Ilustração: Mihai Cauli

Kafka inspirou esperança

Foi em 1902 que os irmãos se conheceram: Max Brod tinha 18 anos, Kafka tinha 20. Conversam, caminham e seguem conversando, diariamente, uma dupla cuja história consta do livro “O último processo de Kafka: a disputa por um legado literário”, de Benjamin Balint (Editora Arquipélago). Um livro com ritmo, que narra a disputa pelos manuscritos de Kafka, que se origina na história da mais famosa amizade literária da História. “Nós completávamos um ao outro”, escreveu Brod, e Kafka o elegeu como depositário de seu espólio com a condição de que o amigo queimasse tudo. Ora, podia imaginar o escritor judeu de Praga que o seu irmão não poderia queimar seus escritos, ao contrário, consagrou o amigo.

Das interpretações que já tentei e as que li sobre a obra de Kafka, foi em Elias Canetti que encontrei uma das luzes. No seu extenso ensaio “O outro processo”, sustenta que é na humilhação que o escritor tem um dos seus temas centrais. Dá exemplos, como o de “A metamorfose”, no qual a humilhação se concentrou no corpo que sofre, transformado em um animal repelente. Em “O processo” há o tribunal que humilha, pois é sempre esquivo, e as portas, ao final, se fecham para “K”. As humilhações expressam o masoquismo, uma das formas de aliviar o desamparo- “sofro mas não estou só” – que faz a obra de Kafka ser tão atual.

A outra luz sobre Kafka encontrei em George Steiner, no seu “Um comentário sobre ‘O processo’ de Kafka”, onde conclui que o escritor é herdeiro da epistemologia do comentário talmúdico. Kafka medita sobre a lei, seus mistérios, com parábolas, fábulas, contos, que são como reflexões rabínicas. Viver é ser condenado por estar vivo, é sua essência metafísica e particular de “O processo”. Steiner destaca as influências de Gogol e Dostoiévski, que escreveram sobre os anônimos funcionários antes dele. Também destaca o humor “a la” Buster Keaton de Kafka, e aí segue a linha de Walter Benjamin. O escritor lia aos seus amigos o que escrevia e todos riam da sua imaginação graciosa.

O poeta W. H. Auden disse: “Se for preciso nomear o artista que mais se aproxima de ter o mesmo tipo de relação com nossa era que Dante, Shakespeare e Goethe tiveram com a deles, Kafka é o primeiro que vem à mente”. Simone de Beauvoir: “Kafka nos revelou nossos problemas, o confronto com um mundo sem Deus no qual a salvação estava em jogo”. Já García Márquez escreveu que após ler “A metamorfose” teve a convicção de que poderia contar suas histórias sem ter que demonstrar os fatos. Muitos são os que viram na obra de Kafka o que estava por vir nos campos de extermínio, onde morreram suas irmãs e sua noiva Milena.

Por fim, uma história ocorrida com Kafka, que passeava pelo parque Steglitz de Berlim com Dora Dymand quando se deparam com uma menina chorando. Seus pais contam que ela tinha perdido sua boneca e compraram outras, mas seguia tristonha. Num momento, Kafka olhou a menina e disse que sua boneca não tinha se perdido, mas saíra a viajar e que tinha escrito uma carta. A menina surpresa pediu a carta, e o escritor disse que no próximo dia, à tarde, viria ao parque trazer a carta. Foi o que fez, não só no dia seguinte como em outras semanas, e pôs fim à história com o casamento da boneca.

Contei essa história para minha neta Carol, que tinha à época quatro anos. Perguntei a ela quem escrevera as cartas, e ela disse que fora a boneca. Dois anos depois, contei a mesma história e voltei a perguntar quem tinha escrito as cartas, e a neta disse: “O tio”. Perguntei, então, se o tio fez bem em mentir à menina, e ela disse que só assim ela parou de chorar. Kafka escreveu que a esperança existe, mas não para nós, entretanto foi ele que devolveu a esperança para essa menina. O poeta Alberto Pucheu criou uma ficção sobre a vida dessa menina em que se aprende sobre o amor que um desconhecido pode sentir por outro desconhecido. Kafka, com suas histórias, tem secado nossas lágrimas com a graça de sua imaginação.

Publicado originalmente no Facebook do autor.

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.

Clique aqui para ler outros artigos do autor.