A cada dia que passa cresce a percepção de que os inequívocos traços de conservadorismo nestes primeiros meses do governo Lula 3.0 não se limitam à área da economia. Já no período da transição – quando eram conhecidos os resultados do pleito de outubro do ano passado, mas Bolsonaro ainda ocupava o assento no Palácio do Planalto – as forças progressistas manifestavam certa apreensão com os discursos então atribuídos a Fernando Haddad e a José Múcio Monteiro. Ambos terminaram por serem confirmados nos estratégicos cargos da Fazenda e da Defesa, respectivamente.

O ex-prefeito de São Paulo parece ter incorporado a persona de professor do INSPER e se distanciado de uma vez por todas daqueles tempos em que se orgulhava de ser mestre da Faculdade de Filosofia da USP. Ao se aproximar das ideias, do ambiente e dos diagnósticos econômicos da turma do financismo, Haddad se afasta paulatinamente dos caminhos do planejamento, do desenvolvimento e das propostas de recuperação do protagonismo do Estado como instrumentos para superação da profunda crise por que passa a sociedade brasileira. Sua conversão ao credo de natureza liberal traz para o interior da agenda do governo as ilusões de que as soluções de mercado seriam suficientes para dar conta das hercúleas tarefas de recompor a destruição pós-2016 e enfrentar os dilemas da desigualdade e do baixo crescimento das atividades da economia brasileira.

O indicado para a pasta da Defesa iniciou sua missão com um discurso bastante conciliador com o golpismo reinante no interior das Forças Armadas durante o mandato de Bolsonaro, fato que seria ainda mais aprofundado com a tentativa putschista e terrorista de 8 de janeiro. O conhecido perfil conservador do dirigente político pernambucano era apresentado pelos adeptos da estratégia de “passar pano” como a solução perfeita para evitar o aumento de temperatura nas relações do novo governo com a maioria da elite fardada. Isso significa não rever a participação de setores dirigentes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica em todas as etapas de tentativas de ruptura com o processo democrático desde o golpe perpetrado contra Dilma Rousseff em 2016. Ao nomear Múcio, Lula oferecia sua concordância em não buscar a identificação e a punição dos responsáveis pela aventura golpista.

Economia e Defesa: conservadorismo em pauta

Assim, tanto no caso da definição de um programa para a economia como na chamada “questão militar”, Lula optou pela solução recuada de dar uma espécie de continuidade ao que vinha sendo feito até então pelos governos anteriores. Trocam-se os nomes e os responsáveis, é claro, mas o conteúdo da orientação política não muda de forma profunda nem incisiva. A PEC da Transição, a proposta de novo arcabouço fiscal, e a timidez da Reforma Tributária são apenas alguns exemplos de tal opção na área da economia. A recusa em avançar na punição exemplar dos militares das três Forças envolvidos no golpe também oferece a leitura de uma estratégia conservadora para os assuntos da pasta da Defesa. Múcio insiste no caminho da conciliação e da negociação para evitar qualquer tipo de medida que possa ser considerada ofensiva pela elite da caserna. No entanto, o presidente da República é o comandante supremo das Forças Armadas. Se ele não exerce de fato esse poder constitucional, cria-se um vácuo que termina por estimular novas quarteladas no futuro.

Ocorre que os meses foram se passando desde a posse e o novo governo pouco fez no domínio da mudança efetiva, seja na economia, seja na caserna. Mais do que isso, outras agendas de governo passaram a ser ocupadas com destaque pela tintura do reacionarismo. Por mais surpreendente que possa se revelar, Lula oferece ao País um enorme retrocesso no ambiente atual e futuro do Supremo Tribunal Federal (STF). Assim como aconteceu com a economia, ele parece não ter aprendido com os erros do passado no quesito “indicação ministros para a Corte Suprema”. Com a vaga aberta pela aposentadoria compulsória de Ricardo Lewandowski, Lula optou por indicar seu advogado nos processos em que foi inocentado pela Justiça.

Zanin: terrivelmente conservador no STF

É perfeitamente compreensível o desejo do presidente em derrotar politicamente Sergio Moro e as forças envolvidas nas ilegalidades que o impediram de concorrer às eleições de 2018 e que o mantiveram ilegalmente preso por 580 dias. No entanto, o perfil do advogado Cristiano Zanin não corresponde ao que o Brasil espera de um jurista comprometido com as mudanças necessárias em sentido amplo. Os setores progressistas do meio jurídico já apontavam, desde os primeiros rumores envolvendo essa hipótese, os riscos do nome do advogado. Não obstante o importante trabalho efetuado na defesa de Lula, Zanin sempre apresentou um perfil bastante conservador em termos políticos, jurídicos e ideológicos. Quem o conhecia de muito antes sabia de suas características, o que o afastaria a princípio de alguém que merecesse receber o aval de Lula para ocupar o estratégico cargo até 2051.

Pois não foi necessário nem um mês desde sua posse para que a opção se revelasse bastante problemática. Foi uma sequência surpreendente de votos no STF que recebeu elogios da direita e do bolsonarismo, ao passo que restou espanto e decepção no lado das forças progressistas. Zanin votou contrariamente à descriminalização das drogas, negou direitos a suspeitos de furtos de valor irrisório, votou contra a equiparação de homofobia aos crimes de racismo, ofereceu manifestação favorável à equiparação das guardas municipais ao sistema de segurança pública e se posicionou a favor de os juízes trabalharem em casos em que haja parentes atuando pelo lado da defesa de interessados. Uma loucura!

PM da Bahia: quem segura o genocídio?

Outro tema que vem ocupando muito espaço nos grandes meios de comunicação – e que anda incomodando bastante setores expressivos da base de apoio de Lula – refere-se às revelações crescentes a respeito da violência policial nas unidades da federação. As práticas sistemáticas de ilegalidades, assassinatos e demais barbaridades pelas polícias militares (PMs) dos 26 estados e do Distrito Federal são antigas e bastante conhecidas da população. No entanto, em tempos mais recentes as manchetes envolvendo governadores do Partido dos Trabalhadores ganharam em volume. O caso da Bahia tornou-se emblemático, cuja PM ascendeu ao posto de mais violenta em todo território nacional.

A questão por si só já seria bastante problemática, mas ganha ainda maior envergadura uma vez que o principal cargo na Esplanada dos Ministérios pertence atualmente àquele que foi governador daquele estado durante dois mandatos seguidos. Rui Costa ocupou o Palácio de Ondina no período que se inicia em 2015 e termina em 2022. Desde o início deste ano ele é o ministro chefe da Casa Civil de Lula. Ao longo dos últimos anos a PM baiana passou à frente de corporações similares, até então tidas como as mais violentas, a exemplo de São Paulo e Rio de Janeiro. O sucessor de Rui Costa, o atual governador Jerônimo Rodrigues, tem mantido a mesma postura de prestigiar e empoderar as lideranças policiais responsáveis pela escalada da mortandade.

Lula já passou por diversas situações de crise política em seus governos e sabe muito bem que os piores assessores e colaboradores são aqueles que procuram esconder do chefe as dificuldades do mundo real. A solidão do poder e o encastelamento dos líderes políticos muitas vezes impedem que os mesmos mantenham sua sintonia com o humor das ruas e com a temperatura e a pressão do Brasil profundo.

Como pode ser percebido pelo exposto acima, não é apenas o encantamento de Haddad com as magias tentadoras do liberalismo que contribui para oferecer essa indesejável tintura conservadora ao terceiro mandato de Lula. Existem outras dimensões de seu governo que precisam ser enfrentadas e corrigidas para que o programa para o qual ele foi eleito possa finalmente deslanchar.

Ao contrário da conhecida reação estreita dos apoiadores oportunistas, as críticas construtivas são fundamentais para o aperfeiçoamento das políticas adotadas, bem como para a correção dos equívocos e desvios existentes até o momento. O presidente precisa saber que há muito desconforto na sua base progressista e de esquerda com os rumos que alguns dos integrantes de sua equipe estão tentando impor ao governo. Lula sempre repete que só aceitou a incumbência de um novo mandato para conseguir fazer mais e melhor do que nos mandatos anteriores. Pois esse é o momento para dar uma sacudida em sua equipe, deixar para trás os traços do conservadorismo ainda existente e corrigir o rumo de seu governo.

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Ilustração: Mihai Cauli  
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