Ilustração: Mihai Cauli

Eram quase 13 horas de domingo no Brasil quando eu recebi o telefonema de Latiffa, a refugiada afegã que conseguiu fugir do Afeganistão e chegar em Roma em segurança com a ajuda de uma ONG italiana. Me tornei sua amiga em 2015, quando passei mais uma temporada em Roma entrevistando centenas de mulheres refugiadas sírias, afegãs, palestinas e iraquianas. O telefonema de Latiffa deixou uma imensa tristeza em meu coração e confirmou tudo o que eu previa e que ela e milhares de mulheres afegãs temiam. “Non sappiamo piu cosa fare, mia sorella vive a Kandahar e adesso piange tutto il giorno per le sue figlie.” Latiffa me conta que os Talibãs tomaram a cidade de sua irmã, Kandahar, o berço espiritual da imensa milícia fundamentalista, e que a irmã chora o dia todo pensando no que será do futuro das filhas adolescentes.

Sim, o Talibã não é um pequeno grupo terrorista como muitos afirmam. Mas uma milícia, muito parecida com a milícia evangélica que domina a cidade em que vivo, Rio de Janeiro, e que tem matado e expulsado das comunidades quem não se submete a eles.

Um breve histórico do Talibã

O Talibã de Kandahar era um grupo reduzido a poucos milhares de homens quando começou a ser armado pelos EUA na década de 80 para lutar contra o “ comunismo” no país e contra o domínio soviético. Fundado por Mohammad Omar e armado fortemente pela CIA, o grupo extremista prometia restaurar a “paz” no Afeganistão, mas assim que tomou o poder na década de 1990, fez com que o Afeganistão mergulhasse em uma distopia quanto aos direitos das mulheres e das meninas e quanto à cultura e às universidades. Aplicava leis que jamais existiram em outros países muçulmanos, leis que jamais estiveram no Alcorão, como a proibição de que meninas frequentem a escola, usem maquiagem, a proibição da música, a obrigação do uso da burca azul que cobre completamente o rosto deixando apenas uma pequena tela para os olhos, causando inclusive danos oculares. Uma vestimenta e um cenário de terror que jamais vi na Palestina, Líbano, Síria, Marrocos e outros países de maioria muçulmana onde estive.

O Talibã transformou o Afeganistão – um país em que na década de 70 as mulheres estudavam medicina, usavam lindos vestidos, e falavam quatro idiomas – em um país medieval, onde todas as leis foram baseadas numa visão completamente distorcida e mentirosa do Alcorão.

Os desdobramentos dessa história todos nós conhecemos bem.

Osama Bin Laden e membros da Al Qaeda se refugiaram nas montanhas do Afeganistão e os EUA acusaram os fundamentalistas de executarem o ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 e o país de “proteger” o grupo.

Poucos meses depois daquela manhã de 11 de setembro, os EUA invadiram o Afeganistão, iniciaram uma guerra que mataria mais de 150 mil civis inocentes, incluindo mulheres, crianças e idosos, gastariam cerca de R$ 5,2 trilhões, ou um trilhão de dólares do contribuinte, perderiam 2 mil soldados, e deixariam um país devastado.

O número de mortos afegãos pode ser muito maior do que o oficial, pois a Organização das Nações Unidas e os EUA só começaram a registrar de fato todas as vítimas civis em 2009, oito anos depois do início da guerra. Vinte anos após o início da “ guerra” e de mais um fracasso criminoso dos EUA no Oriente Médio no que se refere ao combate aos fundamentalistas, o Talibã inegavelmente se fortaleceu. Tem cerca de 200 mil membros, armas e tecnologias ultramodernas, conta com o apoio de uma parte dos afegãos, que após a invasão dos EUA, passaram a ver extremistas como heróis. Conseguiu retomar cidades como Mozar i Sharif, Kandahar, Cabul e já domina o país inteiro, evocando nas mulheres as lembranças das chicotadas em público, das mortes sem sentido algum, das escolas fechadas para as meninas ou transformadas em escolas militares, dos Kalashinikov encostados no rosto de suas meninas por leis que jamais foram reveladas ao Profeta e jamais fizeram parte do Alcorão (…).

Latiffa me contou ontem que sua irmã está desesperada pois os professores da escola das sobrinhas em Kandahar choraram ao se despedir delas e avisaram aos pais que todas devem ficar em casa, pois eles não sabem o que acontecerá agora. A irmã de Latiffa mal conseguia falar. Uma das meninas lhe contara que médicas que trabalhavam na região foram mandadas para casa e proibidas de atender pessoas do sexo masculino, professoras perderam seus empregos, e os muros estavam cheios de novos cartazes proibindo as mulheres afegãs de saírem às ruas de Kandahar sem um acompanhante do sexo masculino.

As sobrinhas de minha amiga Latiffa têm 10 e 12 anos e só conheceram o país em guerra, invadido e aterrorizado cotidianamente pela maior potência bélica do mundo, mas sem o domínio da milícia Talibã. A mais velha das meninas, Layla, só fala em morrer e desenvolveu um quadro grave de ansiedade. O relato de minha amiga devastou meu coração.

Exatamente como as milícias evangélicas, que sequestraram o cristianismo na cidade em que vivo, o Rio de Janeiro (…). (Artigo reproduzido do Facebook da autora, publicado no “Monitor do Oriente Médio”)

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