A política do ódio e da crueldade no Brasil

Ilustração: Mihai Cauli

A crueldade é humana mesmo que os atos bárbaros sejam definidos como desumanos. “A mãe da crueldade é a covardia”, escreveu Montaigne em seus “Ensaios”. Antes dele, Sêneca concluiu que a crueldade resulta da fraqueza. Um exemplo do que é a covardia se expressa no torturador, que faz o torturado sofrer sem poder de reação. O torturador é um covarde, pois ataca friamente uma pessoa sem chance de defesa, e quem elogia o torturador é também covarde, um gozo sádico. Aliás, a sociedade brasileira tem uma herança de violências contra os índios e, especialmente, os negros. Nós, brancos, ainda estamos aprendendo diante da crueldade do racismo estrutural.

O país está dominado hoje por um ódio de guerra que ampara os que confiam nos armados e nos pastores contra o humanismo democrático. A verdade é que o ódio sempre uniu as pessoas, e nos últimos anos há “a máquina do ódio” – título do livro da jornalista Patrícia Campos Mello. Seu livro é sobre as “fake news” e a violência digital que segue dominando o País, com robôs disparando mensagens que estimulam a guerra com mentiras.

De onde vem tanto ódio e tanta crueldade aqui e no mundo em geral? O prazer de agredir e destruir se expressa em inumeráveis agressões na História, expressão da pulsão de destruição. Foi o que escreveu Freud em setembro de 1932 em resposta a uma carta de Albert Einstein. O célebre físico, a pedido da Liga das Nações, perguntou sobre o enigma do apetite de ódio do homem. A Liga buscava diminuir as chances de uma nova guerra mundial, que terminaria ocorrendo em 1939. Outra questão é como Freud se envergonhou de seu pai, que foi humilhado por antissemitas. Já ele se revelou corajoso ao enfrentar ataques por ser judeu.

A covardia dos cruéis tem a ver não só com uma dimensão da pulsão de morte, mas também com um Supereu sádico. Os que festejam hoje o ódio atacam as diferenças, são racistas, se excitam com líderes armados idealizados. Há uma velha tática autoritária, muito usada nas ditaduras, que é a vitimização, na qual os que atacam se dizem perseguidos, injustiçados. Se fazem de coitadinhos, é a sofrência da velha Casa Grande, que se queixava dos negros como fujões, preguiçosos e rebeldes. Torturavam, humilhavam e ainda eram eles as vítimas.

Em quase um ano e meio de pandemia, o País está com pouco mais de 570 mil mortos. Como pode um presidente não ser solidário com as famílias dos mortos e ironizar a falta de ar dos doentes ou dos que podem morrer dizendo ironicamente: “Estou com Covid?”. Essa frieza, essa indiferença, envolve hoje os armados, cúmplices dos crimes de um país com pouca memória.

Um povo precisa ter memória, mas muito se diz que o Brasil é um país sem memória, portanto sem imaginação. Se é assim, há uma ameaça ao amanhã, ao imperar a impunidade dos herdeiros arrogantes do poder absoluto. Impunidade dos que tentam assegurar que são perfeitos, e assim se transformam não nas forças do povo, mas só de parte dele. Combater a crueldade requer humor, poesia, ciência, construir a solidariedade, ir às ruas e apostar sempre no humanismo. Para imaginar o amanhã é preciso coragem, dignidade, sem esquecer que a covardia é a mãe da crueldade. (Facebook do autor, 20/08/2021)

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