O destino está em nossos votos e nos valores que compartilhamos com a sociedade!

Estamos à beira de um ponto de não retorno….
Todos sabemos que temos de mudar de rumos, mas quase nada acontece…
O mais provável, no entanto, é que só com o aprofundamento da
catástrofe planetária a humanidade despertará para realmente
mudar as formas como a sociedade se administra…
Até quando durará essa observação passiva da catástrofe em câmera lenta?
Ficar repetindo que “os mercados” vão resolver é coisa para idiotas ou
pessoas com interesses pessoais – frequentemente, ambos”.
Dowbor (2022: 162-165).

Esses trechos, extraídos da conclusão do inspirador livro do professor Ladislau Dowbor, alertam para um ponto de não retorno que vai além da crise climática: sugerem as consequências potencialmente irreversíveis do aprofundamento da expropriação capitalista neoliberal, do ocaso da democracia liberal e da perda da oportunidade concreta de mobilizar os fartos recursos disponíveis para garantir a todos um mínimo de dignidade e bem-estar. Sua advertência denuncia a passividade diante dessa catástrofe em câmera lenta, alimentada pela crença de que “os mercados” – por meio de mais desregulamentação, competição, privatizações e menos Estado – resolverão nossos impasses, enquanto se estreita a possibilidade de recompor e realizar as promessas do consenso civilizatório construído ao longo dos últimos 400 anos.

Vivemos um momento crucial para a consolidação ou a ruptura desse consenso civilizatório, com riscos e desdobramentos potencialmente mais profundos e duradouros do que os enfrentados por nossas gerações anteriores, nas contrarreformas conservadoras, restaurações monárquicas e até duradouros regimes fascistas que se seguiram às breves experiências de governos liberais e democráticos de um passado não muito distante. A sobrevivência humana ao longo do século 21, com tantos desafios existenciais além dos já apontados – aumento da desigualdade social nos países desenvolvidos, os impactos da Inteligência Artificial no mercado de trabalho, o surgimento recorrente de guerras e conflitos regionais, o desencanto com valores democráticos e seculares e perda da legitimidade das políticas públicas, entre os principais (Jannuzzi 2026) – depende da renovação da aposta civilizatória que nos trouxe até aqui.

De fato, não foi pelas supostas virtudes do livre mercado, da opressão dos mais fortes contra as minorias, da intolerância às diferenças e da legitimação das desigualdades sociais que a humanidade conseguiu percorrer os últimos 14 mil anos. Chegamos até aqui pelos méritos da cooperação humana, da solidariedade e da engenhosidade tecnocientífica, bem como pelas transformações culturais e grandes revoluções políticas e sociais que marcaram o mundo ocidental desde o final do século 16. Como destacam Bobbio (2011), Carvalho (2018), Singer et al. (2021) e Hobsbawm (2023), entre inúmeros autores, ao longo de quatro séculos fomos construindo consensos em torno de ideias, premissas e valores orientados à coesão societal, por isso chamados de civilizatórios.

O percurso do consenso civilizatório foi longo e tem suas raízes mais evidentes no século 16, com o desencantamento do mundo e a renovação da filosofia natural, aprofundando-se com o Iluminismo dois séculos mais tarde. A razão, a observação, a experimentação e o conhecimento científico afirmaram-se como formas privilegiadas de compreensão do mundo. Ao mesmo tempo, fortaleceram-se a crítica à autoridade e ao dogma, a secularização e a autonomia do indivíduo. Esses processos forneceram parte importante das bases intelectuais sobre as quais se desenvolveriam as revoluções políticas subsequentes. Iniciada em 1640, a Revolução Inglesa lançou as sementes para a consolidação do Estado de Direito e para as tensões modernas entre autoridade e democracia nos séculos seguintes. A Revolução Americana (1776) avançou na afirmação da liberdade e dos direitos civis e políticos, contribuindo para a difusão das ideias republicanas de governo representativo e da autodeterminação política.

A Revolução Francesa (1789) ampliou esse legado ao proclamar liberdade, igualdade e fraternidade, associando-os à cidadania, à secularização e à pretensão de universalidade dos direitos. Logo em seguida, em 1791, a Revolução Haitiana expôs uma contradição fundamental desse universalismo: se liberdade e igualdade eram efetivamente universais, deveriam alcançar também os escravizados, negros e povos submetidos à dominação colonial. As guerras de independência na América Latina ao longo do século XIX contribuíram para colocar em questão a escravidão no continente e consolidar os ideais de soberania política e representação popular. A mobilização de camponeses, operários e classes médias contra a extrema concentração de terras, autoritarismo político e a exploração estrangeira colocou também a Revolução Mexicana, entre 1910 e 1920, como outro marco na construção do consenso civilizatório.  Por fim, a Revolução Russa de 1917 colocou no centro do debate a igualdade material, os direitos sociais, a propriedade e a intervenção estatal, formulando uma questão que atravessaria todo o século 20: seriam suficientes a igualdade jurídica e os direitos políticos formais diante de profundas desigualdades econômicas e sociais?

Como registou Hobsbawm (2023), essas revoluções e transformações políticas não teriam ocorrido, pelo menos com a intensidade que as caracterizou, se a base econômica mundial não viesse a mudar radicalmente com o advento da Revolução Industrial a partir de meados do século 18. A expansão do capitalismo industrial requereu a extração acelerada de matérias-primas, inclusive das colônias conquistadas, a concentração populacional em poucos centros urbanos manufatureiros, a exploração da mão de obra em jornadas, condições e remuneração degradantes. Essas condições acabaram por induzir, como reação, a organização dos trabalhadores em sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos, portadores de bandeiras de instauração e ampliação dos direitos trabalhistas, políticos e sociais.

Ao longo do século passado, outra transformação decisiva foi a progressiva institucionalização dos sistemas públicos de educação, saúde e proteção social nos países centrais europeus e, mais tardiamente, nas nações ibéricas e latino-americanas (Kerstenetzky, 2012). O Estado de Bem-Estar Social conferia, enfim, materialidade aos princípios de igualdade, dignidade humana, tolerância às diferenças e reconhecimento da reparação às injustiças, no que a Constituição Federal brasileira de 1988 é uma grande referência (Carvalho 2018). A complexidade da gestão das políticas, programas e serviços nesse novo Estado, muito superior à requerida no Estado Burocrático-Liberal do século XIX, exigiu crescente ampliação e profissionalização da administração pública. Era cada vez mais necessária a competência no uso do conhecimento e das evidências na formulação e avaliação das políticas públicas, garantindo que elas estivessem alinhadas aos valores públicos que haviam inspirado sua proposição (Jannuzzi, 2024). Não menos importante para a pauta civilizatória em construção foi o reconhecimento da sustentabilidade socioambiental como princípio de desenvolvimento a partir da segunda metade do século passado. Tornaram-se evidentes os limites do uso e da exploração econômica dos recursos naturais do planeta frente às necessidades de bem-estar das gerações presentes e futuras.

Nesse sentido, no limiar do século 21, a assinatura dos compromissos sociais em torno da Agenda de Desenvolvimento do Milênio, para o período de 2000 a 2015, pela totalidade dos países membros das Nações Unidas, parecia anunciar mais um passo decisivo para concretização da “marcha civilizatória” histórica. O espírito do tempo favorável à maior cooperação global no combate à fome e à universalização do acesso a serviços básicos de educação e saúde acabou levando, nos anos seguintes, a ampliação do escopo dos compromissos de desenvolvimento. Assim, na conferência Rio+20 no Brasil em 2012, lançou-se a carta “O Futuro que Queremos”, documento-base da Agenda de Desenvolvimento Sustentável para 2015-2030. Também aprovada por unanimidade na Assembleia das Nações Unidas, em 2015, essa agenda previa mais de 160 compromissos sociais, econômicos, ambientais e institucionais, retomando boa parte dos princípios, valores e direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.

O mundo parecia, em boa medida, chancelar os compromissos tão arduamente construídos ao longo dos últimos quatrocentos anos de disputas políticas, guerras e revoluções sangrentas. Parecíamos ter chegado a um pacto em torno de dez valores de coesão societal, distintos em suas origens, mas crescentemente articulados entre si, a saber: valores relativos à redução das desigualdades sociais; à responsabilidade do Estado na proteção social e na garantia da dignidade humana; à mudança sociocultural e à autonomia individual; ao reconhecimento das diferenças, à diversidade e à inclusão; à secularização da vida pública; à soberania e à autonomia na inserção internacional; à sustentabilidade socioambiental e à responsabilidade intergeracional; à democracia, ao pluralismo e aos limites ao exercício do poder; ao reconhecimento do valor do conhecimento científico como forma de compreensão da realidade e o papel relativo dos valores públicos e das evidências na orientação das decisões de políticas públicas (Quadro 1)[1].

Como pudemos presenciar desde meados da década passada, esse legado institucional historicamente constituído não resistiu por muito tempo como consenso coletivo, concreto ou utópico. Como em outros momentos da história, a “marcha civilizatória” deu passos para trás, com parcelas expressivas da sociedade mundial — e brasileira — deixando de acreditar na possibilidade de construção de um “Destino Coletivo” compartilhado, marcado pelo bem-estar generalizado, prosperidade econômica, tolerância cívica e segurança ambiental (polo A no quadro). Estaria essa parcela da sociedade apostando que a contestação desse consenso (adesão aos valores reunidos no Polo B) ofereceriam uma saída possível para o mundo contemporâneo diante de seus desafios existenciais — mudanças climáticas, desigualdades extremas, riscos tecnológicos, fragilização democrática, concentração econômica e conflitos identitários?

O exercício contrafactual de imaginar uma sociedade em que predominassem esses valores certamente levaria a uma sociedade sem um “Destino Coletivo” promissor: o consumismo desenfreado levaria a uma maior degradação ambiental; eventos climáticos afetariam a produção de alimentos, as moradias e os empregos; os conflitos regionais e interpessoais daí decorrentes induziriam respostas autoritárias, com consequências sobre a vida das pessoas. Ao mesmo tempo, em outro circuito especulativo, o aumento da desigualdade, diante da inépcia estatal em regular o capitalismo rentista-digital-plataformista, conduziria a uma concentração ainda maior do poder econômico e político; a reação popular desencadeada por esse quadro de crescente exclusão poderia resultar no endurecimento do regime político. Os dois circuitos convergiriam, assim, para um mesmo cenário sombrio de degradação social e democrática. Talvez nem mesmo o capitalismo resistisse: sem mercado consumidor, sem estabilidade institucional, sem mão de obra a explorar…

Há pouco tempo e espaço para especulação e ambiguidades: os desafios existenciais são problemas sistêmicos e interdependentes e a negação da experiência histórica que nos trouxe até aqui não parece ser uma solução. Um “Destino Coletivo” promissor parece mais viável pela renovação da aposta nos valores civilizatórios reunidos no Polo A, tanto pela experiência histórica acumulada quanto pelas relações de complementaridade e reforço sistêmico que esses valores guardam entre si, explicitadas na seguinte sequência de assertivas: igualdade substantiva favorece proteção coletiva; proteção social favorece condições de autonomia; reconhecimento amplia a igualdade diante de diferenças historicamente constituídas; democracia permite negociar conflitos; sustentabilidade amplia a responsabilidade para com as gerações futuras; e conhecimento científico amplia a capacidade de compreender problemas complexos.

São dois Destinos contrapostos: de um lado, o da primazia dos valores orientados ao bem-estar coletivo e, no limite, à própria possibilidade da Sobrevivência Humana; de outro, o dos contravalores orientados pela primazia do interesse individual e, no limite, ao Apocalipse Terreno. Eles se assemelham muito aos gerados no exercício de cenarização futura para o Brasil apresentado em artigo anterior neste portal. De um lado, pode-se caminhar, nos próximos anos, para o Brasil–Blade Runner, um país degradado à semelhança da Los Angeles distópica do filme, marcado pela desigualdade extrema, pelo Estado mínimo, pelo capitalismo e pela IA sem regulação e por uma população sujeita à própria sorte diante dos desastres climáticos e da violência das milícias que disputam os territórios; de outro, para o Brasil–Xangrilá, marcado pela solidariedade como princípio de coesão social, por políticas públicas robustas, democracia fortalecida, tecnologia regulada e maior proteção ambiental. Entre um e outro cenário está o país de hoje, o Brasil–Bacurau, marcado pela resistência popular em meio a conflitos permanentes, pela desinformação e pelo discurso de ódio nas redes sociais e por políticas públicas incompletas e subfinanciadas.

Para onde caminharão, então, a humanidade e o Brasil? Não há destino previamente traçado, nem marcha civilizatória irreversível. O futuro dependerá das escolhas coletivas que fizermos no presente, das políticas públicas que formos capazes de construir e, antes delas, dos valores societais que estivermos dispostos a reafirmar ou abandonar. No Brasil, parte dessa escolha se materializará de forma muito concreta na próxima semana, no voto para presidente do país. Faça sua parte na construção de um Destino Coletivo de dignidade, bem-estar e esperança para todos os brasileiros — inclusive para aqueles que deixaram de acreditar que um futuro comum ainda seja possível.

Quadro 1: Valores societais em disputa no século XXI

Fonte: Elaborado pelo autor a partir de interação maiêutica com GPT 5.6 entre maio e outubro de 2026, a partir dos questionários da World Values Survey, Latinobarometro, Estudo Eleitoral Brasileiro, estudos empíricos de Sousa (2024), Almeida (2025) e Nunes (2025).

Notas:
[1] Esses dez valores societais foram decorrentes não só das reflexões derivadas dos autores clássicos citados, mas também do levantamento de várias pesquisas sobre valores, opiniões e percepções no Brasil e no mundo, como World Values Survey, Latinobarometro, Estudo Eleitoral Brasileiro, estudos empíricos do professor Jesse Sousa (2024), Almeida (2025) e Nunes (2025).

Referências:

ALMEIDA, A.C. A cabeça do brasileiro: vinte anos depois. Rio de Janeiro: Difel, 2025.
BOBBIO, N. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Ed. Unesp, 2011.
CARVALHO, J.M. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
DOWBOR, L. Resgatar a função social da economia: uma questão de dignidade humana. São Paulo: Elefante, 2022.
HOBSBAWN, E.  Era das Revoluções 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.
JANNUZZI, P. M. Políticas públicas, valores e evidências em tempos de inteligência artificial. Campinas: Alínea, 2024.
JANNUZZI, P.M. Políticas Públicas em Ação: um guia prático em 12 disjuntivas. Campinas: Alínea, 2026.
KERSTENETZKY, C. O Estado do Bem-Estar Social na idade da razão. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
NUNES, F. Brasil no espelho. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2025.
SINGER, A. et al. Estado e democracia: uma introdução ao estudo da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
SOUSA, J. O pobre de direita: a vingança dos bastardos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Revisão: Celia Bartone
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