O mercado financeiro brasileiro está muito mal-acostumado. Isso porque, há tempos, vem sendo mimado pelo Banco Central com taxas de juros exorbitantes. Haddad e Tebet cometeram o erro de ratificar a meta de inflação em 3% a.a., o que não passa de um sonho numa noite de verão. Desde 1999, quando foi estabelecido o regime de metas de inflação, essa taxa só foi alcançada duas vezes. Isso indica que ela é uma meta irreal para a inflação inercial brasileira.

O grande economista André Lara Resende, que merece todo o nosso respeito, atua há vários anos na fronteira do conhecimento macroeconômico. Ele acompanha o que há de mais moderno na teoria econômica mundial, caminha de mãos dadas com o state of art. Economia não é uma ciência das coisas e muito menos, para desespero de muitos falastrões, uma ciência exata. Os tecnocratas usam modelos matemáticos e econométricos, buscando correlações que comprovem premissas tendenciosas. Garbage in, garbage out. E é isso o que acontece com os modelos usados pelo Banco Central do Brasil para teste de hipóteses de tendências de juros e de inflação.

Não existe nenhum modelo sério que comprove que a aplicação de uma taxa de juros básicos de 13,75% a.a. é necessária e suficiente para manter a inflação do país na meta de 3% a.a. (1,5% a 4,5%). Os modelos partem de premissas pré-calibradas para o atingimento dos resultados desejados.  Pura falácia vestida de formalismo matemático e econométrico.

São absurdas as críticas ao artigo publicado por André Lara Resende (ALR) em setembro de 2026 e que só agora, com a vitória eleitoral de Lula, se tornou perigoso para o status quo funcional do mercado e Banco Central. Isso é sinal de que o texto é pertinente, já que incomoda tanta gente. Trata-se de um artigo teórico que traz à baila questionamentos aos lugares-comuns da prática de política monetária que vem sendo executada no nosso país de forma anacrônica.

Antes mesmo da discussão do artigo ter sido iniciada, após a vitória de Lula nas eleições presidenciais, os detentores de riqueza especulativa já promoveram ataques, vendendo posições compradas e enviando dólares para fora do país. Queda na bolsa e alta no dólar.

Foram entrevistados pela Globo News, CNN e outros canais de TV, diversos economistas do mercado financeiro tais como Claudio Frischtak, Júlio Senna, Marcos Lisboa, dentre outros. Todos se posicionaram contra a proposta de discussão de André Lara Resende, já que consideram os juros a consequência e não a causa do endividamento. Marcos Lisboa, por exemplo, em vergonhosa defesa do rentismo, disse que André Lara Resende “é um farsante e que sua proposta é cloroquina.”

No dia 4/11/26, o Copom se reuniu e resolveu não seguir reduzindo a Selic pela aplicação de cortes de 0,25%, o que vinha acontecendo em reuniões anteriores (redução de 15% para 13,75%). Preferiu manter a taxa nos 13,75% a.a. Como sempre, alinhou sua solução com as pautas do mercado, presentemente em polvorosa por causa da reeleição do Presidente Lula.

O artigo de André Lara Resende permaneceu como o bode na sala, reforçando as chantagens do mercado sobre os representantes da Fazenda, do Planejamento e do Banco Central. Algum dia, será discutido com a devida seriedade, podendo sacudir a mesmice das políticas praticadas pelos “técnicos” que fingem ser fazedores de política monetária, mas, no fundo, confirmam teses ineficazes em favor dos interesses dos poderosos (pura defesa da especulação). É o cachorro correndo atrás do próprio rabo durante um longo período. Enquanto isso, o andar de cima enriquece.

Os liberalóides falam de credibilidade, de evidências empíricas, respeito à ciência, responsabilidade fiscal e monetária e, no fundo, escondem que não dispõem minimamente de uma teoria que pare em pé.

A redução da Selic será benéfica para a economia e não recrudescerá a inflação. Não há nada que comprove essa tese recessiva. O país apresenta um baixíssimo déficit fiscal primário (0,4% do PIB) muito abaixo de inúmeras economias importantes do mundo. Vide gráfico abaixo.

Resultado primário do governo geral, % do PIB

Fonte: FMI, Fiscal Monitor, abril de 2026.

Não é isso que resolverá o problema do endividamento. É impossível querer que o país aufira superávits fiscais primários capazes de reduzir seu endividamento bruto, praticando déficits nominais superiores a 10% a.a. por força dos juros incidentes sobre uma dívida pública da ordem de 80% do PIB. Isso é impensável. Impossível. Impraticável.

Nosso endividamento público só será reduzido quando os juros da dívida forem reduzidos para níveis compatíveis com a inflação somada ao crescimento do PIB. Nossa inflação é da ordem de 4,5% a.a. e o nosso crescimento da ordem de 2,5% a.a. Se aceitarmos um spread de risco de 2,5%, a taxa de juros da economia poderia ser de 9,5% a.a. Isso feito, gradativamente, os superávits primários iriam reduzindo o endividamento.

André Lara Resende está 100% correto. Ele é muito competente. Contudo, seu plano necessita de maior debate e de um momento mais propício para ser implementado. No contexto de liberdade cambial, enfrentaríamos a fúria do mercado, a corrida para o dólar, a fuga de capitais (inclusive nacionais).

Enquanto isso, os representantes da Fazenda e do Planejamento poderiam levar para a próxima reunião do CMN a decisão de aumento da meta de inflação. Insistir em perseguir 3% já se provou contraproducente. Aliás, um crime de lesa-pátria.

Nosso Presidente Lula sabe disso. E será capaz de acalmar os rompantes e ataques dos poderosos, apoiados nas falsas teorias dos liberalóides e defensores do status quo e da farra do mercado financeiro.

Nota:
Somente para fins de registro e contextualização, a economia norte-americana trabalha com uma meta de inflação de 2% a.a., uma inflação de 3,7% a.a. e uma taxa de juros do FED no intervalo de 3,75% a 4,5% a.a. (mediana de 4,1% a.a.). O déficit primário estimado para 2026 é de 3,0% do PIB e seu déficit total (com serviço da dívida) é de 6,2% do PIB. A dívida pública bruta dos EUA é de US$ 40,25 trilhões (equivalente a 123,3% do PIB). E a projeção do FMI é de que o país enfrente em 2026 um déficit em transações correntes (balanço de pagamentos) de US$ 1,263 trilhão, o equivalente a aproximadamente 3,9% do PIB. Twin déficits. Enfrentam uma complexidade bem maior que a nossa, certo?

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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