Cartoon de autoria do jornalista e conselheiro Paulo de Tarso Riccordi.

Mal começou a CPI da Covid-19 e é extensa a lista de trapalhadas produzidas pelos integrantes do governo e dos senadores que o apoiam. Primeiro, o ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos – aquele que se vacinou às escondidas para não levar bronca de Bolsonaro – montou um comitê de crise para blindar o presidente. Foi preparada uma lista com 23 itens que poderiam ser usados contra o capitão durante os trabalhos da comissão e enviada para 13 ministérios, que ficaram encarregados de preparar a defesa. Evidentemente a relação vazou, foi parar na imprensa e servirá de roteiro para os senadores de oposição e independentes conduzirem os trabalhos.

Em seguida, veio a ação judicial movida pela deputada Carla Zambelli (PSL-SP), para tentar barrar a indicação do senador Renan Calheiros (MDB-AL) como relator da CPI. A liminar foi ignorada pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Segue o baile. Com uma tropa de choque governista oscilando entre a incompetência e a omissão, coube ao filho 01, senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), tentar atrapalhar a instalação da comissão. De repente, tomado por um ímpeto cientifico, pregou o adiamento dos trabalhos com a alegação de que a CPI poderia causar aglomeração entre os senadores. Papai não deve ter gostado nada de ver o filhote defendendo a vacina.

Depois, vieram os requerimentos dos senadores governistas que foram produzidos por uma servidora da Secretaria Especial de Assuntos Parlamentares, vinculada à Secretaria de Governo. Identificou-se em sete documentos o registro no campo de criação dos arquivos o login em nome de Thais Amaral Moura, funcionária da Secretaria de Governo. Os documentos pedem a convocação de cinco especialistas vinculados a teses defendidas pelo governo federal em relação à pandemia, como a médica Nise Yamaguchi, defensora do uso da cloroquina, medicamento comprovadamente ineficaz contra a Covid-19. Aliás, Thais é namorada de Fred Wassef, advogado do clã Bolsonaro.

Na última terça, 04 de maio, ao depor na CPI, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta não deixou barato e humilhou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) ao afirmar que havia recebido por engano do ministro das Comunicações, Fábio Faria, o mesmo questionamento que estava sendo feito pelo senador governista. Orientado por Faria, Nogueira perguntou se era verdade que Mandetta havia recomendado chá, canja de galinha e reza contra o novo coronavírus. De fato, cautela e canja de galinha fariam muito bem ao Palácio do Planalto nesse momento.

No mesmo dia, outro ex-ministro, o general Eduardo Pazuello alegou ter tido contato com dois coronéis auxiliares infectados pelo coronavírus e conseguiu adiar o depoimento que deveria acontecer hoje. Pazuello vinha passando por treinamento para a audiência mas seu desempenho não estava convencendo ninguém. O general pode fugir, mas não pode se esconder. Quando terminar a quarentena, terá que comparecer à CPI e será confrontado com o adiamento da compra de vacinas, a falta de oxigênio em Manaus e a fabricação em massa de cloroquina nos laboratórios do Exército, entre outros absurdos. O general ministro, capacho de Bolsonaro – “um manda e o outro obedece” – está, como todo bom covarde, morrendo de medo de ser preso.

Aliás, falando em covarde, o desespero de Bolsonaro é tanto que já procurou até o governador de Alagoas, Renan Filho, filho do senador Renan Calheiros (MDB-AL), para que este contemporizasse junto ao pai. Em seu discurso de abertura, Calheiros afirmou que conduziria os trabalhos de forma técnica e imparcial, mas fez um alerta: “Não foi o acaso ou flagelo divino que nos trouxe a este quadro. Há responsáveis, há culpados, por ação, omissão, desídia ou incompetência e eles serão responsabilizados. Essa será a resposta para nos reconectarmos com o planeta. Os crimes contra humanidade não prescrevem jamais e são transnacionais. Slobodan Milosevic e Augusto Pinochet são exemplos históricos. Façamos nossa parte”.

Como dizia Ulysses Guimarães, “sabe-se como começa uma CPI, mas nunca se sabe como vai terminar”. É bem possível que a esta altura, o capitão negacionista e genocida, que boicotou a compra de preciosas vacinas, promoveu aglomerações e alardeou o tratamento precoce com substâncias inúteis, esteja considerando seriamente andar com uma cápsula de cianureto no bolso. Pode ser a saída definitiva, que o livrará do Tribunal de Haia e, a nós brasileiros, deste assassino sem alma.

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