Se ainda faltam argumentos (e mesmo súplicas) para os indecisos ou refratários a votar em Lula, que tal a simples possibilidade de vitória eleitoral dos amantes do ódio? Um ódio que, para permanecer de pé, precisa se colocar numa dinâmica viciada, como uma bicicleta que para não cair tem que se manter em movimento. Daí que a situação criada por tais escolhas tende apenas a piorar e a tão temida radicalização à direita apenas a se agravar.

Ou acaso alguém vê na campanha de Lula gestos semelhantes ao de Flávio Bolsonaro, erguendo a imagem do pai, como a de um santo guerreiro, e esbravejando “vem aqui tomar meu quadro”? A enfática reafirmação da macheza característica da família do capitão soaria tão patética para um adulto quanto os desafios autoafirmativos da adolescência nas brigas de rua, não estivessem eles disputando o poder do Estado.

No livro em que analisa o “uso político dos massacres e genocídios” Jacques Sémelin se refere a “países que poderiam ser os nossos, … onde os discursos carregados de ódio começam a circular e sem que nos demos conta… um povo se torna carrasco de um outro povo… quando não de uma parcela de si mesmo” – e o inimigo (não o adversário), que deve ser, portanto, eliminado, e não vencido, “é primeiramente uma parte do ‘nós’ que sustenta posições políticas diversas”.

A perseguição feroz contra partes inteiras de uma determinada sociedade muitas vezes é antecedida por atos de indivíduos contra indivíduos, sob nenhuma outra justificativa que não a da existência de meras diferenças e antagonismos. Estimulados por gestos como os de Bolsonaro em São Luís (Maranhão), seus seguidores se sentirão mais uma vez legitimados a se comportarem como vingadores.

Talvez não possa ser diferente. É como a anedota da rã e do escorpião que precisa atravessar o rio: é da natureza do escorpião…

Com o retrato emoldurado do pai elevado aos céus, como fazem os fiéis com os dos santos, o primogênito apelou, então, à (legítima) defesa da honra:

(“Vem”, desafiou o candidato. Mas) “vai ter que me levar junto, porque eu vou honrar esse cara”.

A história registra quase que infindáveis variações para a “legítima defesa da honra”, essa inapagável invenção do advogado Evandro Lins e Silva para defender o matador Doca Street no julgamento pelo assassinato de Ângela Diniz, em 1979. (Em 2023, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional o uso dessa tese em julgamentos de feminicídio e agressões contra mulheres.)

Foi também com a promessa de recuperar a honra do país que os nazistas capturaram o sentimento de frustração dos alemães pela derrota na Primeira Guerra e a transformaram na energia que alimentaria a ideia do Terceiro Reich e suas consequências.

Ainda que raros, agora mesmo aparecem aqui e ali vídeos postados nas redes sociais mostrando ataques e crimes derivados dessa primitiva noção de honorabilidade. Espancamentos e agressões que aterrorizam nossa consciência e até as mais simples noções de dignidade humana.

Quem não se lembra, por exemplo, da selvageria recentemente cometida por uma trinca de fortões contra um senhor que em plena Copacabana, no Rio de Janeiro, tentava abrir o portão de acesso ao prédio onde morava? A razão para a brutal agressão? Apenas um broche grudado no peito, anunciando a preferência política do homem – além, é claro, da oportunidade (tarde da noite, não havia testemunhas para a ação covarde, exceto o porteiro do edifício… que nada fez para socorrer a vítima indefesa).

Não se trata (ainda) de massacre, nem de genocídio, mas é, sem tirar nem pôr, a realização da ideia de que o que não sou eu (ou não pertence aos meus) pode ser espancado e eventualmente eliminado. Na realidade, como defende Sémelin, o massacre, seja em escala coletiva, seja contra um único indivíduo, é antecipado por “uma operação do espírito: uma maneira de ver o ‘Outro’, de estigmatizá-lo, de rebaixá-lo e anulá-lo, antes mesmo de matá-lo, de fato”.

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Se a democracia é construída com um sem número de tropeços, o mesmo pode acontecer com o seu enfraquecimento e a sua dissolução. No largo caudal da história, a vitória de Lula em 2022 pode ter sido apenas isso: um tropeço daqueles que atuam para cercear os parcos mecanismos minimamente democráticos do sistema representativo. Se tiverem chance de se recuperar da queda e retomar o passo, é muito provável que estarão tomados por um ímpeto redobrado e muito mais foco. Vão agir para, a todo custo, aplainar o terreno e evitar novos tropeços. Tratarão de remover obstáculos, tenham a natureza que tiverem – por exemplo, atropelar a Lei para tirar da cadeia os amigos e os parentes condenados por atentarem contra as frágeis e muitas vezes defeituosas instituições da democracia.

E, apenas para lembrar: se a democracia pode ser enfraquecida, inibida ou diminuída, mecanismo por mecanismo, o seu desmonte terá um alcance ainda maior – é quando, então, despencamos num dramático “processo de descivilização”.

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Quantas interrogantes serão necessárias para tentar compreender a existência de uma tamanha dissociação entre as condições da vida material da grande maioria e a determinação de colocar no poder políticos desbragadamente elitistas, como os representados pelo bolsonarismo e suas variações?

Entre as características desse impulso (autodestrutivo) está o fato de que ele apenas agudiza o paradoxo manifesto da democracia parlamentar representativa, no qual os interesses materiais são colocados de lado, ou pelo menos secundarizados, em função de fantasias primárias, simplórias, arcaicas e maniqueístas – um universo dominado por imagens de santos e pecadores, anjos e demônios, deuses (ou mitos) e figuras demonizadas.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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