A vergonhosa fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos

A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos não deveria ser, mas acaba sendo uma vergonha para todo o país.

O que pensar do candidato a presidente que, derrotado nas urnas dentro de um processo rigorosamente democrático, mal completadas 24 horas desde a divulgação do resultado, abandona o país – e seus milhões de eleitores – para se amoitar sob as asas do Imperador?

Opróbrio, desonra, ignomínia, infâmia…

O que pensarão do capitão seus bravos companheiros de farda? O que pensarão os comandados do comandante que os deixa para trás, para, a partir de outro país, difamar as instituições das quais pretendia ser o chefe supremo? Então, é que só eram legítimas se fosse ele o vitorioso?

Como estarão se sentido agora aqueles milhões de brasileiros que, convictos ou enganados, certos ou errados, mas em boa fé, depositaram sua confiança… num covarde. É essa a democracia que defendem o bolsonarismo e seus aliados – agora deixados para trás.

Com os milhões arrecadados do Banco Master (e da poupança dos brasileiros) e sabe-se lá mais de onde, o primogênito dos bolsonaros voa na surdina para os Estados Unidos para desfrutar o conforto da fortuna e da proteção imperial – dando ao mundo a impressão de sermos todos palhaços, seus eleitores em primeiro lugar, mas no final das contas todos nós.

O que cabe agora é apenas uma pergunta dirigida aos seus eleitores: é esse o tipo de homem que vocês queriam como presidente do país?

A essa altura, os estrategistas da ultradireita, aqui e nos Estados Unidos, já estarão montando algum modelo de golpe contra a reeleição de Lula. É demais para seus estômagos ultrassensíveis.

Confirmado o quarto mandato, do que dispõem agora é de uma ultrajante ultrapassagem na reta final, uma insofismável manifestação das urnas e estridentes quatro e meio milhões de votos para não deixar dúvidas do que hoje quer a grande maioria dos brasileiros.

Mas, para os praticantes do credo bolsonarista, a dinâmica das eleições é uma impossibilidade matemática. Como podem ter ganho com folga o primeiro turno e três semanas depois saírem soterrados das mesmas urnas? Na cabeça dos seus estrategistas e comunicadores, essa é uma soma errada. Uma fraude, roubo ou manipulação, não sabemos ainda que nome darão à nova verdade.

É provável que outra invasão sacrificial das sedes do poder da República esteja de antemão descartada. Mas nunca se sabe. O próprio candidato derrotado garantiu em entrevista no Jornal Nacional que o resultado das urnas, fosse qual fosse, seria respeitado – já que ele seguramente sairia vencedor, teve o cuidado de acrescentar.

Derrotado, sua primeira aparição pública foi para dizer que não reconhecia o que as urnas disseram.

Mas, se têm um trunfo, ele está na composição do novo Congresso, onde são confortavelmente majoritários. E é dali que deverá partir a nova intentona.

O PL de Jair M. Bolsonaro e seus filhos, sozinho, tem 121 deputados (23% da Câmara) e 29 senadores (35,8% do Senado). Somando as bancadas dos mais tradicionais aliados (Republicanos e PP, por exemplo), os bolsonaristas saltam para 39,6% da câmara e 49,4% no Senado, a apenas um voto da maioria absoluta. Sem muito esforço podem até mudar a Constituição – ou processar e destituir desafetos do STF.

Nem amanhecido o novo dia após o fechamento das urnas e já havia bolsonarista prometendo o impeachment do presidente reeleito. A justificativa? Qualquer uma serve, se inventa. Algo como umas tais de pedaladas fiscais, por exemplo.

Em tempos de novilíngua, você se lembra, feio pode significar bonito, tanto quanto ditadura pode significar democracia. A determinante vox populi pode estar onde quer que a eles lhes pareça conveniente, na votação do dia 25, por exemplo, ou na de três semanas antes. As regras que, aprovadas por todos, determinam a relação entre os poderes, essas não importam.

Assim, o que deve estar revoluteando pelas cabeças dos Marco Rubio e Eduardo Bolsonaro da vida é um golpe por dentro das instituições, do Congresso contra o Executivo e o Judiciário e com os diretamente interessados dessa vez atuando como protagonistas – ao invés da mobilização utilitária da turba de seguidores fanáticos para atacar os símbolos da República.

Mas pode ser também a combinação de uma e outra coisa, golpe parlamentar e fervor popular. É esperar para ver.

O Congresso que saiu das urnas (como expressão da vontade do eleitor, tanto quanto o presidente eleito) é sua pior versão em décadas, se não séculos ou milênios. É o aperfeiçoamento da desqualificação e do empobrecimento (moral, político, etc…) que havia se iniciado lá pelo início da segunda década do século XXI.

Mas, como disse Lula, este é o Congresso que o povo escolheu. Ao mesmo tempo, é evidente o conflito entre o que disseram as urnas no dia quatro e a votação do segundo turno. A contradição, portanto, entre o presidente eleito e o Congresso talvez tenha, historicamente falando, alcançado o ápice, tornando-se insuportável – e paralisante.

Nesse caso, dizer que o povo afinal foi sábio em suas escolhas do primeiro e do segundo turno é uma arrematada bobagem. Pensando que votaria em Lula dali a menos de um mês, o eleitor tratou de criar um contrapeso elegendo uma maioria de deputados e senadores pertencente ao lado oposto – um argumento que não apenas já foi usado antes, como é rotineiro.

Um novo e remodelado assalto ao Congresso pode nem tardar tanto. O bolsonarismo e sua tropa de choque está com sangue nos olhos. Após os primeiros esboços para a montagem de um novo governo e a distribuição dos cargos – depois da vitória no primeiro turno – tem muita gente disposta a qualquer aventura. Se o pequeno Nikolas se mostrava visivelmente abatido após o resultado de domingo, o coach Marçal, sedento de vingança, espumava pelas narinas tentando deslegitimar as urnas.

Se saíssem vitoriosos da eleição para presidente, imediatamente tratariam de atacar os fundamentos democráticos da Constituição. Não sou eu quem está dizendo. Foi o próprio Bolsonaro, dias antes do segundo turno, que declarou isso num discurso no Centro-Oeste, ao lado dos aliados – sempre a título de “aperfeiçoar nossa democracia” (você se lembra da novilíngua…).

Perdendo – como perderam –, tratarão de simplesmente arrumar um jeito de desrespeitar a vontade das urnas. E, dessa vez, utilizando-se de um dos pilares da própria democracia para fazê-la desmoronar.

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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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