
A notícia se espalhou rápido. Um lobisomem estava à solta em Inhaúma. Tomou de medo não apenas o bairro, em Engenho de Dentro, Cachambi e até no Méier não se falava em outra coisa. Não havia uma foto ou imagem da besta, mas não faltava quem jurasse que o tinha visto.
Dona Juracy, devota de São Jorge, jurou pelo Santo que viu o tal lobisomem lá pelos lados do Alemão. Seu Odercy afirmou, categórico como sempre, que o bicho tinha mais de dois metros de altura. A criançada brincava nas ruas de lobisomem e caçador aos uivos.
Entre o medo e o fascínio, o lobisomem ficou popular. Virou nome de boteco, mercearia e puteiro. Apelido de tanta gente que causava confusão. Nas sextas-feiras de lua cheia, as festas do Lobisomem no Clube Atlético ficavam apinhadas de gente vestida de preto. Mas nem tudo sobre o lobisomem era festa e diversão.
Alguns brutamontes, autointitulados justiceiros, saíam pelas noites de lua cheia caçando marginais e, principalmente, o famigerado lobisomem. Espancaram alguns homens peludos na quase certeza de o terem encontrado. Quase, porque mesmo antes da vítima desmaiar entre sangue e fraturas, já estavam pensando no linchamento da próxima lua cheia.
Muita gente acreditou e aprovou a atitude de Flaviano, que matou a esposa e o amante dizendo que ele era o lobisomem. Senhoras pudicas da sociedade inhaumense estavam convictas de que deitar-se com um lobisomem era um ato tão vil que, de fato, merecia a morte.
Figuras da política da região, de discursos desgastados que apontavam em um ou outro tipo de gente ou circunstância a causa de todos os males do bairro, encontraram no lobisomem a nova causa de todos os antigos e dos novos males do bairro. O comércio vai mal? Por causa do lobisomem. Desemprego? Foi o lobisomem que roubou o seu trampo. Violência? O lobisomem chefia a quadrilha.
Religiosos também entraram na onda. Pastores vociferavam com cara de bravo sobre o lobisomem ser coisa do inimigo. Os padres, meio descrentes do sobrenatural, mas crentes em milagres, rezaram missas pedindo proteção espiritual contra o lobisomem. Pais e mães de santo foram demandados de pedidos de patuás, guias, mandingas ou qualquer encanto que protegesse do lobisomem. Pelo sim, pelo não, os mais supersticiosos pagavam o dízimo para o pastor, assistiam à missa do padre e faziam trabalho para Ogum pedindo proteção na incerteza de qual caminho espiritual seria o mais eficiente contra aquele perigo peludo.
A fama foi tão grande, que extrapolou os limites da Zona Norte, chegando à Zona Sul e, de lá, para o Brasil. Em pouco tempo, havia jornalista dizendo que a culpa pelo lobisomem era do Lula e economistas relacionando a alta da taxa SELIC ao lobisomem de Inhaúma. O lobisomem havia, definitivamente, virado a imagem do medonho e do odioso, totem catalisador dos medos e ódios difusos numa sociedade perdida de si mesma.
Havia de tudo sobre o lobisomem, exceto vítimas. Nenhuma pessoa mordida. Nenhum braço ou mão dilacerado pelos dentes afiados da fera. Nenhuma barriga ou costas rasgadas pelas pontiagudas garras do poderoso canídeo. Mas não faltavam vítimas daqueles que diziam querer evitar vítimas do lobisomem.
E nas noites de lua cheia, o lobisomem se esgueirava pelos becos e sombras, escondia-se, amedrontado com a selvageria daquela gente.
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Ilustração: Mihai Cauli
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