderia a reduzir, e não a aumentar, o número de brasileiros que se dizem alcançados.
Só depois disso vem a ruptura de que todo mundo fala, e ela é real. Para quem de fato foi alcançado, deixar de pagar não tem a visibilidade de receber. Uma transferência depositada na conta chega com valor, data e origem, e pode ganhar nome, notificação e campanha publicitária. O imposto que deixa de ser retido desaparece dentro do salário líquido e, em poucas semanas, virou supermercado, conta de luz ou parcela de financiamento. O benefício continua existindo. A memória dele, não.
Isso não é detalhe de comunicação, mas característica do instrumento. Benefícios entregues por renúncia fiscal são estruturalmente menos rastreáveis do que os entregues por transferência direta: quem desenha a política escolhe, junto com o valor, o grau de visibilidade que ela terá. Visibilidade está embutida na engenharia da medida, não é adorno posterior.
Nesse ponto, decisões políticas como a do aumento do bolsa família, só executada agora a menos de 20 dias do 1º turno das eleições, teriam sido mais eficientes, sob o ponto de vista da conversão de votos (mas, claro, isso não exclui a importância da pequena reforma na tributação da renda). Mas melhor o desgaste político derivado do aumento, do que não o fazer.
Há ainda que se analisar todo o cenário. O mercado de trabalho chegou a 2026 com indicadores favoráveis: desocupação de 5,6% no trimestre encerrado em maio e rendimento médio 4% superior na comparação anual. Ainda assim, em maio, 69% dos brasileiros diziam ter menos poder de compra do que um ano antes e apenas 9% viam a renda crescendo acima do custo de vida. Em abril, o endividamento das famílias bateu recorde pelo quarto mês seguido, chegando a 83,6% entre as que recebiam até três salários mínimos.
O que mudou no endividamento não é o que se costuma supor. O comprometimento médio da renda com o serviço da dívida está próximo de 30% e praticamente não subiu desde 2021; o que subiu foi o número de devedores, com os inadimplentes passando de 39,5% da população adulta em 2016 para 50,8% em abril de 2026, segundo a Serasa. Os bancos não levaram cada família ao limite, mas sim estenderam crédito a muito mais gente.
Não há contradição nesses números. Pode-se estar empregado, ganhar mais em termos reais e seguir com o orçamento sufocado. Num orçamento assim, R$ 100 ou R$ 300 adicionais não são percebidos como ganho, eles reduzem uma perda, que é uma experiência inteiramente diferente.
A esse quadro somou-se a variável das BETs, que não explicam sozinhas o endividamento brasileiro, mas, em abril, 10% dos ouvidos pelo Datafolha declaravam apostar on-line e, entre eles, 46% diziam fazê-lo para pagar contas. O estudo de Sérgio Firpo, do Insper, com pesquisadores da Stone, encontrou entre novos apostadores aumento médio de 20% na inadimplência. O mecanismo das BETs, portanto, merece atenção, pois o orçamento aperta, a aposta aparece como saída, a perda aprofunda o aperto.
Mas nada disso chega à opinião pública em estado bruto. Na Quaest de fevereiro, entre os que se identificavam com Lula, 42% afirmavam terem sido beneficiados; entre os identificados com Bolsonaro, 12%. Seria precipitado concluir que um grupo entendeu a política e o outro não, pois na realidade a pergunta feita na pesquisa mede percepção declarada e identidade política. Portanto, há uma mútua influência entre os fatores pesquisados. O que complica a leitura fácil está nos grupos não atribuídos aos polos, ou seja, 43% na esquerda não lulista, 26% na direita não bolsonarista, 29% entre independentes. Não se trata de gratidão a um governo, e sim de campos políticos que leem a mesma realidade material com lentes diferentes.
A fase anterior à vigência reforça essa leitura. Entre março e outubro de 2025, a expectativa de melhora importante cresceu 13 pontos entre os identificados com Bolsonaro e apenas três pontos entre os lulistas, reduzindo a distância de 25 para 15 pontos. Enquanto era promessa, a medida atravessou fronteiras partidárias; quando virou contracheque, a percepção de benefício voltou a se organizar por identidade.
E há um achado mais desconcertante na rodada de maio. Perguntados se sentiram aumento significativo da renda, a faixa que mais respondeu que sim, com 25%, foi a de quem ganha até dois salários mínimos, ou seja, o grupo que já era isento desde 2025 e não recebeu nada de novo. A percepção econômica não é apenas menor que o benefício: ela erra nos dois sentidos, o que deveria moderar a expectativa de que informação melhor, sozinha, produza avaliação mais exata.
Entra aí uma camada que o debate sobre comunicação de governo costuma ignorar. Uma coisa é o cidadão concluir, a partir da própria vida, que sua situação não melhorou. Outra é o ambiente informacional que lhe oferece explicação pronta para isso. O Brasil não estava em recessão no segundo trimestre de 2026: o PIB cresceu 0,5% sobre o trimestre anterior e 2% em doze meses. Há desaceleração real a discutir, o crescimento trimestral caiu de 1,1% para 0,5% e o consumo das famílias recuou 0,4%, que somados à onda de notícias negativas vinculadas ao aumento do número de recuperação judicial, dá base empírica à sensação de aperto.
A distinção importa porque percepção e desinformação não são a mesma coisa. “Meu dinheiro não está dando” é experiência, e experiência não se discute com planilha. “O país está quebrando” é afirmação verificável, e é falsa. A desinformação econômica é eficiente por não precisar inventar a insatisfação, pois encontra frustração verdadeira e lhe oferece explicação falsa. E a assimetria não é acidental, explicar que o PIB cresce, mas desacelera exige tempo, contexto e disposição de quem ouve. Uma narrativa enganosa, contudo, é fácil e repercute.
O quadro eleitoral torna a pergunta mais concreta. No Datafolha de 11 de setembro, Lula tinha 47% entre eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, contra 27% de Flávio Bolsonaro. Na faixa de dois a cinco salários mínimos, onde está parte importante do público alcançado pela nova tabela, os números se invertiam: 31% e 42%. Duas ressalvas, e nenhuma é formalidade: a margem de erro nesse recorte é de quatro pontos, não os dois da amostra total, e não há como isolar o efeito do IR sobre o voto. A coincidência das faixas, ainda assim, justifica a pergunta.
O que a isenção do IR revela, portanto, não é falha de marketing. É que política distributiva não gera automaticamente alcance, alcance não gera consciência distributiva, e consciência distributiva não gera recompensa eleitoral. Entre uma coisa e outra estão o supermercado, o cartão, o juro, a dívida, a aposta, a identidade política e a experiência cotidiana de estar vivendo melhor ou pior.
Daí decorrem duas consequências para quem formula política pública, e nenhuma é publicitária. A primeira é de desenho: um benefício precisa alcançar de fato quem ele diz alcançar, e nesse aspecto uma medida ancorada na retenção na fonte deixa de fora a parte mais informal e vulnerável do mercado de trabalho. Além disso, a medida precisa ter magnitude que sobreviva à inflação e ao serviço da dívida, sob pena de existir apenas na planilha. A segunda é de ambiente: não se responde à desinformação econômica com uma tabela de indicadores, mas também não se aceita em silêncio que a explicação sobre a vida econômica das pessoas seja construída a partir de informação que os dados desmentem.
Quem sente o orçamento apertado não será convencido de que vive melhor porque o PIB cresceu, e não deveria mesmo ser. Mas também não deveria precisar montar sua visão do país a partir de afirmações falsas. Entre esses extremos está o espaço mais difícil da política democrática: transformar número em significado sem negar a vida concreta de quem vota.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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