
Nunca estivemos tão conectados e talvez tenhamos tão pouca disponibilidade para compreender o mundo. Mensagens chegam a todo instante, imagens disputam nossa atenção e opiniões circulam em velocidade vertiginosa. Acontecimentos são consumidos antes de serem compreendidos. Na sociedade hiperconectada, a comunicação se expande, mas o tempo para pensar encolhe. O desafio não está em apenas acessar informações, mas transformá-las em conhecimento.
A revolução digital transformou a sociabilidade. Plataformas e algoritmos reorganizam trabalho, consumo, política e relações pessoais. Como observa Manuel Castells em A sociedade em rede (2016), a vida social se estrutura em fluxos de informação. Hoje, porém, as plataformas também selecionam o que vemos, definem a visibilidade e convertem interações em dados exploráveis economicamente. A sociabilidade torna-se, simultaneamente, experiência humana e fonte de valorização do capital.
O problema começa quando a velocidade passa a determinar a qualidade da experiência. A notícia precisa ser comentada antes que outra a substitua, assim como a opinião precisa ser publicada antes que o debate amadureça. O acontecimento perde espaço para sua repercussão, e a interpretação cede lugar à reação. Em vez de perguntar o que ocorreu, por que e a serviço de quais interesses, somos levados a escolher rapidamente de que lado estamos.
Essa transformação afeta a própria relação com a verdade. Em A ciência como vocação (1919), Max Weber distingue a responsabilidade do cientista, comprometido com a investigação rigorosa, das disputas orientadas pela conquista de adesões. Convencer alguém de uma posição não equivale a demonstrar sua validade. A ciência exige honestidade intelectual, exame das evidências e disposição para reconhecer resultados que contrariem as próprias convicções. Seu compromisso não é confirmar aquilo em que desejamos acreditar, mas investigar a realidade, inclusive quando ela nos desagrada.
Essa distinção tornou-se decisiva na sociedade do imediato. Quando convencer vale mais do que compreender, a argumentação pode se transformar em propaganda, a opinião ocupar o lugar da evidência e a repetição produzir aparência de verdade. Popularidade não comprova validade. Curtidas, compartilhamentos e visualizações medem circulação e engajamento, não necessariamente consistência ou relevância. Recuperar o compromisso com a verdade significa resistir à confusão entre aquilo que mobiliza as pessoas e aquilo que efetivamente explica o mundo.
Em No enxame (2018), Byung-Chul Han observa que a circulação acelerada de informações não assegura vínculos coletivos duradouros. Estar conectado não significa dialogar ou compreender. Também Franco “Bifo” Berardi, em The soul at work (2009), analisa como linguagem, criatividade e afetos são incorporados à produção de valor. Na economia digital, atenção, inteligência e emoções também são mobilizadas economicamente. A conexão permanente deixa de ser apenas possibilidade técnica e se converte em exigência social, pressionando os indivíduos a responder, produzir e permanecer visíveis.
A hiperestimulação amplia contatos, mas reduz o tempo de elaboração. A busca por validação pode ocupar o lugar da investigação, enquanto a exposição permanente estimula a necessidade de emitir opiniões sobre tudo. Entretanto, conhecer não é acumular informações nem repetir certezas. É estabelecer relações, formular perguntas, confrontar interpretações e investigar as condições históricas dos fenômenos. A realidade está em movimento, contém contradições e não pode ser compreendida por explicações isoladas ou definitivas.
Karl Marx, em O capital (1867), ajuda a compreender que a consciência não pode ser separada das condições materiais e das relações sociais. Os comportamentos digitais não são apenas escolhas individuais, pois dependem também de interesses econômicos, infraestruturas e relações de poder.
Em A era do capitalismo de vigilância (2021), Shoshana Zuboff mostra como experiências humanas são convertidas em matéria-prima para extrair dados e prever comportamentos. A questão não se limita ao tempo diante das telas: envolve quem captura os dados, controla os mecanismos de recomendação e lucra com a organização da experiência digital.
Essa estrutura pode favorecer a polarização. Quando a visibilidade depende do engajamento, a indignação pode superar a ponderação e o conflito tornar-se mais rentável que o entendimento. A divergência democrática corre o risco de se transformar em antagonismo, uma vez que o outro deixa de ser interlocutor e passa a ser adversário. Em Infocracia (2022), Byung-Chul Han examina os desafios que a digitalização impõe à formação da opinião pública.
Da mesma forma, em Depois do futuro (2019), Berardi questiona o enfraquecimento da capacidade de imaginar outros futuros. Sob aceleração, precariedade e estímulos incessantes, torna-se mais difícil construir perspectivas que ultrapassem a urgência imediata. A sociedade exige manifestações permanentes, mas enfraquece as condições para reflexão, sensibilidade e imaginação social. O problema não seria apenas a falta de atenção, mas a dificuldade de transformar experiências individuais em projetos coletivos.
Multiplicam-se os contatos, mas nem sempre a convivência. Compartilhar não é compreender; participar de uma rede não garante pertencimento. A conexão pode isolar pessoas em circuitos de confirmação, nos quais crenças se reiteram e diferenças viram ameaças.
Evgeny Morozov, em Big Tech (2018), alerta para os limites de tratar soluções tecnológicas como respostas neutras a problemas sociais. A tecnologia depende de interesses, escolhas institucionais e modelos de negócio. Deve ser avaliada não apenas por sua eficiência, mas por seus efeitos sobre a autonomia, a democracia e a distribuição do poder.
Recuperar a reflexão não significa rejeitar a digitalização, que amplia o acesso à informação, a cooperação e a participação. O desafio é colocar essas capacidades a serviço da autonomia, e não apenas dos interesses comerciais das plataformas. Escolas e universidades precisam fortalecer leitura, argumentação, pesquisa e alfabetização midiática. Bibliotecas, centros culturais e espaços públicos devem ser valorizados como lugares de encontro e elaboração coletiva.
A regulação das plataformas deve ampliar a transparência dos sistemas de recomendação, proteger dados pessoais e enfrentar incentivos à manipulação da atenção. O poder público precisa garantir condições para a produção independente de conhecimento e informação de interesse coletivo.
É preciso também reconstruir o valor do tempo livre. Uma sociedade que exige disponibilidade permanente restringe a possibilidade de estudar, conversar e participar da vida coletiva. O direito ao tempo não é luxo individual, mas condição para a liberdade, a criatividade e a democracia. Sem tempo para pensar, a autonomia se reduz à escolha entre opções organizadas por interesses alheios.
O futuro não será definido apenas pela quantidade de dados ou pela sofisticação da inteligência artificial. Uma sociedade pode produzir mais informações do que nunca e continuar incapaz de compreender suas contradições. Tampouco a ciência estará protegida se a busca por reconhecimento, influência ou adesão se sobrepuser ao compromisso com a investigação rigorosa.
Na era do imediato, pensar tornou-se um ato de resistência. Ler profundamente, dialogar com quem discorda, confrontar evidências e reconhecer os limites das próprias certezas são condições para recuperar a autonomia coletiva. Precisamos transformar conexão em diálogo, informação em conhecimento e divergência em reflexão crítica.
A questão não é estar conectado a tudo, mas compreender quem organiza essas conexões e a serviço de quais interesses. O progresso não consiste em responder rapidamente a todas as perguntas, nem em convencer a qualquer custo, mas em formular as perguntas certas, investigar honestamente a realidade e imaginar futuros diferentes. Entre a urgência de conquistar adesões e a responsabilidade de buscar a verdade, uma sociedade democrática precisa preservar o espaço da reflexão. É nessa reconstrução da inteligência coletiva que reside uma condição para a emancipação humana.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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